Doença de Crohn

A doença de Crohn nas crianças e nos adolescentes portugueses tem vindo a aumentar. Mudanças ambientais e nos hábitos de vida podem estar na origem do crescimento de uma patologia cuja origem é desconhecida. O gastrenterologista pediátrico, Jorge Amil Dias, fala da doença, da terapêutica e do papel do médico de Medicina Geral e Familiar.

A doença de Crohn é uma doença inflamatória do intestino. “A doença de Crohn resulta de uma resposta imunitária desproporcionada à presença de microrganismos no tubo digestivo. A inflamação desencadeada por certos agentes torna-se fonte de inflamação crónica”, explica o director do Serviço de Pediatria e Gastrenterologia Pediátrica do Hospital de São João, no Porto.

Jorge Amil Dias especifica que alguns dos sintomas desta patologia passam por “alterações digestivas, como diarreia, dor abdominal, hemorragia, mas também por alterações gerais, como emagrecimento, atraso de crescimento, anemia, entre outras”. O factor genético pode estar na origem desta patologia, mas o especialista sublinha que “não é suficiente para prever ou desencadear a patologia”.

A patologia pode afectar crianças e adolescentes e, nesta faixa etária, um dos maiores problemas associados é a dificuldade de crescimento. “Esses doentes têm risco de perturbação do crescimento pela inflamação intestinal crónica, mas desejamos que o tratamento não seja um factor adicional que perturbe esse crescimento, que só ocorre numa fase da vida”, comenta o especialista.

Jorge Amil Dias afirma que, depois do choque inicial, uma família que vive a doença de Crohn ganha progressiva confiança e tranquilidade com o resultado do tratamento.

Possíveis causas da doença de Crohn
O número de pessoas que sofre desta patologia tem vindo a crescer em Portugal. Em 2006, foi criado o Grupo de Estudos da Doença Inflamatória Intestinal (GEDII) que avaliou a prevalência, em Portugal, desta doença inflamatória na infância e adolescência.

Segundo dados do GEDII, existem no País 300 jovens diagnosticados com a doença de Crohn e estima-se que venham a ser identificados anualmente cem novos casos em jovens com idades compreendidas entre os dez e os 20 anos. Para Jorge Amil Dias, este crescimento não tem uma explicação exacta.

No entanto, “pensa-se que a modificação do nosso contacto com as bactérias, uma vez que estamos menos expostos pela melhoria das condições de higiene, possa ter criado um desequilíbrio do sistema imunológico cuja adaptação é muito lenta”, avança.

O gastrenterologista pediátrico aventa ainda outras causas que podem estar associadas a esta patologia: “Outros factores que se modificaram rapidamente nas últimas décadas, por exemplo, a alimentação e a exposição ambiental, poderão também contribuir para a inflamação crónica do intestino”.

A primeira descrição da doença data de 1913, pelo escocês Dazliel, mas esta só foi largamente reconhecida quando Burrill Crohn (na foto) e dois colegas descreveram vários casos em 1932.

Tratamento da doença de Crohn – Terapêutica pela moderação da inflamação
A doença de Crohn é crónica e não tem cura conhecida. Contudo, a qualidade de vida do doente pode ser elevada, existindo períodos de remissão em que a patologia quase não dá sinais. Os momentos agudos da patologia podem ser desencadeados sem causa aparente, mas factores como a alimentação, o stress e o consumo de tabaco podem agravar algumas crises.

A terapêutica da doença de Crohn “baseia-se na moderação do processo inflamatório e no componente infeccioso”. Deste modo, Jorge Amil Dias pormenoriza que “normalmente utilizam-se antibióticos, corticóides, derivados de 5-ASA e imunomoduladores para controlar o factor microbiano e a resposta imune”.

O especialista refere ainda que, em pediatria, a “nutrição entérica exclusiva tem revelado resultados idênticos aos corticóides, pelo que tem sido progressivamente implementada”.
Mais recentemente, têm sido testados medicamentos biológicos, que revelam uma “enorme eficácia, particularmente nos doentes com insuficiente resposta a outros fármacos”, diz Jorge Amil Dias.

A investigação sobre esta patologia decorre a par e passo. O especialista mostrase, por isso, expectante quanto a novos avanços. “O conhecimento pro gressivo dos mecanismos fisiopatológicos da doença tem trazido excitantes perspectivas”, diz o médico, especificando que “a identificação do papel das células Th17 e do processo intra-celular de autofagia poderão abrir novas vias de actuação na doença.

Há numerosas moléculas em investigação que trazem um futuro promissor de melhoria no tratamento destes doentes”. No futuro, espera-se inclusive que seja possível individualizar a terapêutica dos doentes de Crohn de acordo com as características de cada um.

“O conhecimento mais profundo da fisiopatologia e de vários marcadores genéticos e bioquímicos levará à clas sifi cação de cada doente de acordo com determinados fenótipos, evolução previsível, risco de complicações e escolha de opções terapêuticas ‘personalizadas’”, acrescenta.

Jorge Amil Dias termina, por isso, com uma mensagem de esperança: “Embora se trate de uma doença terrível pelas complicações possíveis, há fundada esperança na nossa melhoria para a controlar de forma mais eficaz”.

DIAGNÓSTICO DIFÍCIL

Jorge Amil Dias alerta para a dificuldade que pode ser identificar a doença de Crohn na criança e no adolescente porque “o quadro clínico é vago e os sintomas digestivos podem ser muito discretos”. Tendo em conta esta particularidade da doença, o especialista explica que “alguns exames simples, pouco invasivos, podem dar informações preciosas para se investigar essa possibilidade”.

O clínico defende que o acompanhamento dos doentes deve ser feito em unidades diferenciadas, mas “é essencial a colaboração do médico de família para dar resposta mais rápida e próxima a todas as intercorrências que possam surgir”. Jorge Amil Dias considera importante manter os médicos de Medicina Geral e Familiar informados, “pois o diagnóstico tardio pode trazer irreparável perturbação do crescimento do adolescente”. Também os pediatras devem manter-se actualizados.

Um dos momentos de formação pode decorrer na reunião anual da Secção de Gastrenterologia e Nutrição da Sociedade Portuguesa de Pediatria. O encontro permite actualização de conhecimentos, troca de experiências e planeamento de actividades conjuntas.

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