Sindrome do Intestino Irritável

O síndrome do intestino irritável (SII), também designado por síndrome do cólon irritável ou cólon espástico, é um problema intestinal frequente. Com o SII, os alimentos percorrem os intestinos mas este percurso é acompanhado de contracções intestinais inadequadas, podendo o trajecto dos alimentos ser mais lento ou mais rápido do que deveria. Nas pessoas que sofrem de SII, as contracções normais do intestino podem tornar-se dolorosas. O síndrome do intestino irritável ocorre em todas as idades mas parece ser mais frequente nas pessoas com idade inferior a 35 anos, e em particular nas mulheres. Esta doença poderá manifestar-se e desaparecer várias vezes ao longo da sua vida. Nalguns casos, porém, os sintomas desaparecem à medida que a idade avança. O SII não tem cura, mas pode ser controlado.

Causas do síndrome do intestino irritável

Não existem muitas certezas quanto à causa do SII. Apresentam-se, de seguida, algumas causas possíveis ou mecanismos que dão origem ás queixas: O intestino não funciona correctamente, com contracções anormais do intestino e consequente interferência na deslocação dos alimentos. O stress, a ansiedade e a depressão podem provocar alterações nas contracções do intestino. A ingestão de alguns alimentos também pode alterar a velocidade com que o intestino processa os alimentos. Determinados alimentos podem assim agravar os sintomas.

Sinais e sintomas do síndrome do intestino irritável

Apresentam-se, de seguida, alguns sinais que sugerem o SII:

  1. Abdómen distendido, sensação de “inchaço” piorando ao longo do dia.
  2. Dores (cólicas ou sensação de desconforto) no quadrante inferior do abdómen, que se intensificam depois do comer e que melhoram ou desaparecem após a defecação.
  3. Diarreia (fezes líquidas) ou obstipação (fezes duras) ou ambas. É possível que sinta persistência da vontade de evacuar, mesmo que tenha acabado de o fazer.

Diagnóstico do síndrome do intestino irritável:

O SII diagnostica-se excluindo outras doenças que podem dar queixas parecidas. Para isso habitualmente analisam-se as fezes para confirmar que não há sangue ou parasitas e, em alguns casos, poderá ser preciso realizar exames aos intestinos (clister opaco ou colonoscopia). No SII estes exames darão resultados normais.

Cuidados a ter:

Identifique se há algum alimento que lhe provoque SEMPRE agravamento dos seus sintomas, e retire-o da sua dieta. Verifique se o leite lhe provoca ou lhe agrava a diarreia e, se for o caso, mencione-o ao seu médico. Quando iniciar o uso de alimentos com fibra, introduza-os pouco a pouco na sua alimentação diária em quantidades cada vez maiores: não comece logo com grandes quantidades, pois assim aumentará a distensão e a flatulência. Verifique com o seu médico se está a tomar medicamentos que de algum modo possam influenciar o funcionamento do intestino.

Riscos e Complicações:

O SII não está associado a outras doenças, nem apresenta complicações durante a sua evolução. Cada doente desenvolve um padrão próprio de funcionamento intestinal, com crises e agravamentos mais ou menos frequentes. Se surgirem sintomas que nunca teve antes, se os sintomas se agravarem ou persistirem mais do que habitualmente ou se verificar que há perda de peso, contacte o seu médico.

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Tratamento do síndrome do intestino irritável:

Poderão prescrever-lhe uma medicação para reduzir as cólicas. Também poderá necessitar de tomar medicamentos para a ansiedade, para a flatulência, ou para controlar a diarreia ou a “prisão de ventre”. Para controlar os sintomas e regularizar o trânsito intestinal, use alimentos com um elevado teor de fibra. Não use alimentos que possam causar diarreia ou que tornem as fezes demasiado duras. Tente reduzir o stress na sua vida. Deixe de fumar e comece a praticar exercício físico. O stress e o tabagismo podem afectar os seus hábitos intestinais.

Síndrome do intestino irritável: sintomas e gravidade exigem uma estratégia definida

“A síndrome do intestino irritável é uma entidade frequente, 10 a 20 por cento da população adulta e adolescente sofre desta patologia. Atinge essencialmente o sexo feminino e mais de 50 por cento das pessoas tem menos de 35 anos de idade”, alerta Eduardo Pereira, presidente do Grupo Português de Ultrassons em Gastrenterologia (GRUPUGE). A resolução da intensidade e frequência dos sintomas é algo que Eduardo Pereira considera essencial. “No fundo, o que se pretende é melhorar o bem-estar e a qualidade de vida do doente”, afirmou.

A síndrome do cólon irritável, para ser tratada, necessita de “uma estratégia definida por duas razões, pelo sintomapredominante e pela gravidade da doença. Se a doença for ligeira, devem-se adoptar sempre as medidas gerais. Se apesar disso houver obstipação, deve-se sugerir a toma de fibras, líquidos, exercício físico; no caso de haver diarreia, é conveniente excluir a lactose e a cafeína e usar outras medidas dietéticas”, afirmou Eduardo Pereira, no 1º Curso Teórico-Prático de Gastrenterologia, realizado no Hospital da Luz, em Lisboa, nos dias 6 e 7 de Novembro. O presidente do Grupo Português de Ultrassons em Gastrenterologia (GRUPUGE) sublinhou ainda a importância dos antipasmódicos e antidepressivos na prática terapêutica. “As situações graves deveriam ter uma oportunidade que normalmente não têm, como a utilização de uma terapia mais profunda e dirigida à parte intrapsíquica, através do uso de antidepressivos tricíclicos, sedativos com antiespasmódicos e psicoterapia”, disse o especialista. Eduardo Pereira caracterizou “a síndrome do intestino irritável como a presença de dor ou desconforto abdominal recorrente”.

Segundo o prelector, a ausência ou presença de sintomas são duas perspectivas da avaliação complementar. Não havendo sintomas, “o principal é a história clínica e um bom exame físico. Se estas características nos tranquilizarem a investigação deve ser mínima”, explicou. Por outro lado, “se o doente tiver sobretudo diarreia, deve-se investir na procura de doença celíaca, anticorpos anti-endomísio e anti-transglutaminase, intolerância à lactose e aplicação bacteriana”. A doença celíaca deve ser investigada porque “na presença de um doente com síndroma de intestino irritável, com base nos critérios de diagnóstico sintomáticos, tem uma incidência maior, tal como a intolerância à lactose”.

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Manter a qualidade de vida do paciente

A resolução da intensidade e frequência dos sintomas é algo que Eduardo Pereira considera essencial. “No fundo, o que se pretende é melhorar o bem-estar e a qualidade de vida do doente”, afirmou. “A terapêutica não farmacológica assenta nas medidas gerais e deve ser proactiva das decisões por parte do doente. Está centrada na relação médicodoente, por isso a primeira coisa que deve acontecer é o reconhecimento da patologia e a sua caracterização, com um diagnóstico seguro à frente do doente, com critérios baseados em sintomas, sugerindo um eventual diário de situações de stress”, explicou. Quanto à terapêutica farmacológica, o médico enumera dois grupos de agentes farmacológicos específicos para a dor e desconforto abdominal: “Os antiespasmódicos e os antidepressivos em baixa dose”.

Em relação aos primeiros, “os que se usam mais são os bloqueadores dos canais de cálcio e os moderadores/receptores opióides. E no que respeita aos bloqueadores dos canais de cálcio, o brometo de otilónio tem a vantagem de ter funções na neurotransmissão local e, segundo a minha experiência, é o único deste grupo que tem eficácia terapêutica confirmada. Quanto aos antidepressivos, os tricíclicos em baixa dosagem são os mais indicados, podem começar com 10 miligramas e as terapêuticas devem prolongarse até às seis ou doze semanas. A imipramina e a nortriptilina, além de serem eficazes na dor, produzem sensibilidade e devem ser utilizadas só em situações de diarreia e grave obstipação”. Eduardo Pereira terminou a apresentação sublinhando a necessidade de se olhar para a síndrome do intestino irritável de outra forma. “Não interessam só os medicamentos, interessa também o número de visitas que o doente faz, as funções que ele consegue exercer na sua profissão e a sua qualidade de vida”.

Um problema para a prática clínica

Segundo Eduardo Pereira, cerca de 25 por cento dos doentes recorrem à consulta de medicina familiar devido a sintomas somáticos medicamente inexplicáveis. “Estes sintomas têm na sua história natural uma persistência de 50 por cento ao ano, mas 77 por cento acabam por resolverse de forma espontânea, a menos que surja ansiedade, pois esta transforma os sintomas que têm uma história natural benigna numa situação mais complexa de sintomas crónicos”, afirmou o especialista. A ansiedade pode resultar do ciclo da frustração médico-doente: “O doente que tem dor e expectativa de cura procura com maior frequência consultas e exames, ao que o médico responde através de exames repetidos, medicamentos, cirurgias, etc. Disto tudo resulta um doente perturbado, com algum pessimismo descontrolado, que, por sua vez, leva ao estado de ansiedade relacionado com os sintomas”, alertou o médico.

Intervenções psicológicas e terapias complementares

As intervenções psicológicas ou comportamentais são áreas que “em Portugal se têm desenvolvido pouco, mas noutros países este tipo de terapêutica já é uma realidade”, afirmou Eduardo Pereira. São três os modelos de actuação: “A terapia cognitiva comportamental, a ecnose clínica dirigida ao intestino e a terapia psicodinâmica”. Segundo o especialista, é inevitável apostar também em terapias complementares. “O que se procura são os espasmolíticos, produtos com chás chineses, hortelã-pimenta clássico e aloé vera”, explicou.

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Formar e actualizar médicos gastrenterologistas

David Serra, coordenador da Unidade de Gastrenterologia do Hospital da Luz, em Lisboa, e organizador do 1º Curso Teórico Prático de Gastrenterologia, explicou que o objectivo da iniciativa centra-se na actualização dos conhecimentos sobre a especialidade. “Temos na nossa instituição a perspectiva de darmos formação aos médicos que trabalham na nossa zona de influência. Queremos contribuir para a resolução dos problemas do dia-a-dia e também para alguma actualização dos temas mais comuns da gastrenterologia, que nem sempre é possível noutros meios”, afirma o médico. “Foi nesse sentido que criámos este 1º curso, num âmbito diferente porque normalmente são todos teóricos, onde juntámos a componente prática com endoscopias ao vivo para os nossos colegas poderem ver exames em tempo real, algo que a maior parte deles nunca viu”, acrescenta. Para o próximo ano, o especialista pretende dar continuidade ao projecto. “Iremos repetir a actividade em 2010 e também fazer um curso só de endoscopia”, revela.

Informação para médicos e estudantes de medicina:

Este síndrome é um distúrbio funcional crónico caracterizado por dor abdominal, alteração dos hábitos intestinais, prisão de ventre e diarréia (com frequência alternadas), dispepsia, ansiedade ou depressão.

– Dor abdominal variável à palpação.
– É mais comum em mulheres e se houver história de maus-tratos fisicos.
– Avaliação: anamnese e exame fisico, colonoscopia em pacientes acima de 50 anos de idade; exames adicionais indicados por sintomas ou achados fisicos de alarme.
– A sigmoidoscopia pode revelar espasmo ou hipersecreção de muco; outros exames (como hemograma, exame parasitológico de fezes, TSH) normais.

Diagnóstico diferencial:

  1. doença inflamatória intestinal
  2. espru celíaco ou intolerância à lactose
  3. isquemia mesentérica crónica
  4. doença diverticular
  5. doença ulcerosa péptica
  6. pancreatite

Tratamento:

  1. Tranquilizar o paciente e fornecer-lhe explicações.
  2. Ler: Dieta Rica em Fibras, com ou sem suplementos de fibras; a restrição de laticínios pode ser útil.
  3. Antiespasmódicos (p. ex., diciclomina, hiosciamina, propantelina), antidiarréicos ou anticonstipantes intestinais.
  4. A amitriptilina, os inibidores seletivos da recaptação de serotonina e a modificação comportamental com técnicas de relaxamento são úteis em alguns pacientes.
  5. Tegaserod para mulheres com SCI, com predominio de prisão de ventre (possível aumento nas cirurgias da vesícula biliar) ou alosetrona para mulheres com SCI, com predomínio de diarréia (rara, mas elevação significativa do risco de colite isquémica).

Dica

A síndrome do cólon irritável é o diagnóstico mais comum que leva a uma consulta com o gastrenterologista; também ocupa uma posição de destaque nas consultas com clínicos gerais.

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05. Fevereiro 2010 by admin

One Comment

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  1. adorei as respostas sobre a doença,muito explicativa,procurava algo assim e mais,obrigada

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