Alterações da Pele na gravidez

A gravidez caracteriza-se por alterações fisiológicas e patológicas em praticamente todos os órgãos. A pele não é excepção, existindo dermatoses que podem suscitar ansiedade, quer na grávida quer no seu médico assistente.

As alterações cutâneas durante a gravidez são comuns e estão relacionadas com factores hormonais, imunológicos e metabólicos. Podem ser alterações cutâneas fisiológicas ou dermatoses específicas da gravidez. Salienta-se a importância do diagnóstico precoce e correcto neste contexto, para que possa ser devidamente previsto o risco materno-fetal ou o esclarecimento da grávida quanto à inocuidade da sua dermatose.

Alterações cutâneas fisiológicas na gravidez

As alterações cutâneas fisiológicas na gravidez podem categorizar-se por alterações vasculares, da pigmentação, do tecido conjuntivo, do pêlo e das unhas.

Alterações vasculares

A produção de estrogénio e o aumento do volume intravascular contribuem para as alterações vasculares observadas durante a gravidez. Estas alterações mais frequentes são: angiomas em aranha, eritema palmar (Figura 1), varicosidades da safena, vulvares e anais. O aumento da pressão venosa induzido pelo útero é um dos mecanismos envolvidos na etiopatogenia das varicosidades. A hiperemia gengival com possibilidade de gengivite e gengivorragia destaca a importância da vigilância da Saúde Oral na grávida.

Figura 1 – Eritema palmar.

Alterações da pigmentação

A hiperpigmentação cutânea pode ser observada em cerca de 90 por cento das grávidas e parece ter como etiopatogenia o aumento da produção de estrogénios, de progesterona e da hormona estimulante dos melanócitos (MSH). A línea alba denomina-se na gravidez por línea nigra, pela hiperpigmentação característica.

As aréolas, axilas e região genital são locais nos quais a maioria das mulheres apresenta hiperpigmentação. As efélides e os nevos podem adquirir uma tonalidade mais escura, sem significado patológico; este é, no entanto, um motivo frequente de preocupação na grávida. A abordagem das alterações dos nevos melanocíticos e do melanoma maligno cutâneo na grávida é, por vezes, motivo de dúvidas e preocupação. É importante referir que qualquer alteração numa lesão pigmentada na mulher grávida deve ser abordada de forma semelhante à dos outros doentes.

A alteração da pigmentação mais destacada pelas mulheres é o melasma ou cloasma, que surge em cerca de 70 por cento das grávidas e que se caracteriza por manchas hiperpigmentadas circunscritas da face. Histologicamente, o melasma é classificado em epidérmico e dérmico, consoante a localização da melanina. É importante destacar aqui o papel da exposição solar ou outra fonte de radiação ultravioleta, como factor agravante, e a fotoprotecção como cuidado mais importante.

Alterações do tecido conjuntivo

As estrias gravídicas são as alterações do tecido conjuntivo mais frequentemente encontradas e podem ser observadas no abdómen, ancas, nádegas e região mamária. Surgem geralmente a partir do sexto mês e inicialmente são eritematosas, paralelas entre si, adquirindo um aspecto atrófico linear. As cicatrizes, nomeadamente as cicatrizes quelóides, podem aumentar de tamanho. Os molluscum fibrosum gravidarum (fibromas pêndulos) surgem nas faces laterais do pescoço e axilas, ocasionalmente na nuca, decote e pregas inframamárias.

Alterações do pêlo e das unhas

O número de folículos pilosos em fase de anagénese aumenta durante a gravidez e a maioria das grávidas refere espessamento do cabelo. Por outro lado, o deflúvio telogénico surge 1-5 meses após o parto e, geralmente, tem resolução espontânea. Durante a gravidez pode ser observado um hirsutismo leve a moderado com resolução, na maioria das vezes, seis meses após o parto.

As unhas têm uma taxa de crescimento acelerada durante a gravidez. Podem ser observadas alterações, como sulcos transversais, onicólise ou leuconíquia. A maioria destas alterações é benigna. No entanto, outras causas de onicodistrofia devem ser excluídas, como psoríase, líquen plano ou onicomicose.

Dermatoses específicas da gravidez

As dermatoses específicas da gravidez são patologias que resultam directamente das alterações observadas durante este período. Faz-se referência a duas dessas dermatoses: Pápulas e placas urticariformes pruriginosas da gravidez (PUPPP) e penfigóide gestacional (PG) ou Herpes gestationis.

Figura 2 – Pápulas e placas urticariformes pruriginosas da gravidez.

Pápulas e placas urticariformes pruriginosas da gravidez (PUPPP)

A PUPPP é uma dermatose pruriginosa comum, geralmente observada no terceiro trimestre e em primigestas. A etiopatogenia é desconhecida. A distensão abdominal, bem como factores hormonais e imunológicos, têm sido implicados na sua patogénese. Esta dermatose caracteriza-se clinicamente pelo aparecimento de pápulas urticariformes e vesículas pruriginosas (Figura 2), com localização predominantemente abdominal, muitas vezes nas estrias gravídicas, poupando a região periumbilical. A extensão das lesões para as coxas e nádegas é possível, assim como para os membros superiores, embora com menor frequência.

As patologias cutâneas não específicas da gravidez, tais como eritema multiforme, toxidermia, eczema de contacto e urticária não devem ser esquecidas no diagnóstico diferencial deste quadro clínico. A terapêutica tópica com corticosteróides e sistémica com anti-histamínicos pode ser instituída para alívio sintomático. Esta patologia é auto-limitada, com resolução no período pósparto na maioria dos casos; o prognóstico materno-fetal geralmente não é afectado.

Figura 3 – Penfigóide gestacional.

Penfigóide gestacional (PG) ou Herpes gestationis

O penfigóide gestacional é uma dermatose bolhosa subepidérmica auto-imune observada durante a gravidez (geralmente no segundo e terceiro trimestres) e no período pós-parto imediato. A presença de anticorpos antiplacenta, que reagem de forma cruzada com proteínas da pele, parece ser o mecanismo envolvido na patogénese.

O quadro clínico caracteriza-se por manchas eritematopapulosas, vesículas e bolhas tensas, intensamente pruriginosas, com localização inicial no abdómen e posterior generalização (Figura 3). A corticoterapia sistémica oral é a principal arma terapêutica. A maioria das doentes responde à terapêutica com prednisolona 0, 5mg/Kg/dia. Alguns casos são controlados com corticoterapia tópica e outros exigem o recurso a terapêuticas adjuvantes.

 
Em: Dermatologia | Comentar

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