A tuberculose em Portugal em 2009. Análise e comentários - Fotos Antes e Depois
Fotos Antes e Depois

A tuberculose em Portugal em 2009. Análise e comentários

Atualizado em 13 Janeiro, 2018

A tuberculose em Portugal em 2009. Análise e comentários

 No passado dia 24 de Março de 2010, Dia Mundial da Tuberculose (TB), foram divulgados os dados relativos à situação epidemiológica da TB no nosso país, referentes ao ano anterior e inseridos no documento Programa Nacional de Luta contra a Tuberculose. Ponto de Situação Epidemiológica e de Desempenho.
Relatório para o Dia Mundial da Tuberculose.
Direcção-Geral da Saúde.
Esse relatório, numa perspectiva analítica, permite tirar as seguintes dez conclusões:

1. Em Portugal, a tuberculose continua a diminuir

Em 2009 foram identificados 2756 casos de TB, dos quais 2565 foram casos novos. A taxa de incidência de casos novos de 24/105 habitantes foi a mais baixa alguma vez registada em Portugal. Esta taxa traduz uma redução de 8 por cento relativamente ao ano anterior e um decréscimo anual médio de 7, 3 por cento nos últimos sete anos.

2. Ainda não somos um país de baixa incidência de tuberculose

A taxa de incidência de 24 casos/105 habitantes define-nos como um país de incidência intermédia e aproxima-se da fasquia dos 20/105, definidora dos países de baixa incidência. Portugal continua a ser o único país da Europa ocidental que não pertence a este grupo restrito e, no contexto da União Europeia (UE), integra o lote de sete países (juntamente com a Roménia, Lituânia, Letónia, Bulgária, Estónia e Polónia) que ainda não atingiram esse patamar. De notar que todos os outros países referidos pertenceram ao antigo bloco de Leste, zona onde a incidência de TB atinge valores preocupantes.  É a elevada incidência de tuberculose nestes países que faz com que a taxa de incidência da região europeia (que integra 53 países) tivesse sido, em 2008, de 52/105, enquanto a mesma taxa foi de apenas de 16, 7/105 na UE.

“Apesar de Portugal ser um país com uma boa taxa de detecção (…) não o está a fazer com a celeridade desejada. A mediana de tempo necessário para o diagnóstico das formas bacilíferas é excessiva – 60 dias”, alerta o médico Jaime Pina, Chefe de Serviço de Pneumologia Imunoalergologista.

3. A assimetria regional

No nosso país a incidência da TB não foi uniforme: oscilou entre 6, 5/105 (Évora) e 34/105 (Lisboa). Doze dos dezoito distritos e as duas regiões autónomas notificaram incidências inferiores a 20 casos/105 habitantes – regiões de baixa incidência. Apenas seis distritos registaram valores acima dessa taxa (Viana do Castelo, Vila Real, Setúbal, Faro, Porto e Lisboa), tendo Porto e Lisboa registado uma taxa acima dos 30 casos/105 habitantes, respectivamente: 33, 7/105 e 34/105.  Esta assimetria regional, apesar de ser uma realidade antiga, sofreu uma importante melhoria na última década. De facto, há dez anos havia quatro distritos que ainda registavam uma incidência superior a 50/105 e apenas em cinco verificava-se uma incidência inferior a 20/105. É nos seis distritos com maior incidência que devem ser reforçados a organização e os meios de combate à TB.

4. Problemas com o diagnóstico da tuberculose 

Apesar de Portugal ser um país com uma boa taxa de detecção (percentagem de casos estimados que são diagnosticados) não o está a fazer com a celeridade desejada. A mediana de tempo necessário para o diagnóstico das formas bacilíferas é excessiva – 60 dias.
As causas para esta demora são múltiplas, merecendo destaque as seguintes: baixa suspeita diagnóstica para a TB por parte do corpo médico, dificuldades na acessibilidade aos cuidados de saúde primários, métodos de diagnóstico morosos e deficiente articulação entre os cuidados de saúde primários e os serviços dedicados à TB.

Para corrigir essa situação deverão ser adoptadas as seguintes medidas: incremento da formação na área da TB, sobretudo para os médicos de Medicina Geral; melhoria da articulação destes profissionais com os serviços dedicados ao combate à TB; maior utilização dos testes diagnósticos genotípicos que permitem reduzir substancialmente o tempo necessário para o diagnóstico e para a determinação das resistências. Com estes novos métodos de diagnóstico, a identificação do Mycobacterium tuberculosis e o padrão de resistências aos dois principais antibacilares pode ser realizado em apenas 1-2 dias!

5. A tuberculose latente

O diagnóstico e tratamento da TB latente são considerados pela OMS [Organização Mundial de Saúde] como uma peça fundamental para o controlo global da TB. O adequado tratamento da TB latente, com a redução do risco de reactivação das lesões de 10%/vida para 1%/vida, constitui-se como uma importante arma para reduzir a quantidade de casos infecciosos no seio de uma comunidade.
Há, pois, que aumentar o acesso aos novos métodos de diagnóstico da TB infecção, os testes IGRA, que apresentam maior sensibilidade e especificidade do que a tradicional intradermorreacção de Mantoux, e normalizar os adequados esquemas terapêuticos.

6. Critérios de qualidade

Portugal regista um conjunto de performances que traduzem elevada qualidade no Programa de Combate à TB. Ao registar uma taxa de detecção de 91 por cento, o nosso país superou largamente a taxa de detecção proposta na estratégia DOTS da OMS (> 70 por cento dos casos). Igualmente a taxa de curas (percentagem de casos diagnosticados que são curados) registada – 87 por cento – superou a taxa desejável de 85 por cento indicada na referida estratégia global.

Do mesmo modo a diminuição consistente do número de retratamentos e recidivas – apenas 191 casos em 2009 – traduz uma maior eficácia dos programas de tratamento. Igual significado tem o desvio do pico etário para a direita. Apesar da idade mediana dos doentes se situar entre os 35-44 anos – o que traduz ainda um padrão de elevado nível endémico – esse valor situava-se há dez anos na faixa dos 25-34 anos. Esta mudança traduz uma evolução favorável do nível endémico da doença.

7. Os grupos de risco

Sendo a tuberculose uma doença infecciosa, qualquer pessoa pode ficar doente. Porém, por motivos vários, mas em que os défices imunitários têm um papel importante, os chamados grupos de risco contribuem para um significativo número de doentes (35 por cento): infectados pelo VIH/sida, imigrantes, toxicodependentes, alcoolismo, reclusão e sem abrigo. Nestes grupos de risco verifica-se não só maior incidência de TB, como piores resultados no tratamento. Assim, para um valor de 93 por cento na taxa de curas na população sem factores de risco, verificaram-se os seguintes valores nos grupos de risco: imigrantes – 87 por cento; sem abrigo – 77 por cento; toxicodependentes e VIH/sida – 74 por cento. Esta situação obriga a uma intensificação do enquadramento sanitário destes dentes.

O problema dos imigrantes

Em 2009 foram identificados 414 casos de TB em estrangeiros. Este número correspondeu a 15 por cento do total de casos notificados, percentagem mais baixa do que a verificada na maioria dos países da UE, onde em 2008 se registou o valor médio de 22 por cento (em 9 países esse valor foi superior a 50 por cento e, em 4, acima de 80 por cento). No nosso país os imigrantes notificados por TB são, na sua grande maioria (70 por cento), provenientes da África subsaariana. Dominam os países outrora colonizados por Portugal e caracterizados por elevados níveis de endemicidade: Angola (24 por cento), Guiné-Bissau (17 por cento), Cabo Verde (17 por cento), Brasil (9 por cento) e Moçambique (5 por cento).

Para além do défice de curas relativamente à população em geral – a taxa de cura nos imigrantes foi, em 2009, de apenas 87 por cento – os imigrantes no nosso país apresentam um risco de adoecerem com tuberculose 3, 7 vezes maior que a população geral. Esse risco variou entre 1, 5 vezes mais nos brasileiros e 26 vezes mais nos moçambicanos. Estima-se que em 2009, em Portugal, a taxa de incidência da TB na população estrangeira tenha sido de 94 casos/105 habitantes. Tal facto aconselha um significativo reforço de vigilância epidemiológica neste grupo de risco.

“Os imigrantes no nosso país apresentam um risco de adoecerem com TB 3, 7 vezes maior que a população geral”, assinala o autor.

8. O problema da infecção VIH/sida

Devido ao facto de a infecção pelo VIH/sida originar uma depressão imunitária com disfunção e/ou depleção das linhas celulares que asseguram a defesa imunitária contra o Mycobacterium tuberculosis (células do sistema monocítico-macrofágico e linfócitos T) é conhecida a vulnerabilidade dos infectados por aquele vírus à infecção e à doença provocada pelo bacilo da tuberculose. Os doentes VIH/sida, em determinados contextos, chegam a ter uma probabilidade 200 vezes maior de adoecer com TB.

Em 2009, no nosso país, foram identificados 349 casos de TB associados à sida. As áreas metropolitanas de Lisboa e Porto e os distritos de Faro e Setúbal constituem-se como as regiões mais afectadas por este problema. O valor de 13 por cento de prevalência de VIH/sida entre os doentes com TB é dos mais elevados a nível europeu, tal como os 39 por cento de casos de VIH/sida que têm na TB a primeira doença indicadora de sida (a média da UE é de 25 por cento). Tais factos indicam o muito que ainda há a fazer neste grupo de risco, aconselhando, desde já, uma maior coordenação dos programas de controlo de ambas as infecções.

9. A tuberculose multirresistente e extensivamente multirresistente

A tuberculose multirresistente (TB-MR) é definida como a TB em que os bacilos infectantes são resistentes pelo menos aos dois principais antibacilares – a isoniazida e a rifampicina. É frequente haver resistência simultânea a outros fármacos antituberculosos.
Define-se como TB extensivamente resistente (TB-XDR) a TB em que os bacilos infectantes são resistentes aos dois principais antibacilares, às fluoroquinolonas e pelo menos a um dos antibacilares injectáveis. Estas formas de tuberculose resultam de tratamentos errados ou de baixa adesão aos tratamentos propostos e constituem-se como um dos mais sérios problemas de Saúde Pública: potencial para eclodir uma epidemia de TB para a qual não dispomos de fármacos eficazes.

Portugal, em 2009, tinha em tratamento 63 doentes identificados como TB-MR, representando 1, 7 por cento do total de casos de TB e localizados, sobretudo, nas regiões de Lisboa e do Porto. Destes, 15 preenchiam os critérios de TB-XDR (0, 5 por cento do total de casos de TB, valor acima do limite considerado admissível pela OMS). Nos últimos 10 anos, os casos identificados de TB-MR e XDR têm registado uma progressiva diminuição: de 55 (47/8) casos identificados no ano 2000 passámos para apenas 20 (17/3) casos identificados no ano passado. A criação de um centro nacional e de centros regionais de referência para a abordagem destas formas de TB constituiu-se como uma significativa mais-valia organizativa.

O controlo destes casos por profissionais altamente qualificados só pode trazer vantagens. Porém, não é compreensível que a região mais afectada por este problema (Lisboa e Vale do Tejo) continue fora desta forma de organização. É urgente implementar nesta região um Centro Regional de Referência para a TBMR e XDR. Também tem de ser ponderada a existência de camas para internamentos prolongados de formas particulares de TB, fora dos actuais hospitais de agudos: tuberculoses bacilíferas crónicas, casos MR e XDR a necessitarem de internamento, algumas formas de TB com complicações cirúrgicas e casos sociais particulares. Os actuais hospitais de agudos, onde estes doentes são internados, não estão vocacionados para internamentos muito prolongados. Apesar da melhoria evidente da situação epidemiológica da TB no nosso país, ainda não atingimos os patamares característicos dos países evoluídos. Há, pois, que não afrouxar a luta e implementar as medidas que sabemos eficazes no combate à TB.

Atualizado em 13 Janeiro 2018

Participe no Forum. Deixe a Sua Dúvida ou Comentário

Campos de Preenchimento Obrigatório marcados com *