Antibióticos

A descoberta da penicilina por Fleming, em 1929, e a demonstração posterior da sua potente acção como agente antibacteriano, marcaram o início da era dos antibióticos, tendo estes factos talvez constituído um dos maiores progressos médicos desta centúria.

O sucesso conseguido, neste século, no tratamento das infecções pelo uso de antibióticos foi tal que, muitas vezes, ainda hoje, o aspecto emotivo preside à sua prescrição, especialmente quando falamos de crianças. Se, por um lado, perante uma doença febril, o médico anseia curar rapidamente o seu doente, por outro lado, a ansiedade dos pais pressiona muitas vezes a prescrição do antibiótico.

Ora, na Pediatria as doenças infecciosas representam mais de 50 por cento dos problemas e este facto, aliado ao anterior, faz com que se utilizem antibióticos demasiadas vezes. Em Portugal, não existem estatísticas relativamente a este assunto, mas segundo um estudo publicado nos EUA abrangendo o período 1980-1990, terá havido um aumento de 48 por cento na taxa de prescrição de antibióticos.

Este uso indiscriminado, que tem vindo a contribuir para a crescente resistência dos microrganismos, é agravado pelo aparecimento constante de novos antibióticos, colocando o médico perante uma escolha cada vez mais difícil e aumentando a probabilidade de emprego inadequado.

O aparecimento de estirpes resistentes, como é o caso do Streptoccocus pneumoniae (pneumococo), frequentemente implicado na otite média aguda, tem levantado sérios problemas, pois este agente é também capaz de causar meningite e as armas terapêuticas disponíveis para o combater são cada vez menos.

Factores responsáveis

As doenças infecciosas, de um modo geral, resultam da interacção de três factores essenciais: o tipo de agentes infecciosos, que na criança na sua maioria são vírus, factores relacionados com o hospedeiro, como seja a idade e o estado imune, e factores ambientais, nomeadamente a qualidade dos cuidados maternos e a frequência de infantário.

Estudos epidemiológicos estabeleceram que as crianças que frequentam infantários são duas a 18 vezes mais propensas a contraírem doenças infecciosas do que as outras e, consequentemente, a tomarem antibióticos com maior frequência.

As infecções respiratórias e a diarreia são as doenças mais comummente observadas nestas crianças. De entre estas, até aos 3 anos, a otite média aguda é a causa mais frequente para a prescrição de um antibiótico.

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Relativamente às infecções respiratórias, outros factores que podem ser agravantes são o tabagismo passivo e a existência de atopia (terreno alérgico). Por exemplo, o risco de um lactente cujos pais fumam em casa ter uma bronquiolite é cerca de 4 vezes superior ao risco dos que não estão expostos ao fumo, sendo o tabagismo materno pior do que o paterno. Assim, fumar em casa está totalmente contra-indicado.

Medidas a tomar

Em relação ao risco alérgico, devem ser tomadas medidas preventivas (lutar contra os ácaros do pó, pêlos de animais, etc.), pois existe um maior risco de complicações nas infecções respiratórias, como seja a pieira.

Com a chegada do Inverno as infecções são frequentes, especialmente as respiratórias, que como é sabido são, na sua grande maioria, de causa vírica. A maior parte afecta o aparelho respiratório superior, envolvendo o inferior em menor percentagem.

Os vírus mais frequentemente implicados são rinovírus, adenovírus, vírus sincicial respiratório, parainfluenzae e infuenzae. Até aos 6 anos a criança tem em média 5 a 9 episódios de infecções respiratórias agudas por ano, com um pico de maior incidência entre os 2 e os 4 anos.

A maioria são situações ligeiras e associam-se a sintomas gerais em cerca de metade dos casos. De um modo geral, uma criança saudável e acima dos 3 meses de idade, com febre mas com bom estado geral, que continua a alimentar-se razoavelmente e a brincar nos intervalos em que a temperatura baixa, tem uma alta probabilidade de ter uma infecção vírica.

Convém ser vigiada e no caso de frequentar o infantário o melhor é ficar em casa, devendo os pais ser informados quanto aos sinais e sintomas de alerta e quanto à duração possível da doença. Na maioria dos casos, a doença é autolimitada, em média 3 a 5 dias e cede com tratamento sintomático, nomeadamente antipirético (paracetamol, habitualmente), hidratação, desobstrução nasal e humidificação, se for o caso de uma infecção respiratória; se houver diarreia, uma dieta obstipante e hidratação serão medidas importantes.

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Situações a evitar

Infelizmente muitas destas situações acabam por ser medicadas com antibióticos, que, como se sabe, só deverão ser empregues quando se está (ou pensa estar) perante uma infecção bacteriana. Claro que em determinadas situações a utilização dos antibióticos deve ser o mais precoce possível, quando estamos perante infecções bacterianas graves, como por exemplo sépsis, meningites, pneumonias, infecções osteoarticulares e pielonefrites ou se se trata de doentes imunodeprimidos.

Outros casos há em que inicialmente não existe necessidade de um antibiótico, mas por se concluir existir infecção ou sobreinfecção bacteriana, o seu emprego é justificado; contudo, aqueles dias iniciais foram importantes para o desenvolvimento de anticorpos naturais.

Quando se opta por tratar uma infecção com um antibiótico, a escolha deste deve tentar ser baseada num diagnóstico seguro e tentar associar a maior probabilidade de eficácia à menor probabilidade de efeitos secundários. Sempre que possível, deve ser utilizado um único antibiótico, de espectro de acção estreito, de fácil posologia e mais económico.

Não esquecer que o tratamento deve ser levado até ao fim e que, como com os outros medicamentos em Pediatria, a dose varia em função do peso corporal da criança. Finalmente, cabe ao médico que prescreve um antibiótico, lembrar-se dos aspectos de saúde pública deste tipo de terapêutica, pois não é só a flora microbiana do doente que é alterada, mas também a da comunidade em geral, favorecendo a selecção de bactérias resistentes e conduzindo assim ao desarmamento médico perante as infecções que verdadeiramente necessitam dos antibióticos.

3 perguntas a Elisa Proença Fernandes, pediatra

Em que situações se devem prescrever antibióticos a uma criança?
Os princípios gerais que devem conduzir a prescrição de um antibiótico são os mesmos tanto para crianças como para adultos. No entanto, a escolha a realizar, a dose e a forma de administração têm de ser em função das características próprias de um organismo em desenvolvimento.

As infecções são as doenças mais frequentes na Pediatria, responsáveis por mais de metade dos casos observados, sendo os vírus, os agentes infecciosos mais vezes implicados na sua origem. Como os antibióticos são agentes que matam ou inibem as bactérias, não tendo acção sobre os vírus, a sua prescrição só deve ser feita quando há uma alta probabilidade de se estar perante uma infecção bacteriana.

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Esta decisão baseia-se na história da doença, na observação do doente e, quando necessário, em exames microbiológicos. Existem, no entanto, os chamados grupos de alto risco, definidos de acordo com a idade, doenças associadas e estados de imunodeficiência, que necessitam de uma avaliação mais exaustiva e, frequentemente, da introdução de antibióticos de forma precoce.

A sua utilização é mais vantajosa no Inverno do que no Verão?
No Inverno é verdade que as infecções são mais frequentes, especialmente as respiratórias (na maioria víricas), dada a maior proximidade e intensidade de exposição à infecção, mas a utilização dos antibióticos é vantajosa, como vimos, quando os agentes causadores da doença são bactérias e em função de determinadas condições da criança.

Existe, no entanto, uma maior incidência sazonal de determinadas doenças bacterianas, como sejam infecções por pneumococos e meningococos no final do Inverno e início da Primavera, o que pode levar também a que se prescrevam mais antibióticos nesta altura.

As crianças que tomam muitos antibióticos tornam-se mais frágeis?
Para além da acção principal, que é o controlo da infecção, pretendida com os antibióticos, estes também têm efeitos colaterais: a toxicidade, que é um efeito ao qual a criança é particularmente sensível, e alergias, muito variadas, pondo em último caso a vida do doente em risco.

A utilização de antibióticos para indicações duvidosas ou mesmo impróprias constitui, por vários motivos, um erro, com consequências negativas não só para a criança mas para toda a comunidade. É importante lembrar que a capacidade que as bactérias têm de desenvolver resistência em relação aos antibióticos é enorme, existindo estirpes ulti-resistentes que fragilizam a eficácia do armamento antibiótico para o tratamento de infecções futuras.

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26. Outubro 2010 by admin

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