São Tomé e Príncipe

Há lugares assim como São Tomé e Príncipe. Capazes de desencadear as mais fulminantes paixões. Álvaro Vieira andou pelo mais pequeno país africano e voltou de lá com os olhos e o coração cheios de mar azul e floresta intensamente verde. Há momentos que não têm preço, pelos quais merece a pena empreender qualquer viagem, mesmo que ela não seja das mais baratas nem curtas.

Imagine-se a, depois de um dia bem passado, chegar a uma praia, já de madrugada, num país onde, em pleno Verão, a noite apaga tudo, de repente, às seis da tarde. Esta noite não apagou as estrelas, contudo, e ali ao lado, na antiga roça Diogo Pires, até acendeu um néon, que destoa na paisagem mas dá um certo jeito: é que as nuvens entretiveram-se a embrulhar a lua. Você também está com sorte, porque quatro coqueiros imponentes dispuseram-se a ficar, destacados, a assinalar o sítio onde, à quarta tentativa, descobriu, sob a vegetação, as escadinhas irregulares que o hão-de devolver à estrada, onde deixou o carro.

A praia, de areia macia, está cheia de aluviões e o bocado de mar que por aqui ficou a brincar está quente, dão umas boas-vindas calorosas. O oceano é particularmente meigo. Até as ondas se oferecem num embalo tépido. E, para acrescentar um toque de fantástico à experiência, descobre que os seus movimentos na água deixam um rasto de pontos luminosos. Como este mar é muito rico em fósforo, parece que, à mínima agitação do seu corpo, se acendem, por magia, centenas de “pirilampos marinhos” que o seguem fielmente. Está-se «levi-leve», expressão que tanto quer dizer «calma» como «está-se bem»: «’Tá-se, ’tá-se? Levi-leve, obrigado».

Praia das Conchas

Ao regressar ao sítio onde deixou a roupa, ouve jovens negros desejarem-lhe boa noite, antes mesmo de lhes conseguir ver o branco dos olhos, ao passarem por si na escuridão quase absoluta. Que fácil seria alguém roubar-lhe a roupa, a carteira, a chave do carro… Mas, neste sítio, só com muito azar alguém se sentirá inseguro. É um quadro demasiado idílico para ser plausível ou têm razão aqueles que chamam “paraíso tropical” e “jóia do Equador” ao arquipélago de São Tomé e Príncipe, o mais pequeno dos estados africanos? A verdade é que momentos como este podem ser vividos em Água Izé e noutras praias deslumbrantes, e praticamente desertas, da Ilha de São Tomé. Como Sete Ondas, Conchas, Tamarindos e Micondó, onde a vegetação tropical também já não deixa o jipe seguir o rio que desce levi-leve para o mar, ou Lagoa Azul, onde a cor do Atlântico faz inveja ao próprio céu, sob o qual se espreguiçam os embondeiros. Nesta praia de rochas vulcânicas, que deixam os pés tingidos com um preto persistente, até há tamarindos e cocos para atrasar a fome.

Perto do Paraíso

O paraíso sãotomense também se expressa através da selva tropical, onde nem sequer há grandes feras (a cobra-preta é o único bicho perigoso) a espreitar no verde poderoso, capaz de fechar estradas quase da noite para o dia e sempre pronto a exibir uma paleta de tons e formas que até fazem da criatividade uma obrigação. Há tubérculos saborosos, como a matabala e a mandioca, e frutos de dimensões generosas, como a jaca, a fruta-pão ou a papaia, que brotam espontaneamente e alimentam a vocação primitiva dos homens, que é a de serem recolectores. As bananeiras, então, instalam-se sozinhas em qualquer quintal: “Tem banana-prata, banana-ouro, banana-maçã, banana-pão…”, enumera um empregado de mesa, com o orgulho de quem recita um poema de exaltação nacional aprendido na escola.

Até o mar é mãos largas. A toda a hora, na lota junto ao mercado da capital, os barcos enchem baldes e baldes de concons com cara de dinossauro, chernes apolíticos, andalas, peixe-fumo, peixe-voador, peixe-agulha… E há vários anos que não se regista qualquer problema com o tubarão. ” Foge de gente”, asseguram os pescadores, rindo do receio dos turistas.

Claro que até no Éden há problemas, é dos livros, e São Tomé e Príncipe não é excepção. O paludismo, ou malária, é umas das principais causas de morte desta população de130 mil habitantes. Governo e investidores coincidem na opinião de que a doença, propagada pelo mosquito, continua a ser um entrave ao desenvolvimento do turismo, que apesar de tudo tem progredido. Nos últimos tempos, os Estados Unidos da América deram sinais de pretender erradicar o paludismo deste arquipélago, a 200 quilómetros do Golfo da Guiné. E como S. Tomé e Príncipe começou agora a explorar as suas jazidas de petróleo…

Por outro lado, S. Tomé e Príncipe também não será um paraíso, enquanto a maioria da população viver na pobreza. O salário médio em pouco ultrapassa os quinze euros e os preços, depois de nos habituarmos ao facto de um euro valer nove mil dobras, acabam por se revelar demasiado parecidos com os portugueses. A luz e a água faltam com frequência. Há geradores por toda a parte, às vezes não há é combustível para o gerador. Não existem transportes públicos. A partir das quatro da manhã, as estradas enchem-se de mulheres carregadas a pé, a caminho do mercado para vender os hortícolas caseiros. Não admira que quem as vê, no mercado, repare que estão todas com ar cansado, mão a segurar o queixo, olhos semicerrados.

O mercado é, aliás, um dos pontos de visita obrigatória, na capital. Tem um aspecto miserável. Já foi amarelo e azul. Agora, é apenas velho, mas ainda assim cheio de vida. Vende-se tudo, desde legumes, fruta e peixe seco a lápis e isqueiros, mas em pequenas quantidades, à medida das bolsas. Até os cigarros e as bolachas se compram à unidade… Também há garrafas trazidas de casa com vinho de palma, mas mais vale bebê-lo no produtor – o vinho de palma não deve ser ingerido muito depois de produzido, torna-se demasiado alcoólico e desarranja a barriga.

É na zona do mercado que se concentra a maior parte dos táxis. Normalmente, em idade de reforma e com várias cicatrizes de guerra. Mas não há muitas peças de automóveis em S. Tomé, nem dinheiro para mandar arranjar viaturas. Como não se encontram táxis de madrugada – aliás, exceptuando as discotecas Argentemoa, Canecão e Fé em Deus, a vida nocturna acaba cedo -, o melhor é alugar um automóvel ou um jipe para garantir a autonomia. Os preços variam, respectivamente, entre os 30/40 e os 50/60 euros ou dólares, consoante o estado do veículo que raramente é famoso.

O bar Tropicana é também clube de «fitness», «health club» e «cibercafé». Pode aceder-se à Internet, mas até os Pentium 4 evoluem muito muito levi-leve. Diz-se que a culpa é do serviço que a Portugal Telecom presta a São Tomé e Príncipe.

“Puxa-rapaz”

Forte de São Sebastião

Na capital, de São Tomé, merece a pena visitar o forte de São Sebastião, mesmo no extremo da baía de Ana Chaves. Edificado pelos portugueses no século XVII, funciona hoje como Museu Nacional de S. Tomé e Príncipe. Está guardado pelas estátuas de João de Santarém e Pêro Escobar, os portugueses que, supõe-se que em 1470, desembarcaram pela primeira vez no arquipélago, mais concretamente em Anambó, onde um padrão assinala o momento histórico. Estas são as estátuas de que muitos portugueses se recordarão de ter visto na televisão, apeadas e seccionadas, após a independência de S. Tomé e Príncipe. Voltaram a ser montadas, mas ficaram junto ao museu, como que a sublinhar que pertencem mesmo à história. Nas monografias publicadas pela antiga Agência Nacional Ultramarina, encontramo-las nas praças e rotundas principais, rodeadas de edifícios públicos que hoje ou estão decrépitos ou desapareceram.

O que Procura?
Jericoacoara

A visita ao Museu Nacional permite, contudo, compreender porque não se ouve, pelo menos na capital, ninguém suspirar pelo período anterior à independência. Com um cunho fortemente ideológico próprio da alvorada do regime marxista de 1975-90, o museu conta as histórias do povoamento do arquipélago por escravos de diferentes proveniências, das relações feudais que persistiam nas roças mesmo por altura do 25 de Abril, da chacina de Batapá e da tortura dos independentistas. E para efeitos de comparação, apresenta uma réplica da faustosa sala de jantar do patrão da roça, quase sempre na metrópole a pretexto da insalubridade do clima equatorial, e espartana senzala, onde se amontoavam os negros.

Actualmente, as roças sãotomenses perderam o estatuto de maiores produtoras mundiais de cacau e parecem abandonadas, apesar de muitas estarem concessionadas e terem já retomado a produção ou ensaiarem a reconversão para fins turísticos. O hospital da roça Agostinho Neto, que chegou a ser considerado melhor do que o da capital, está desactivado. O patrão da roça foi embora, mas com ele também desapareceram os vagões que circulavam nos carris que cruzam as roças, e as senzalas continuam cheias de gente.

Sobretudo de crianças. Em São Tomé e Príncipe, há crianças por toda a parte, a oferecer artesanato, cocos, rosas de porcelana (a flor nacional), e framboesas – a que chamam «morangos» – aos turistas, ou, simplesmente, a passear carrinhos e outros brinquedos de madeira e lata, semelhantes aos dos nossos avós. Fica-se com a sensação de que o arquipélago tem uma taxa de natalidade impressionante. Os sãotomenses, quando apresentam um fruto, semente ou raíz aos turistas, estão sempre a dizer que aquilo «puxa-rapaz». É tudo afrodisíaco. Talvez seja verdade.

Cuidados «Aprés» e «Avant-soleil» de São Tomé

Se escolheu SãoTomé e Príncipe apenas por uma bela fotografia de praia, imaginando que, se a praia é assim, tudo o resto deve ser um luxo, arrisca-se a apanhar uma decepção. Primeiro, deve lembrar-se de que ninguém faz «posters» de praias com imagens de dias nublados, e eles são muitos, por aqui. Por outro lado, convém recordar que os parâmetros de conforto em África, unidades hoteleiras incluídas, não são exactamente os mesmos que na Europa.

São Tomé e Príncipe até tem algumas estâncias de qualidade francamente superior. Quem se enfiasse nelas o tempo todo, até poderia regressar com uma imagem relativamente próxima de umas férias de prospecto. Mas seria um desperdício. A par da natureza, o contacto com o povo, simples e acolhedor, é das melhores recordações de viagem que se podem coleccionar. Convém ter algum espírito de aventura e tomar certas precauções ao visitar S. Tomé e Príncipe. Mas não se deixe impressionar pela lista de recomendações: o arquipélago é um destino acessível a qualquer pessoa e francamente recomendável.

Antes

É preciso passaporte e visto.

A vacina da febre amarela é obrigatória e é importante fazer a profilaxia do paludismo. Não espere pela véspera da viagem para consultar o médico e iniciar o tratamento. Se começar em cima da hora, vai ter que tomar doses cavalares de comprimidos à base de quinino, que provocam náuseas e neura. Não se esqueça de continuar a tomar esta pílula semanal, enquanto lá estiver e depois de regressar, como costuma acontecer a muita gente mal retoma o quotidiano de onde partiu. Arme-se com repelente de mosquitos. Os de «stick» são melhores do que os de «spray», por serem mais fáceis de espalhar na pele. Compre um mosquiteiro, que dá estilo à cama.

Aproveite a ida ao médico para fazer um «check-up. Os serviços de saúde, públicos e privados, são pobres na capital e quase inexistentes no resto do arquipélago. Leve os medicamentos que anda a tomar e aquilo de que acha poder precisar, mas sem hipocondrias. Leve pelo menos alguns dólares, o câmbio é sempre melhor do que o do euro. Lá, o prestígio da nota verde vale muito mais do que as últimas notícias de Frankfurt ou Wall Street. Leve também rolos ou outro material necessário à recolha de imagens que pretende fazer, fora de S. Tomé podem ser bastante difíceis de encontrar. Não esqueça a carta de condução.

Durante

Evite o gelo, os legumes crús, os ovos e os productos lácteos locais, que também são raros. Beba apenas água mineral e outros líquidos engarrafados. A cerveja Creola é bem boa. Fique longe do grogue, a aguardente feita de cana de açúcar, e sabe-se lá mais de quê, que toda a gente faz em casa, em bidões de plástico como o gosto não deixa esquecer. Besunte-se com o repelente quando começar a escurecer. É entre o fim da tarde e as 23 horas que os mosquitos andam mais assanhados. Os roteiros dizem que eles só atacam à noite, mas há alguns que não sabem ou não respeitam as regras do jogo e que são capazes de fazer um festim com o seu pé, enquanto você julga que almoça sozinho. Evite a proximidade de águas paradas.

Use um bom protector solar.

Se gosta de artesanato, finja que detesta, até estar quase a regressar. Os moleques que vendem artesanato não o largarão o resto das férias, mesmo que você insista – e até acredite – que já comprou tudo. Ofereça metade do que lhe pedem. Mas não lhe fica mal dar mais qualquer coisa. Todos os vendedores têm um «avô» artesão, que é quem faz as peças «únicas», tão perfeitas que ficam todas iguais, em qualquer sítio. Se lhe oferecerem um tambor feito de encomenda, como aqueles que você está a ver, a troco dos seus ténis, sandálias ou «jeans», aceite. Faça por ver uma representação – ou parte, que algumas demoram seis horas – do Tchiloli, um espectáculo que é quase um desporto nacional e que impressiona pela coreografia, colorido e anacronismos enxertados na tragédia do Marquês de Mântua.

Não deixe de tomar o comprimido do paludismo, só porque não pode beber álcool nesse dia e porque ele lhe está a dar cabo do fígado e porque ele lhe provoca uma disposição esquisita, mistura de irritação, tristeza e ansiedade. Beba um sumo de canja-manga ou vá ao Café Passante, entre o Hotel Miramar e a Embaixada Portuguesa, comer um pastel de nata ou uma bola-de-berlim do tamanho de um coco.

Ande com algumas notas pequenas na carteira. Quase não há moedas, que também não valem nada, e assiste-se a uma crise terrível de trocos no arquipélago. Ninguém tem troco suficiente, sugerem-lhe que deixe ficar assim. É um hábito irritante, até porque muitas vezes estaríamos dispostos a dar gorjeta, se nos deixassem fazê-lo espontaneamente. Mas não fique a pensar que é a ganância geral. Nos estabelecimentos comerciais, se a chamada é local, raramente aceitam dinheiro pelo telefonema.

Ao alugar um carro, não se limite a perguntar se a viatura está em bom estado e experimente-a. Atenção que não há seguro obrigatório em S. Tomé e Príncipe, pelo que um acidente, ou avaria, pode ser um aborrecimento. Se tem carro e os outros não, dê boleia e aproveite para se misturar. Até a tropa anda à boleia.

O que Procura?
Paisagem Protegida da Serra do Açor

Depois

É suposto continuar a tomar o raio do comprimido.

Um Pé em Cada Hemisfério

A Linha do Equador atravessa o Ihéu das Rolas em São Tomé e Príncipe

O arquipélago de São Tomé e Príncipe é atravessado pela linha do Equador no Ilhéu das Rolas, a sul da ilha de São Tomé. A linha não está pintada no chão, mas há um monumento a Gago Coutinho no meio da mata que também serve de marco geodésico. O pilar marca um ponto sobre o Equador. Com ajuda da bússola, pode-se imaginar por onde atravessa a linha, na diagonal, o pequeno monumento. No Ilhéu das Rolas fica também o «Ilhéu das Rolas Resort, do Grupo Pestana» com o mesmo nome, propriedade de portugueses, que assegura a ligação de barco, um bote de madeira com capacidade para mais de uma dezena de pessoas, a Porto Alegre, no extremo sul da Ilha de S. Tomé. A travessia é coisa para uns 40 minutos.

Em S. Tomé, há três grandes passeios a fazer de carro: para norte; para sul; e para dentro. Não se pode dar a volta à ilha de carro, que não há estrada. Quem insistir em contornar a ilha, terá que fazê-lo a pé, de preferência em excursão organizada. Para norte, o asfalto acaba 60 quilómetros depois, em Santa Catarina, uma pequena vila de pescadores, onde há porcos na praia a foçar por entre as pedras ou a coçar-se contra as canoas. Por toda a ilha, mal se sai da capital de São Tomé e Príncipe, vê-se que a maior parte das casas é de madeira e assente em estacas, para os porcos e as galinhas se abrigarem. Passa-se por Guadalupe, Praia das Conchas, Lagoa Azul e Neves, a segunda cidade mais populosa da ilha.

Viajando para sul, atravessamos a vila de Santana e passamos junto à Boca do Inferno, uma formação rochosa esculpida com violência pelo mar, que só é para ver do miradouro. A roça de Água Izé e a praia das Sete Ondas aparecem logo a seguir. Aproveite para se despedir da estrada razoàvel. Daqui em diante, vai ter que começar a contornar buracos e crateras. Começa-se a perceber porque é que os automóveis da ilha estão como estão. É preciso conduzir com muita atenção, mesmo quando a estrada é menos má. Há crianças a brincar na estrada, casas mesmo na berma e cães, porcos, galinhas e cabras no meio da rua. Os cães e as cabras são os piores. É na estrada que gostam de se deitar e nem sempre se mexem à primeira buzinadela. Aproveite para reparar como os famélicos cães sãotomenses variam na cor, mas têm todos a mesma cara. Os gatos são uma raridade, apesar de haver ratos com fartura.

Não se distraia, mas espreite a praia e a roça de Micondó. Há-de ainda passar por Ribeira Afonso e São João dos Angolares. Mesmo no sul da ilha, quando começa a ver diante de si o majestoso Pico do Cão Grande, desvie para o palmeiral imenso da Emolve, a fábrica de óleo de palma. Por aqui a estrada volta a melhorar.

É má ideia fazer este passeio e ir ao Ilhéu das Rolas no mesmo dia. Escurece cedo e quem não for um madrugador fanático – embora ninguém durma até muito tarde em S. Tomé – não terá tempo de ver as coisas com calma e de almoçar tranquilamente. O passeio para sul são apenas 90 quilómetros, mas hão-de parecer-lhe muitos mais.

Se quiser experimentar o ar da montanha, meta pela estrada que avança da capital para o interior. Suba até à Trindade, aprecie o cemitério tropical, muito português mas com bananeiras, e prossiga Monte Café acima. A estrada é estreita, íngreme, mas o piso é muito bom, à vista das outras. Se não é preguiçoso, deixe o carro ao pé da Pousada da Boa Vista – que tanto pode estar aberta como não – e faça os últimos quinhentos metros a pé. Assim, vão saber-lhe melhor o banho e a massagem revigorante da água que cai da cascata de S. Nicolau. Vai ver que, depois do banho, até tem ganas de subir mais um pouco, até à Roça de São Nicolau.

O Príncipezinho

Os sãotomenses ironizam que, vista do Príncipe, a sua capital parece Nova Iorque. É preciso apanhar a avioneta, que liga as duas cidades quatro vezes por semana, e ir confirmar. É verdade. Dizem que é a cidade mais pequena do mundo e a verdade é que se consegue ver Santo António, a capital da Região Autónoma do Príncipe, em menos de uma hora. Nem sequer se pode dizer que seja particularmente bonita. Os edifícios estão muito degradados e quase todas as ruas são de terra batida, que é como quem diz de lama, quando chove. Mas isto é a cidade, com os seus cinco mil habitantes. A ilha é uma coisa diferente.

Quando a velha avioneta acaba de percorrer os 140 quilómetros que começou a contar em S. Tomé, temos a sensação de nos abeirar de uma enorme almofada verde. Visto do ar, pelo menos, o Príncipe tem uma vegetação ainda mais densa do que S. Tomé. A sua floresta tropical esconde pequenos macacos, que são caçados e comidos pelos homens, e enormes morcegos que, quando passam por nós, no meio do mar, parecem gaivotas. Estes morcegos alimentam-se de fruta-pão e também servem de alimento aos habitantes do Príncipe.

Falando em comida, logo à saída do avião, é possível comprar bobô-fito, banana frita em óleo de coco que é amassada num rolo. Muito bom, mas enjoativo e uma violência para o estômago. Não é para comer com fome. A ilha quase não tesm restaurantes e nas pensões que servem refeições também não é aconselhável chegar de surpresa, em grupo. Arriscam-se a não haver comida.

É por estas e por outras que o Príncipe tem muito menos turistas do que São Tomé. Mas as praias desta ilha não ficam nada atrás das outras. E paradoxalmente, até é no Príncipe que fica a unidade hoteleira mais luxuosa do arquipélago, o «resort» do Ilhéu Bombom, servido por duas praias lindíssimas. Muito bonita, mas pouco funcional, é a praia das agulhas, onde inúmeras rochas assomam à superfície do mar, envoltas em anéis de espuma. O miradouro da Roça de Belo Monte e as praias Banana e Évora são outros lugares a visitar.

Ao lado da praia Évora , fica a do Portinho, onde o jovem cineasta Ivo C. Ferreira e um casal de amigos, também portugueses, já devem ter a funcionar em pleno o «Príncipe Bangalós»: um conjunto de cabanas, mais acessível do que os «resorts» de luxo, para quem privilegia o contacto simples com a natureza. A praia do Portinho é uma baía tranquila servida por um mar verde-esmeralda. Tem as costas guardadas por árvores, onde se ouve, de quando em vez, um macaco a guinchar. O «catterpillar», que estava a abrir, lá atrás, um caminho por terra até à praia, avariou e não houve peças para o fazer regressar à vida. Ali ficou. Assim, na prática, esta praia só é acessível por mar, de piroga. É uma viagem de meia-hora numa casca de noz, mas o mar é amigo. E a travessia à noite, com o fósforo a multiplicar-se em pequenos pontos luminosos à proa e à ré, é uma experiência.

Quando viajar para São Tomé e Príncipe

A melhor altura do ano é a estação seca, a “Gravana”, em que sopra o vento com o mesmo nome. O que não quer dizer que não chova em absoluto neste período, correspondente aos meses de Julho, Agosto e Setembro. Mais vale contar com alguns aguaceiros e vários dias de céu nublado, próprios de um clima equatorial. Durante a Gravana, também faz menos calor, ainda que o arquipélago, não conheça grandes variações térmicas ao longo do ano. As temperaturas variam entre os 21 e os 31 graus. Numa ilha tão acidentada como a de S. Tomé, com picos de grande altitude (o pico de S. Tomé tem 2024 metros!), há contudo microclimas: distingue-se perfeitamente o calor húmido e sufocante das zonas baixas da frescura e leveza do ar das localidades mais altas, como Monte Café. A temperatura média da água do mar é de 28 graus. Desde há alguns anos que o Governo sãotomense organiza em Agosto o Festival Gravana, consagrado à música africana.

Como ir

A partir de Lisboa, a TAP tem vôos directos regulares, à segunda-feira, para S. Tomé e Príncipe. Em Agosto, as Linhas Aéreas Sãotomenses realizaram a sua viagem inaugural, num avião fretado. A ideia é acabar com o monopólio da TAP. Em S. Tomé, a chegada do vôo da LAS foi acontecimento nacional muito festejado, até porque a TAP cobra 1053 euros pela viagem.

Hoteis Onde ficar

Em S. Tomé e Príncipe já há vários hotéis e pousadas onde ficar, assim como roças abertas ao turismo rural. Neste último caso, convém, contudo, certificar-se em cima da hora, se está tudo a funcionar, porque há projectos que fecham sem avisar ninguém. Aqui ficam algumas sugestões, para diferentes bolsas e tipo de turismo pretendido.

Hotel Club Santana ***
Baía de Santana (a cerca de 15 quilómetros da capital)
S. Tomé e Príncipe
Preços a partir de 140 euros

Hotel Marlin Beach ***
Praia Lagarto, estrada do aeroporto (a quatro quilómetros da capital)
CP 463, S. Tomé
A partir de 140 euros

Hotel Miramar ****
Av. Marginal 12 de Julho
CP 69 S. Tomé
A partir de 130 euros

Roça de S. João
S. João dos Angolares
(Contacto através da Galeria Teia d’Arte, em São Tomé)
A partir de 25 euros

Bom Bom Island Resorts *****
Ilhéu Bom Bom, Príncipe
A partir de 260 euros

Pensão Palhota *
Stº. António Príncipe
A partir de 25 euros

Onde comer

Restaurante Filomar – estrada do aeroporto, S. Tomé
É um dos mais aclamados restaurantes da capital, onde se pode comer bom peixe grelhado e calulu de frango ou peixe seco, uma especialidade sãotomense servida num caldo picante com verduras.

O que Procura?
Costa Rica

Paraíso dos Grelhados – avenida marginal, junto à lota, S. Tomé
Não é bem um restaurante. É mais uma barraca, um «quiosque», como se diz por aqui, onde se come o concon assado na brasa, à nossa frente.

Benfica – Praça Marcello da Veiga, S. Tomé
É um dos restaurantes mais finos da capital, mas também dos mais parecidos com os que se podem encontrar em qualquer sítio de Portugal. É frequentado sobretudo por portugueses. A cozinha está bem cotada.

Residencial Arca de Noé – Santo António, Príncipe
É uma residencial modesta, como tudo no Príncipe, mas onde se come bem e num ambiente familiar e acolhedor.

Recomendações

“Ir com tempo, com a mente bem aberta e não perder a Ilha do Príncipe”. Chegar às roças mais distantes. Para quem gosta de aventura explorar as picadas intermináveis. O périplo da ilha de barco é uma maravilha, mas recomendo que não o façam em traineira, mas num barco um pouco mais rápido. Explorar a zona da ilha que é praticamente deserta, inexplorada, o que é fantástico num território tão pequeno. Há praias virgens que só se vêem do mar.

“Cuidado com a cobra preta. É mortal. Não há antídotos, não há solução. Mas é muito improvável que alguém se cruze com uma porque elas têm mais que fazer e não abundam”. Entre as várias atracções deste apreciável destino turístico onde nunca se está longe do mar, contam-se as antigas roças coloniais, a Boca do Inferno, a Cascata de S. Nicolau, a Fortaleza de S. Sebastião. Se fizer um passeio de barco ao Ilhéu das Rolas, onde passa a linha do Equador, poderá pôr um pé em cada hemisfério.

Crónica – Fragmentos de São Tomé

Neste pequenino fim de mundo ouvimos sons da língua em que falamos. Num linguajar renovado, com acrescentos e inovações, as pessoas constróem frases num português peculiar. Os mais velhos entoam sábios dizeres, com olhos de brilho e voz sentenciosa. É assim a fala na ilha em que todos os cheiros são de verde. As estradas que serpenteiam a costa de norte a sul são adornadas de gente. Caras novas, quase todas pretas e brilhantes, como esculturas de terra polida. Muita gente jovem, de todas as idades da juventude.

As mulheres trazem os filhotes às costas. Completam a natureza na abundância da fertilidade. Nas poucas clareiras permitidas à terra pela densidade da vegetação, espreita a curiosidade dos olhos grandes das crianças. Vestem-se com roupas velhas, de tamanhos desencontrados dos seus corpos franzinos, ou então apenas com as suas luzidias peles castanhas e carapinhas negras. A nossa palidez parece quase patética numa terra de tanta cor. Até os pequenos riachos são emoldurados pelos azuis, amarelos, laranjas e vermelhos das roupas estendidas pelas lavadeiras que atiram gritos e bocados de sabão, umas às outras, enquanto esfregam e batem, expurgando de todo os lixos as vestimentas.

São Tomé podia ser um retrato fiel do mundo. É terra de sortes poucas e de muitos azares. Para além da fruta e do peixe, o povo apenas parece ter o direito de não ter quase nada! Como no resto do mundo, também aqui os azares podem ter muitos nomes e tantos outros significados. É difícil ignorá-los ao olharmos para Sidónia. Olhos rasos de lágrimas e de desesperanças, chega atrasada para receber um doce, uma blusa, um caderno ou uma caneta. Esta não foi seguramente a primeira vez que não chegou a tempo à parte mais apetecível da vida.

A Roça Agostinho Neto já foi Roça Rio de Ouro. Justino Tamaínho e Francisco Duarte foram contratados. Hoje são dois ançiãos desempregados com residência na sanzala da roça. Provenientes de Moçambique e de Cabo Verde, vieram para a terra do cacau há mais de 50 anos. Recordam os tempos em que o Sr. Fonseca (dono da roça) se zangava por vê-los tão magros. “Não era bom para o trabalho!”. E certamente não era bom para eles enquanto homens. Não podemos afiançar que também esta fosse uma preocupação para o Sr. Fonseca.

No Ilhéu das Rolas (a sul da Ilha de São Tomé), a mítica linha do Equador reparte em dois um pequeno pedaço de terra. De um lado, no hemisfério norte, espoja-se com majestade o Rolas Resort Island, do outro, no sul, vivem Jackson e Artur em pequenas barracas de madeira. Como que por superstição, os ricos estão sempre do lado de cima do globo!

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11. Agosto 2011 by admin

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  1. Li este excelente texto, num misto de profunda saudade emocionada, olhos rasos de lágrimas e idílico deslumbramento. Os meus parabéns ao autor do artigo, por tão profusa e detalhada informação Sim, porque, tudo o que diz é verdadeiro. Pois conheço estas Ilhas, como a palma das minhas mãos. Sei que mudou muita coisa mas não o carácter sorridente e pacífico dos seus habitantes. Todos os lugares, aqui referidos, me são familiares – E, todavia, já lá vão tantos anos, quando, em Novembro de 1963, desembarquei do navio “Uíge”, para um estágio na Roça Uba-Budo. Ou, mesmo, doze anos depois, quando, em Outubro, de 1975, deixaria esta ilha para a tentativa de uma travessia oceânica de piroga. – De facto, São Tomé e Príncipe, é das ilhas mais belas do Atlântico e dos sítios turísticos mais seguros de África. Há uns anos atrás haveria outras paragens, no continente africano, também seguras, mas hoje duvido que se encontrem. Nos anos 80, eu e mais uns amigos, fizemos de jipe a réplica do Paris a Dakar, maravilhámo-nos com o deserto e com a hospitalidade das pessoas, nomeadamente dos tuaregues, hoje, do Paris-Dakar, resta a memória, sim, quem se atreve a viajar por aquelas intermináveis pistas?!- Ora, em S. Tomé, seja qual for o destino que se tome (naturalmente que o mais aconselhável é o de jipe, já assim era no tempo colonial)pode-se viajar ou andar a pé de coração descansado e olhar continuamente tranquilo e deslumbrado. Como sugestão, deixo aqui a indicação do passeio ao mítico Cão Grande, que eu e a minha equipa de santomenses, escalámos – Único pico no género, cujo toque na pedra, dizia quem sabia, no meu tempo, tem propriedades afrodisíacas – mas se duvidar dessa experiência, creia que não faltará pau-três, lá pelas redondezas do luxuriante obó (bem mais eficaz), pelo que não dará por perdida a aventura.

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