Rio de Janeiro

O Rio de Janeiro é samba, sol e mar. Mas é, acima de tudo, o próprio carioca. A maneira carinhosa de tratar amigos e desconhecidos. Se for (ou voltar) à Cidade Maravilhosa, inclua a própria população no guia turístico.

Certa vez, um sociólogo famoso escreveu: “É a relação amorosa que afasta os determinismos sociais, que dá ao indivíduo o desejo de ser agente, de inventar uma situação em vez de se conformar com ela”. A frase provavelmente não se referia ao povo brasileiro, mas é a expressão mais cristalina do jeito de ser daquele país tropical. Ou melhor, dos cariocas. Eles apaixonam-se, a cada esquina do Rio de Janeiro, por rostos, obras, partidas de futebol ou sambinhas de pandeiro. Amam. Não tropeçam de ternura como Alexandre O’ Neill. Não alimentam melancolias. São intensos, inflamáveis “enquanto dure” – como diria, sob o sol de Ipanema, o poeta e músico Vinícius de Moraes.

É por esse bem-viver dos cariocas, mesmo no meio de tantas adversidades, que uma visita ao Rio de Janeiro jamais deve ser feita em excursões. É preciso ir livre, sem guias nem autocarros à espera à porta do hotel. É preciso chegar ao balcão do quiosque à beira-mar, pedir uma água de coco e ouvir como resposta: “Vou arranjar um bem docinho, supergeladinho, no capricho para você!”. Esse contacto privilegiado com os cariocas faz as férias de qualquer turista mais agradáveis. Por isso, meta-se nas multidões, nos museus, nas praias – enfim, nos espaços públicos. Perceba a paixão que expressam, por exemplo, quando a equipa do Flamengo entra em campo no Estádio do Maracanã.

Comece pelas praias da Zona Sul – Leme, Copacabana, Ipanema e Leblon -, pelo “bonde” do morro do Pão de Açúcar e pelo Corcovado. São os cartões-de-visita mais conhecidos. Ao conhecê-los logo no início da viagem, ganha-se serenidade para fruir de todo o resto sem aflição. É que o Rio de Janeiro possui muito, muito mais do que isso. Tem, por exemplo, o bairro de Santa Teresa, atravessado pelos trilhos de um “bondinho” ainda em funcionamento. Na última década, o local foi invadido por gente “alternativa”, ligada às artes. A criatividade de residentes e frequentadores assíduos reflecte-se na ementa e na decoração dos restaurantes. Imperdível.

Há também a Lagoa, na Zona Sul. À noite, quando fica totalmente iluminado, esse imenso lago mais parece o espelho de uma cidade vaidosa. À sua volta, dezenas de quiosques, bares e restaurantes caros vendem comidas de vários idiomas. Os cariocas juntam-se por lá, a partir do fim da tarde, jantam ou tomam uma “loirinha bem gelada”. Riem-se à mesa, falam alto, gesticulam para o empregado de mesa (lá chama-se “garçon”). Quase por mágica, mais cervejas aparecem nas mãos dos clientes. Continuam a beber e a gargalhar. Não estão a comemorar nada em especial. Brindam cada dia vivido.

A felicidade quotidiana não é só sorrisos de gente rica. Está também na cara dos “moleques” (leia-se miúdos) que pedem dinheiro nos semáforos e engraxam sapatos. Eles brotam nas janelas dos inúmeros restaurantes da orla costeira da Zona Sul a pedir “uma comidinha, aí”. Têm fome. Cheiram cola de sapateiro para que a vontade de comer lhes passe – “ganza” (lá diz-se “maconha”) é droga de classe média, abre o apetite. Quando crescem, passam a fumar, uma vez que também passam a vender. São muitos esses jovens, milhares, e vivem sobretudo nas “favelas” que cercam o Rio de Janeiro. Rocinha, Cantagalo e Borel são algumas delas. Funcionam como um cinturão de pobreza encravado nas áreas nobres e são tão visitáveis como um museu. Pergunte ao porteiro do hotel como “marcar” uma visita.

E por falar em museus, há dois imperdíveis, ambos no centro. Um deles é o Centro Cultural Banco do Brasil, um prédio recheado de arte contemporânea. Fica próximo da badalada Igreja da Candelária. O outro é o Museu Nacional de Belas-Artes, cujo edifício, por si só, já é um bálsamo para os olhos. Ao lado, ficam o Teatro Municipal e a Biblioteca Nacional com o seu acervo faraónico. São sítios agradáveis e muito frequentados pelos cariocas. E geralmente preteridos pelos guias, que só vêem à frente praias e alegorias carnavalescas. Já se sabe que o Rio tem mulatas, samba, sol e mar. Curioso é perceber como esses elementos interagem com a população que lá vive 365 dias por ano.

Por exemplo: em vez de ir às apresentações “tipo exportação” da casa de espectáculo Scala, tome um táxi e assista a um verdadeiro ensaio de uma escola de samba – como o Salgueiro, no bairro da Tijuca, e a Mangueira, no morro homónimo. Quando a percussão dessas agremiações começa a tocar, o chão chega a tremer. Todos sambam, conversam, bebem cervejas e atacam petiscos como “salcichões”, pipocas e torresminhos de porco. Ali muitos namoros começam e terminam, embalados por vozes negras que cantam versos simples. Letras que falam de amor, alegria e esperança. Reproduzem, enfim, o discurso amoroso que impera no Rio de Janeiro.

Localização: na costa brasileira, um pouco acima do Trópico de Capricórnio.  

Onde ficar

- Copacabana Palace – Avenida Atlântica, 1702 – Copacabana

- Carlton – Rua João Lira, 68 – Leblon

Onde comer

- Simplesmente – Rua Pascoal Carlos Magno, 115 – Santa Teresa

Para petiscar e beber um “chopinho” no fim da tarde…

- Siri Mole & Cia – Rua Francisco Otaviano, 50 – Copacabana, Fica mesmo no fim do Posto 6, próximo à praia.

- Garota de Ipanema – Rua Vinícius de Moraes, 49A – Ipanema

 
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