Doenças cardiovasculares – Recomendações nutricionais e alimentares

SAÚDE CARDIOVASCULAR – DOENÇAS CARDIOVASCULARES (DCV): RECOMENDAÇÕES NUTRICIONAIS E ALIMENTARES

IMPORTÂNCIA DA ALIMENTAÇÃO COMO FACTOR DE RISCO PARA DOENÇA CARDIOVASCULAR

A maioria dos factores alimentares exerce o seu efeito como factores de risco para a DCV em virtude na sua capacidade de influenciar os níveis de colesterol e triglicéridos, a pressão arterial, os mecanismos da coagulação sanguínea, o peso corporal e a resistência à insulina. As doenças cardiovasculares são resultado de 2 processos: a aterosclerose e a trombose.

A aterosclerose consiste, de forma simples, na alteração patológica das paredes das artérias com consequente redução do fluxo sanguíneo e a trombose é o termo referente à formação de coágulos que se alojam no interior das artérias contribuindo para impedir o fluxo sanguíneo normal.

Níveis de colesterol

Numerosos estudos demonstram a relação entre os níveis elevados de colesterol e o desenvolvimento de doença coronária.

Níveis elevados de colesterol LDL (colesterol “mau”) estão intimamente relacionados com o aumento do risco de doença coronária e níveis elevados de colesterol HDL (colesterol “bom”) estão relacionados com baixo risco de morte por doença coronária.

As alterações alimentares e o exercício físico regular interferem com os níveis das diferentes fracções de colesterol no sangue.

Mesmo para valores moderados de colesterol, estima-se que uma redução de 1% reduz o risco de doença coronária em cerca de 3 – 4%.

Pressão arterial

É determinada pela força combinada do batimento cardíaco, pelo diâmetro interno das artérias onde o sangue circula e a resistência das paredes das artérias.

Na pressão arterial elevada ou hipertensão arterial (HTA) o coração tem trabalhar mais para bombear o sangue pelo corpo, aumentando, assim, o risco de desenvolver DCV.

A Hipertensão arterial pode ser reduzida diminuindo o excesso de peso (se for esse o caso), o consumo de sal e de álcool.

O risco de Doença cardiovascular é reduzido cerca de 14% e de trombose cerca de 42% ao reduzir cerca de 5 mmHg na pressão sanguínea.

Mecanismos trombogénicos

A trombogénese (formação de coágulos) faz parte da defesa do organismo e do mecanismo de reparação tecidular na resposta ás lesões; mas a tendência para formar coágulos de sangue também pode influenciar a predisposição para desenvolver DCV. Com efeito, a concentração e a actividade dos factores intervenientes na coagulação como o fibrinogénio e o factor VIII e a agregação das plaquetas, determinam a tendência para o sangue coagular. Estes factores, por sua vez, são influenciados pela alimentação.

Obesidade e Índice de Massa Corporal (IMC)

Há uma evidência substancial de que a obesidade aumenta o risco de DCV e certas doenças crónicas.

A obesidade é, analisada como factor de risco, quer um factor independente, quer um factor agravante de outros factores para o desenvolvimento de DCV: aumenta o impacto da HTA e dos níveis elevados de colesterol no risco global.

A prevalência do excesso de peso e da obesidade está a aumentar na Europa, provavelmente como resultado mais do aumento do sedentarismo do que do aumento do consumo calórico.

Estudos europeus e americanos demonstram existir um aumento gradual do risco para DCV com o aumento do IMC a partir de 20.

A distribuição da gordura corporal é ainda reconhecida como como factor de risco para DCV independentemente do IMC. Obesidade central (gordura localizada em torno do abdómen) confere maior risco de DCV que a obesidade periférica (gordura localizada nos membros).

Diabetes mellitus (DM) e resistência à insulina

À diabetes mellitus insulino independente está associado um aumento significativo do risco para o aparecimento DCV.

O seu desenvolvimento é caracterizado pela resistência progressiva à mediação insulínica na passagem de glicose para dentro das células. Valores elevados de glicose no sangue, de forma crónica, constituem um factor de risco para a aterosclerose e, portanto, para a DCV.

Excesso de peso e obesidade, particularmente obesidade central, incrementam o risco para o desenvolvimento de resistência à insulina e DM insulino-independente.

A um IMC superior a 30 corresponde a um aumento de 5 vezes no risco de desenvolver DM insulino-independente quando comparado com valores de IMC no intervalo 20 – 25.

A redução do peso associada à actividade física são importantes para contrariar o desenvolvimento de DM insulino-independente. A influencia da dieta nesta situação faz-se por via do excesso de peso e da obesidade.

Homocisteína

A homocisteína é um aminoácido que é produzido no organismo durante o metabolismo da metionina. Níveis elevados desta (superiores a 12mmol/l) no plasma aumentam para o dobro o risco de desenvolver DCV.

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Os níveis de homocisteína estão relacionados com factores genéticos e alimentares. Os seus níveis estão elevados por consumos inadequados de ácido fólico, vitamina B6 e vitamina B12; assim como elevados aportes de metionina proveniente, por exemplo, do elevado consumo de carne.

Peroxidação lipidica

A aterosclerose inicia-se com a degradação do interior das artérias e a formação de placas de gordura no interior das mesmas. Muita da gordura aí acumulada é colesterol LDL.

Presume-se que para a acumulação deste LDL tenha que ocorrer a sua peroxidação e esta, por sua vez, está aumentada por carência de nutrientes com poder anti-oxidante resultante de maus hábitos alimentares.

RECOMENDAÇÕES DE NUTRIENTES

Gorduras

As gorduras da dieta são constituídas por 3 tipos de ácidos gordos: saturados, mono e polinsaturados. Cada um deles interfere de modo diferente nos níveis de colesterol.

Gordura Total

Os estudos epidemiológicos demonstram uma relação entre o consumo de gordura total e o desenvolvimento de DCV; no entanto muita desta relação é atribuível à percentagem de gordura saturada no total de gordura consumida (em locais onde o consumo de gordura total é elevado mas o de gordura saturada é diminuto, ocorre uma prevalência baixa de doença coronária).

Se compararmos os resultados obtidos por diminuição da Gordura Total com aqueles que se obtêm substituindo as gorduras saturadas por gorduras insaturadas para valores constantes de Gordura total, concluímos que a redução da Gordura Total não beneficia os valores de colesterol.

Adicionalmente, as dietas pobres em gordura têm a desvantagem de reduzir os níveis de HDL, ácidos gordos essenciais e vitamina E .

No entanto, há evidência de associação entre dietas ricas em gorduras e aumento de predisposição para formação de coágulos sanguíneos. Está ainda em crescente consenso o facto de dietas com elevado teor de gordura predisporem um excesso calórico diário e, portanto, excesso de peso e obesidade (factores de ricos para DCV), diabetes e outras doenças crónicas.

Cada grama de gordura fornece 9 Kcal comparados com meros 4 kacl que fornece 1 g de hidrato de carbono ou de proteína.

Dietas ricas em gordura são, além de mais calóricas, presumivelmente menos causadoras de saciedade.

As recomendações da EHN (European Heart Network) quanto ao consumo de gordura total são:

Os consumos médios de gordura total não devem ultrapassar a contribuição para 30% das necessidades energéticas diárias
A quantidade diária de consumo deverá ser menor que 75g/dia
Diminuir a gordura utilizada para cozinhar e a ingestão de comida frita. Privilegiar alimentos com baixo teor de gordura. Atenção a alimentos com grandes quantidades de gordura escondida como produtos de pastelaria
Quando as necessidades de energia são elevadas ou a ingestão de comida é baixa (crianças ou adultos com pouco apetite) é essencial assegurar a dose diária de gordura

Gordura Saturada

São encontradas principalmente em produtos de origem animal, como a carne, e em alguns óleos vegetais (ex. óleo de côco) assim como em certas margarinas.

Existe evidência o consumo de gorduras saturadas está relacionado com o aumento do colesterol LDL e, portanto, com o risco de DCV.

Não há uma necessidade fisiológica de gordura saturada, pelo que o consumo de quantidades bastante baixas é perfeitamente seguro.

As recomendações da EHN quanto ao consumo de Gordura Saturada são:

Os consumos médios de gordura saturada não devem ultrapassar a contribuição de 10% para as necessidades energéticas diárias
As quantidades individuais são de menos de 25g/dia
Deve ser limitado o consumo de gorduras saturadas por restrição nos alimentos que são suas fontes

Gordura Insaturada

Existem 2 famílias principais de ácidos gordos polinsaturados: a família ómega 6 (óleos vegetais) e a família ómega 3 (óleos de peixe).

Alguns polinsaturados são ácidos gordos essenciais e, portanto, existem doses diárias requeridas para eles, assim como existem para vitaminas ou minerais. Dietas com, pelo menos, 3% da quantidade energética proveniente destes são suficientes para satisfazer as necessidades.

O principal monoinsaturado da dieta é o ácido oleico, que se encontra no azeite (72%) e no óleo de amendoim (49%)

É consensual que a substituição de saturados por insaturados (mono e poli) conduz a uma redução do colesterol LDL. Dados recentes sugerem mesmo que o consumo de polinsaturados eleva mesmo o colesterol HDL.

As recomendações da EHN quanto ao consumo de Gordura Insaturada são:

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Os consumos médios de gordura insaturada não devem ultrapassar a contribuição para 20% das necessidades energéticas diárias
Os consumos médios de polinsaturados deve corresponder a cerca de 10% da contribuição energética diária e não deverá ser inferiores a 5% dessa contribuição
A quantidade individual deverá ser 50g insaturados/dia, das quais 15 – 25 g deverão ser polinsaturados.
É importante estimular o consumo de polinsaturados e monoinsaturados a partir das suas fontes

Ácidos gordos trans

São ácidos gordos mono ou polinsaturados que experimentaram uma alteração na sua estrutura, a qual tem um efeito determinante nas suas propriedades físicas e químicas. A maioria destes é produzida por hidrogenação industrial de óleos vegetais com o objectivo de os tornar sólidos ou semi-solidos para a produção de margarinas.

Estão presentes em quantidades irrisórias em produtos de origem animal. Com efeito a sua principal fonte na dieta são as margarinas e produtos de pastelaria (biscoitos, bolos, afins).

Têm a propriedade de elevar o colesterol e têm ainda outros efeitos indesejáveis na predisposição para a DCV.

A recomendação da EHN quanto ao consumo de Ácidos Gordos Trans é:

O seu consumo deve ser reduzido evitando os alimentos fonte

Colesterol

Todos os alimentos de origem animal contêm colesterol. O consumo de colesterol influencia os seus níveis sanguíneos, apesar de modo mais discreto que o consumo de gorduras saturadas.

A recomendação da EHN quanto ao consumo de colesterol é:

Os consumos médios de colesterol não devem ultrapassar 300mg/dia
Os alimentos ricos em colesterol (ovos) deverão ser consumidos com moderação

Hidratos de carbono

Hidratos de carbono complexos

São provenientes de alimentos de origem vegetal como pão, batatas, massas e arroz. Não existem evidências de que o consumo de elevadas quantidades de hidratos de carbono complexos, por si só, tenham influencia no desenvolvimento de DCV.

Não obstante, dietas ricas em hidratos de carbono complexos tendem a ser pobres em gordura e ricas em fibra.

As recomendações da EHN quanto ao consumo de Hidratos de Carbono Complexos são:

Os consumos médios devem constituir mais de 50% da contribuição para das necessidades energéticas diárias
As quantidades individuais são de, pelo menos, 300g/dia

Açucares Totais

Incluem-se neste grupo os açúcares intrínsecos que estão presentes no seu estado natural na constituição dos próprios alimentos (frutas e vegetais), açúcares do leite (lactose) e açúcares extrínsecos ou refinados como o do mel. Estes últimos são mais cariogénicos (provocam cáries) que os intrínsecos porque estão mais rapidamente disponíveis para o metabolismo bacteriano na cavidade bucal. A frequência e as quantidades do seu consumo são importantes.

Estudos excluem o consumo de açúcar como estando relacionado com o desenvolvimento de Diabetes. No entanto alimentos ricos em açucares extrínsecos tendem a ser mais calóricos o que contribui para o excesso de peso e para a obesidade.

A recomendação da EHN quanto ao consumo de açúcares é:

Não há recomendações de quantidade, mas os consumos de açúcares extrínsecos devem ser reduzidos

Fibra

A fibra é o componente não digerido dos vegetais que melhora a função intestinal: a fibra insolúvel (proveniente dos cereais/grãos) interferindo directamente na formação das fezes e a fibra solúvel (proveniente de frutas e vegetais e leguminosas como lentilhas, feijão, etc.) que afecta a função intestinal e o metabolismo.

Há evidência de que a fibra solúvel baixa o colesterol total e LDL e também de que alimentos ricos em fibra são protectores contra determinadas formas de cancro.

É importante clarificar que níveis extremamente altos de ingestão de fibra podem ter um efeito oponente na biodisponibilidade (termo que se refere à disponibilidade para ser absorvido) de alguns minerais, como o cálcio.

As recomendações da EHN quanto ao consumo de Fibras são:

Aumentar o consumo de fibra (não quantifica recomendações)
É importante eleger alimentos ricos em fibra (cereais/grãos, frutos, vegetais)

Sal

O aporte de sódio, principalmente através do consumo de cloreto de sódio (sal), afecta a pressão sanguínea e, portanto, o risco de DCV. A associação é mais expressiva em indivíduos já com pressão arterial elevada, assim como nos idosos.

Uma redução em 3g na quantidade diária de sal estima-se que baixe a pressão arterial sistólica (ou máxima) em cerca de 3.5 mm Hg.

O sal pode ser proveniente do adicionado à comida no acto da sua preparação ou aquele que se adiciona à comida já em prato; mas a maioria vem da comida manufacturada. Assim, usando ingredientes naturais ao contrário de alimentos pré-preparados, é uma estratégia para reduzir a ingestão de sal.

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Apesar de existir uma necessidade fisiológica de sódio, a quantidade é pequena e a maioria das dietas europeias fornece sódio (sal) em excesso.

As recomendações da EHN quanto ao consumo de sódio são:

Os consumos médios de sal devem ser inferiores a 6g/dia (o correspondente a 2.3g de sódio/dia)

É importante restringir o uso de sal em casa e limitar o seu consumo através de comidas pré-preparadas e conservadas em sal

Potássio

O potássio na dieta é predominantemente derivado de frutos e vegetais e pode reduzir a pressão arterial.

As recomendações da EHN quanto ao consumo de potássio são:

Ao atingir as recomendações para o consumo de frutos e vegetais deveremos estar a aumentar os níveis de potássio.

Vitaminas antioxidantes e minerais

As vitaminas antioxidantes são: A, C e E. A vitamina A inclui a pré-vitamina A ou retinol (de fontes animais) e uma variedade de diferentes carotenóides (de fontes vegetais) que podem ser convertidos em vitamina A no organismo. Parece que muitos outros carotenóides que não têm actividade como precursores da vitamina A, muitos outros componentes vegetais (compostos fenólicos e flavonóides) e certos microminerais (como o selénio) também são importantes antioxidantes.

O consumo destas substância sparece estar inversamente relacionado com o desenvolvimento de DCV.

As recomendações da EHN quanto ao consumo de vitaminas antioxidantes e minerais são:

É necessário aumentar o consumo de alimentos ricos em substâncias antioxidantes
Os aumentos de consumo podem efectuar-se seguindo as recomendações relativas ao aumento de consumo de fruta, vegetais, cereais e óleos vegetais

RECOMENDAÇÕES DE ALIMENTOS

Frutas e vegetais

Estes alimentos são virtualmente isentos de gordura e são ricos em fibra e fonte de vitaminas antioxidantes e outros compostos bioactivos.

É suportado pela evidência que o consumo de frutas e vegetais concorre para baixar o risco de DCV.

As recomendações da EHN quanto ao consumo de Frutras e Vegetais são:

Os consumos médios de fruta e vegetais devem ser de cerca de 400g/dia
Cada indivíduo deve ingerir 5 ou mais porções de fruta e vegetais por dia.

Pão, outros produtos cerealíferos e batatas

Pão, outros produtos cerealíferos (massas, arroz, etc.) e batatas são as principais fontes de hidratos de carbono da dieta. Alimentos ricos nestes nutrientes tendem a ser pobres em gordura e estão associados a baixo risco de DCV.

As recomendações da EHN quanto ao consumo de Pão, outros produtos cerealíferos e Batatas são:

Os consumos médios de produtos cerealíferos e batatas deverão ser aumentados
Deverão ser uma presença constante em todas as refeições

Peixe

É relativamente pobre em gordura e é recomendado como alternativa à carne na dieta. O óleo de peixe (atum, sardinha, salmão, anchova, etc.) tem propriedades nutricionais específicas devido aos efeitos dos ácidos gordos polinsaturados ómega 3 na dieta – principalmente o DHA e o EPA.

Estes óleos tem um efeito discreto nos níveis de colesterol, mas tem importantes propriedades anti-trombóticas, efeitos anti-inflamatórios, reduzindo a tendência do sangue coagular. Há evidência de que baixam a pressão arterial e os triglicéridos.

As recomendações da EHN quanto ao consumo de Peixe são:

Os consumos médios devem ser aumentados
Todos os indivíduos deveriam consumir peixe no mínimo 1 vez/semana – de preferência peixe azul rico em polinsaturados (veja o nosso artigo sobre mega 3)

Carne

Carne gorda é uma importante fonte de gordura saturada. Escolher carnes magras é, portanto, um passo decisivo para a redução da ingestão deste tipo de gordura.

As dietas ricas em carne são igualmente ricas em metionina que aumenta os níveis de homocisteína e, portanto, o risco de DCV.

As recomendações da EHN quanto ao consumo de Carne são:

Os consumos médios de carne gorda devem ser diminuidos
Todos os indivíduos devem privilegiar o consumo de carnes magras

CONCLUSÃO

A maior parte das mortes prematuras (antes dos 65 anos) resultam de DCV, em cuja génese a dieta ocupa um papel preponderante.

Desde há muitos anos que é consensual que o padrão alimentar que está associado à prevenção da DCV. Este mesmo padrão demonstrou-se prevenir igualmente o cancro e outras doenças crónicas.

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22. Junho 2010 by admin

One Comment

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  1. Texto excelente.

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