A Ilusão que Desilude - Fotos Antes e Depois
Fotos Antes e Depois

A Ilusão que Desilude

Atualizado em 13 Janeiro, 2018

A Ilusão que Desilude

Nus, diante do espelho, somos exímios em apontar defeitos ao nosso corpo. Aquela imagem reflectida nunca é a que nós desejamos. E vemos inúmeras imperfeições que mais ninguém consegue ver. Todos somos vítimas desta busca de perfeição. Que não existe. Mesmo os menos imperfeitos (ou os que estão menos longe da dita perfeição). Que fazer senão camuflar com a vil roupa (a vergonha imposta por Deus no paraíso), o vil metal ou o vil isolamento os defeitos corporais que se nos apresentam? E com que disfarçamos as nossas imperfeições que não estão assinaladas no nosso corpo, na nossa carne?

Como dissimular a dor, a tristeza, o vazio, a solidão, a angústia, o medo, … enfim, o sofrimento psíquico? A roupa não chega. E dissimular para quem e para quê? Para quem? Para os outros ou para nós mesmos? Pois… iludindo o outro no contrário do meu sofrimento não deixarei de me iludir a mim, ainda que, naquele breve momento, crie também uma breve satisfação que procuro que mitigue a minha dor.

Iludindo-me a mim próprio, vivo a miragem da satisfação desejada, logo é mais rica a transmissão ao outro dessa minha ilusão. Querendo, talvez a última seja mais prática, ao permitir enganar-me a mim próprio por instantes sobre a minha realidade psíquica. Mas não há desilusão sem ilusão. Ou será ilusão sem desilusão? Para quê? Porque sim. Para não se pensar nisso. No isso que nos dói, que nos fere. Se eu penso, eu sinto (mais do que existo!), porque pensar é atribuir sentido, dar significado. A teoria da fuga. Fujo para não sentir o que sinto. Aqui a fuga tem uma função terapêutica súbita, ao omitir as dúvidas e ressuscitar o equilíbrio interno. É que ao colocar a interrogação sobre qual o sentido da minha dor, eu interrogo a minha própria existência. E o que é a minha existência se eu me iludo a mim e iludo o outro? Uma desilusão? Então, se dois mais dois é igual a quatro, a minha existência é igual a uma desilusão.

Não, a vida não é um mar de rosas. Mas existem vidas muito mais cheirosas e mais coloridas que outras. Vidas essas que sabem inspirar das rosas que possuem (que não perfazem um mar) o seu delicioso aroma e encantar-se com as suas cores. As rosas têm cheiro e têm cor. Não são uma ilusão. Agarrar a vida pelos cornos não é, certamente, indolor. Agarrar a nossa realidade interna tal como ela é não é nada fácil, sendo uma tarefa insuportável para muitos. E, desses muitos, quantos sequer a tentam suportar?

Parece ser mais fácil viver em suspensão, ou numa ficção interior, numa inexistência de significado para a existência, numa ilusão que acolhe/encolhe a nossa dor. A dor deixa uma janela aberta para o vazio que procuramos a todo o custo evitar. Mas a dor é uma tensão interna que anda em demanda da sua própria resolução. Porquê iludir a única coisa que nos pode aliviar? O confronto directo com a própria dor. É na génese dessa dor, que nos esforçamos por iludir, que está a solução para não nos desiludirmos connosco próprios.

Questão: como confrontá-la? Só o facto de querer encontrar a dor já é um bom começo para o seu fim, pois enfrentar o que nos dói não é, desenganadamente, para todos. Requer uma boa dose de coragem. E tendo-a, a partir daqui, é só escolher a via para lá chegar. Sozinho ou com ajuda. A clarividência de cada um lhe indicará as suas possibilidades internas.

Entrarmos na escalada desilusão/ilusão pelo sofrimento que varremos para debaixo do tapete é suspendermo-nos a nossa existência, adiarmos a vida em detrimento de confronto com nós mesmos. Uma constante e incessante fuga de nós. Valerá a pena? Reformulando: Valerá a vida?

ANA CARRILHO DE MATOS
Psicicóloga/Psicoterapeuta

Atualizado em 13 Janeiro 2018

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