Bruges

Dois milhões de pessoas visitam Bruges todos os anos. A cidade da Flandres, juntamente com Salamanca, sucede ao Porto e Roterdão como Capital Europeia da Cultura. As suas ruas afiveladas, as torres esguias e as praças largas e irresistíveis são um álibi perfeito para uma visita. Caso não seja suficiente, tente-se o argumento da programação cultural. Em todo o caso, esta cidade medieval desvenda-se com facilidade e prazer. Foi o que achou Rui Guerreiro, que lá quer voltar. A cidade conhece-se a pé ou navegando nos seus canais. Esta é, de facto, a cidade perfeita para os turistas.

Bruges é um dos maiores orgulhos belgas. A principal cidade da Flandres ocidental é a “atração turística perfeita”, como lhe chamou o guia da Lonely Planet (sobre a Bélgica e o Luxemburgo), que raramente tem dúvidas mas nem sempre sabe tudo. Dois milhões de turistas “inundam” a cidade todos os anos. Literalmente. Aparentemente, os canais não se ressentem, mas o centro pedonal sim. Os domingos, então, são dias de sofreguidão. Os barcos circunvagam os canais, num frenesim contínuo. Os alpinistas – sim, os alpinistas – sobem os 83 metros de altura da torre Belfort numa ousadia que de início não se desvenda. Pois é, tudo isto é verdade. E melhor será este ano.

Bruges é uma cidade de cerca de 120 mil habitantes, cujo centro histórico é um palimpsesto da Flandres e da Bélgica. O seu interesse histórico, turístico e urbano mora no interior das fortificações medievais – quatro das nove entradas permanecem intactas, datando a sua construção do século XIV – e mais precisamente nas praças de Markt e Burg. Não há que enganar. Praticamente todas as ruas desembocam nestas duas praças.

A beleza medieval de Bruge descobre-se a pé, como se se tratasse de uma gigantesca Óbidos. Obrigatoriamente. Os folhetos e guias turísticos sugerem itinerários e em pouco tempo se descortina o labirinto de ruas. Os barcos dão uma ajuda pelos canais navegáveis, com um condutor versado na história da cidade. Melhor só mesmo com o “Bruges-Two Thousand Years of History”, de Noel Geirnaert e Ludo Vandamme. É, bem entendido, uma jornada turística, de postal, mas recomendável para conhecer a cidade numa outra perspectiva.

Voltemos à praça de Markt. Trata-se de uma praça enorme, a fazer lembrar o conceito da famosa Grand Place da capital, dominada por uma torre esguia, classificada recentemente pela Unesco como Património Mundial da Humanidade. Ora bem, Belfort é o nome dessa torre construída no apogeu comercial de Bruges e da Flandres, no século XIII, com 366 extenuantes degraus, que só terminam com uma visão de alívio de um sino e do centro histórico lá em baixo. De permeio, há paragens onde descansar: a subida é difícil e cansativa, mas obviamente vale a pena. Se tiver sorte, ainda pode assitir a um concerto de carrilhão na torre. Aimé Lombaert é o instrumentista ou felizardo, se é que se pode chamar felizardo a alguém que todos os dias sobe centenas de degraus para tocar carrilhão: Eis o horário de Inverno dos concertos: entre as 14h15 e as 15h00 ao domingo e das 9h00 às 10h00 às segundas-feiras.

Saia-se da praça de Markt e avance-se alguns passos para a direita, em direcção à Burg. Esta praça ostenta uma fileira de edifícios fabulosos. Começemos pela basílica de Heilig-Bloedbasileik – prepare-se, porque, aqui, na Flandres, os flamengos quase ignoram a língua francesa -, o que quer dizer basília do Santo Sangue. A basília deve o seu nome à audácia de Thiery d’ Alsace (1128-1168), fundador da capela. Foi Thiery, conde da Flandres, que trouxe para Burges um relicário que se pensava conter o sangue de cristo, na sequência das cruzadas em que se envolveu entre 1150 e 1200.

A basílica tem dois diferentes níveis. Num deles, o mais antigo, estão expostas várias peças de arte sacra. No outro, onde está colocado o relicário, a beleza é algo estonteante. Há, pelo menos, dois aspector fabulosos nesta basílica, que, só por si, justificam a entrada: as cores e os vitrais. Inexcedíveis. A catedral de São Salvator, com a sua torre de 99 metros de altura construída no século XIII, e os museus de Memling e de Groeninge são outros locais de passagem obrigatória. Neste último, concentra-se a arte flamenga produzida entre o século XIV e o século XX. É cá, por exemplo, que se pode encontrar diante da magia de Jan Van Eyck, unanimemente considerado como o mestre dos pintores da época e eventual inventor da pintura a óleo. Mas também pode optar pelo museu dos diamantes.

Fora da cidade, pode decidir percorrer os campos de batalha da primeira Grande Guerra Mundial e respectivos memoriais, fazer um roteiro pelas fábricas de chocolate e cerveja ou itinerários de bicicleta na cidade (consulte as agências). Com a rede ferroviária de que dispõe a Bélgica, é extremamente fácil conhecer a região da Flandres. As distâncias são curtas e cidades como Gant ou Antuérpia são francamente recomendáveis. Antuérpia, para além de primeiro centro mundial de diamantes e de segunda cidade do país, é também uma urbe cosmopolita, com as belezas e particularidades. E não se pense que “o bairro das luzes vermelhas”, versão minimal de Amesterdão, é a única delas.

Dos Precursores à Tecnologia

“Jan Van Eyck, os flamengos primitivos e o sul da Europa”. A retrospectiva da pintura da Flandres, sob o signo de Van Eyck, claro, é a principal exposição de artes plástica do programa da Capital Europeia da Cultura divulgada até agora, juntamente com duas outras mostras relacionadas com o passado e história flamenga: uma sobre a liga hanseática e outra acerca da relação entre os manuscrtios medievais e a arte contemporânea. Embora o passado seja preponderante, a arquitectura contribui para minorar o seu domínio: Bruges 2002 deixou marcas no urbanismo da cidade com o recurso ao arquitecto japonês Toyo Ito e suíço Jurg Conzett, por exemplo.

Como ir

Depois da derrocada da Sabena – a companhia aérea belga – , as viagens entre Portugal e Bruxelas são asseguradas pela TAP ou, em alternativa, pela Air France. A TAP tem voos diários para a capital belga, com partida do Porto ou de Lisboa. A Air France, por seu turno, oferece uma viagem de Portugal para Bruxelas, com ligação em TGV a partir de Paris.

Como viajar

Bruges não tem aeroporto, mas a viagem de comboio é rápida e confortável. Comboios de duas em duas horas percorrem em 60 minutos a distância entre Bruxelas e Bruges. O bilhete é barato e a estação fica apenas a 1,5 quilómetro do centro medieval. A Bélgica tem uma rede ferroviária de 3.436 quilómetros, uma das mais densas da Europa. Há até quem diga que a rede ferroviária belga pode ser avistada do espaço, qual muralha da China. É bom que os incondicionais da civilização do automóvel saibam que as duas cidades estão separadas apenas por 115 quilómetros.

O que comprar

Recordações de Tintin. A criação de Hergé é um ex-libris do país, pelo que esta cidade da Flandres possui uma Tintin Shop, no centro da cidade. Os preços, avisa-se desde já, são proibitivos. Um descapotável conduzido pelo Tintin na companhia de Milou pode custar muitos euros. Bem, mas, nesta loja, há de todo o tipo de “memorabilia” do repórter da popa. Não se pode esquecer que a Bélgica é também o país da banda desenhada, da cerveja, dos chocolates e… do comércio dos diamantes. Opte você mesmo. De resto, passeie pela Steenstraat, por exemplo, e encontrará todas as lojas modernas que fazem as delícias dos indefectíveis dos centros comerciais.

O que beber

A questão é difícil. Existem 600 tipos de cerveja. Talvez Straffe Hendrix, uma das centenas de cervejas que existem na Bélgica. Esta não é propriamente uma cerveja radical, para quem está habituado às marcas portuguesas, e é fácil de encontrar. Acresce que é produzida na própria cidade, o que lhe confere mais simpatia. Em todo o caso, convém experimentar, experimentar. A Mort Subite, Gouden Carolus, Duvel… Os bares não faltam e as cervejas também não. Alguns deles podem acumular centenas de marcas diferentes. Explore a Kemelstraat, que a oferta é variada nesta rua. Bruge não se trata de uma cidade muito cosmopolita e agitada, pelo que são poucos os clubes e discotecas.

O que comer

Há um meio termo entre a alta cozinha francesa do De Karmeliet – três estrelas no guia Michelin – e os hamburgers do Pickles. Há restaurantes simpáticos e de qualidade um pouco por toda a zona histórica da cidade, como o t’ Nieuw Walnutje, na Walplein, um pequena praça com uma árvore ao centro. Os estabelecimentos mais turísticos situam-se junto à praça de Markt, o centro cívico de Bruges, onde encontra uma diversidade galopante de pratos com mexilhões. Evite as “moulle à parquet”! Ou talvez não. Nesta zona, pode experimentar o Sint, Joris, L’ Intermède ou o Den Dyver.

Bruges Fotos

Canais que atravessam Bruges

Vista do Rozenhoedkaai

St. Salvator Kathedraal (Catedral de Bruges, desde 1788)

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13. Abril 2011 by admin

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