Alentejo

Apesar de ser uma das mais homogéneas províncias portuguesas, o Alentejo separa-se em zonas diferenciáveis, como o Alto e o Baixo, a que Amorim Girão acrescentou um Médio, a que corresponderiam os distritos de Portalegre, Èvora e Beja.

Históricamente há notícia de ter sido atravessado, a partir do Algarve e do porto fluvial de Mértola, muitos séculos a.C., por marinheiros e comerciantes fenícios, gregos e púnicos. A ocupação romana teve sobretudo a ver com a exploração dos minérios de Aljustrel e S. Domingos e a circulação era feita pelo eixo foz do Sado-baixo Guadiana. Do ponto de vista cultural, porque a ocupação foi então mais perene, o território alentejano ficou muito marcado pela presença árabe.

O Alto Alentejo é a zona mais povoada, mais fértil e, sobretudo, patrimonialmente mais rica, por aí terem jornadeado e estacionado reis, fidalguia e ordens religiosas, o que deixou marcas em Évora, Estremoz, Vila Viçosa e Crato.

No Alto Alentejo jã não predomina a grande planície, pois aí se começa a subir para pequenas encostas e para as serras da Ossa (633m) e de S. Mamede (1025), fazendo a transição com a Beira Baixa. A atmosfera é menos seca e a pluviosidade maior.Aqui se altera também a monotonia da charneca, pois a serra de S. Mamede, de Portalegre a Marvão e, o vale que vai até Castelo de Vide, estão cobertos por arvoredo, em que se destaca o castanheiro e o olival., embora a praga do eucalipto já comece por aí a aflorar.

Se o Guadiana influencia o sudeste da província e vai potenciar o seu desenvolvimento depois de Alqueva; se o Mira nunca conseguiu, apesar do sistema de regadio, enriquecer o sudoeste; se o Tejo e seu afluente Sorraia criou uma zona de riqueza agrícola no norte; o rio Sado é o mais longo ao atravessar a província de sul para norte. A jusante de Alcácer do Sal alimenta uma planície alagada, por onde se estendem arrozais e zonas de pesca fluvial. Para montante o rio corre em terreno plano, por onde se espalham pequenos povoados dispersos em matas de sobreiros.

Acerca das características físicas do Baixo Alentejo escreveram José Matoso e Suzanne Daveau, em “Portugal-O Sabor da Terra”:

«As grandes planícies dominadas por Beja, a sul da escarpa da Vidigueira, e que se prolongam, além do Guadiana, até Moura e Serpa, formam uma região agrícola muito rica por causa dos seus solos ex-cepcionalmente férteis – os escuros «barros» que resultam da alteração de diorites; é neles que se semeia o trigo em colheitas abundantes e bastante regulares. (…) Mas todo o resto do Baixo Alentejo é pobre e monótono. Os solos permeáveis e empobrecidos, que resultam da lavagem superficial das areias detríticas da bacia sedimentar do Sado, ficaram em grande parte abandonados à charneca de sobreiros que só no séc, XIX se tornou fonte de riqueza, quando se começou a explorar a cortiça.»

O litoral alentejano é das zonas mais belas da nossa costa. Corresponde-lhe uma zona demográficamente bastante deserta, por falta de abrigos naturais na costa, com excepção em tempos antigos da foz do Mira e, recentemente, do porto de Sines.

A zona sul dos polos urbanos de Beja, Serpa e Moura, já a caminho das serras do Algarve, o povoamento é mais disperso, desde a serra de Grândola até Mértola, os solos são muito pobres. A pobreza desta zona acentuou-se com a decadência da exploração do minério de Aljustrel e de S. Domingos.

Tem crescido a sudeste da província a vinha e mais a norte culturas de regadio. A barragem do Alqueva alterou toda a paisagem e estrutura produtiva do Sudeste Alentejano.

Procura de raízes, de sagrado e de símbolos

Enquanto esperamos por uma análise de fôlego que nos encaminhe para o entendimento do fenómeno social que é o facto de o Alentejo ter passado de um tempo de sombra para o horizonte de muita gente, permitimonos pequenas deduções salvíficas que vão amenizando a nossa inquietação.

Ter terra e ter muita terra num país que a Norte do Tejo pouco mais tem que quintais e hortas para a cultura intensiva de uma dúzia de couves é um desejo que animou, desde sempre, muita cabeça que, por circunstâncias diversas, invejava os largos domínios do Sul. Esse desejo começou com a presúria, no tempo da nossa fundação como Reino, foi sendo satisfeito à custa dos primeiros reis, com as generosas doações de agradecimento pelas ajudas na consolidação do território, continuou durante o tempo do nosso falso e pequenino feudalismo, contentou durante uns tempos uma aristocracia rural que faliu porque foi incapaz de administrar o objecto do seu desejo e, finalmente, entusiasmou a burguesia a rebentar de dinheiro que sempre invejou o senhorio dos terranentes.

Foi assim até ao final do Antigo Regime. Depois, durante um largo período após a estimada revolução liberal, ter terra no Alentejo era mais um encargo do que um benefício e os capitais dirigiram a sua avidez para outras paragens. Até que chegou o tempo da venda dos bens nacionais, na segunda metade do século passado, e com trafulhices, corrupções, enganos, astúcias, enfim, com o grande catálogo de vigarices em aturada procura, uma parte do Alentejo foi outra vez vendida a gente de fora: banqueiros de Lisboa, industriais do Norte, políticos rotativistas com as carreiras em saldo, generais sem tropas e sem vergonha tornaram-se lavradores alentejanos.

A apetência pelas propriedades do Alentejo continuou até ao fim do século, aumentou com o apego do Senhor D. Carlos a Vila Viçosa e os alentejanos de empréstimo gargarizavam-se com a boutade do monarca que em alguns documentos iludia a forma tradicional de assinatura, Carlos, Rei, por Carlos de Bragança, lavrador alentejano. Era quase um incitamento aos áulicos da corte e aos seus atentos seguidores para ganharem essa condição de lavradores alentejanos que o rei gostava de singularizar.

A implantação da República não assustou ninguém e assinale-se que, em todo o Alentejo, nem um hectare de terra foi ocupado. Passaram-se tempos mornos, sem história, a não ser a que nos fala dos tempos difíceis da lavoura, com empobrecimento lento e progressivo dos proprietários e vida dura para quem os servia. Alguns anos antes da revolução de Abril o Alentejo voltou a ocupar os interesses de alguns que aí quiseram estabelecer lavouras mas, principalmente, constituirem coutos de caça privados.

Compraram-se herdades, de todos os tamanhos e com todas as aptidões, para satisfazer os caprichos cinegéticos de alguns ricos e novos caçadores com espingardas por estrear. Ter um couto no Alentejo, nessa época, dava estatuto, posição, influência, em resumo, poder. Os negócios faziam-se durante as caçadas, os convidados eram escolhidos com rigorosa intenção e o couto funcionava como um meio social onde se discutia e negociava poder, qualquer poder.

Com a revolução algumas terras mudaram para outras mãos, inaugurando-se uma nova época na maneira de olhar para o Alentejo. Gente de todas as classes corria para lá na expectativa de observar um mundo socialmente novo. Passados tempos o ardor da revolução arrefeceu, a corrente migratória do turismo político terminou, mas na cabeça das pessoas ficou a paisagem, a memória de uma experiência e a vontade de não esquecer um caminho aprendido em tempo de exaltação. Muita gente inscreveu o Alentejo, desde então, como destino frequente das suas errâncias, e a compra de herdades, de quintas, de quintais, de qualquer pedacinho de terra começou a ser aspiração de muitos. Foi este movimento, ainda em desenvolvimento, que deu origem à moda e à voga do Alentejo.

Andamos quase todos, hoje, à procura de uma terra mítica, à procura das origens, do regresso ao campo. As grandes migrações nos fins de semana para a província, que entusiasmam cada vez mais pessoas, são destinos que todos procuramos, principalmente aqueles que, maltratados pelos azares dos tempos, saídos de diásporas e de exílios internos diversos, se sentem cada vez mais estrangeiros no próprio país. Passámos, sem que nos tivéssemos dado conta, de um mundo eminentemente rural para a desmedida dos espaços planetários e com o sentimento de que, a qualquer momento, podemos ficar desprovidos de referências, sem eira nem beira, num mundo cada vez mais complexo, mais incerto, que poderá estar quase a esquecer o seu próprio passado. Na iminência de ficarmos desenraizados escolhemos espaços fortes, com identidade, e o Alentejo é um espaço de eleição.

A caminhada de muita gente para esta minha querida província talvez não seja só um fenómeno de moda e de massas. Se algumas migrações se podem analisar sob o ângulo do turismo e de uma sumária sociologia dos ócios, muitas idas para o Alentejo evidenciam uma enorme diferença entre o turismo vulgar e o regresso a lugares em relação aos quais sentimos afinidades profundas. O primeiro procura as virtudes da mudança, do exotismo, ou a satisfação de uma curiosidade intelectual pelos modos de vida não-urbanos.

No outro caso é uma revitalização, qualquer coisa de essencial em direcção à qual é necessário caminhar, é quase uma iniciação, uma procura não só de raízes como da própria identidade. Numa sociedade que, apesar de alguns integrismos, se vê em vias de dessacralização, ir à procura do passado é um exercício essencial, porque traz consigo uma atracção, mesmo um fascínio que permite viver uma aventura espiritual não forçosamente religiosa. É a demanda de tempos fortes, espaços intensos, simbologias várias, sem os quais o mundo seria ainda mais desencantado. No Alentejo é possível a reconciliação com valores de uma cultura em renascimento.

É a paisagem variada que obriga o nosso olhar a fixar-se tanto em montes e cabeços como em planícies que só terminam num horizonte longínquo. É o campo que é campo, sem mácula do urbanismo destemperado que semeia casas por todos os sítios. É a grandeza da costa alentejana com muito mar e pouca gente. É o branco das vilas, nítidas e claras, que evocam comunidades organizadas. É o cante dolente adequado à vida e ao sonho. É a gastronomia sem vertigens de identidade, imune aos exotismos alimentares de outras culturas. É o vinho cheio de sol e de força que contenta os paladares. É o artesanato puro, com sedimentados saberes de séculos, distante das imitações de conveniência.

São as memórias dos povos que foram matriz da nossa cultura espalhadas por sítios fenícios, romanos ou do al-Andalus. E, para além de tudo isto, são as pessoas: francas, tranquilas, direitas, habituadas a uma grandeza do tamanho do seu olhar. O Alentejo, imponente e vasto, que tem assistido à chegada e à partida de tantas e variadas gentes, é eco de muitos desejos.  (Alfredo Saramago)

O Alentejo não é uno. O norte foi terra rica que acolheu reis. Esta opulência deixou sinais em Évora, Estremoz ou Vila Viçosa. Aqui o terreno já começa a elevar-se para as serras de Ossa e sobretudo de São Mamede (estando esta última classificada como parque natural). Na secura das planuras do sul, cuja monotonia só é quebrada pelo alvejar dos montes das grandes herdades, abrem-se os vales do Guadiana, do Mira ou do Sado. A costa é outro mundo, o da Área de Paisagem Protegida do Sudoeste Alentejano, com as arribas xistosas do cabo Sardão e as magníficas praias entre Sines e Odeceixe.

Alandroal
Aljustrel
Alvito
Arraiolos
Avis
Beja
Borba
Campo Maior
Castelo de Vide
Crato
Évora
Estremoz
Fronteira
Grândola
Marvão
Mértola
Monsaraz
Montemor-o-Novo
Mora
Moura
Odemira
Ponte de Sor
Portalegre
Redondo
Serpa
Viana do Alentejo
Vila Viçosa

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Última atualização da página em 13/01/18 por:

Dra. Alice Wegmann (Clínica Geral)

Licenciada em Medicina Geral e uma apaixonada por Medicina Alternativa, Aromaterapia e Fitoterapia.

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