Atenas 1896

Atenas 1896 – QUANDO OS HOMENS AINDA NÃO CHORAVAM

Naquela altura, os homens ainda não choravam, mas o aristocrático barão Pierre de Coubertin não conteve as lágrimas no momento em que, naquele dia 5 de Abril de 1896, o rei Jorge I, da Grécia, declarou abertos os primeiros Jogos Olímpicos da era moderna. Estávamos em Atenas, a capital do país onde, muitos séculos antes, o espírito olímpico criara raízes e estabelecera o ideal de paz e desportivismo que ainda hoje constitui a matriz de um acontecimento que move milhares de atletas, dezenas de milhares de participantes, milhões de espectadores, milhares de milhões de telespectadores e números ainda com mais zeros à frente em dinheiros envolvidos, seja qual for a unidade monetária que se contabilize.

Não foi bem assim em Atenas, nesse distante ano de 1896. O desporto era diferente, o mundo era diferente. Mas o dinheiro era sempre dinheiro e a extraordinária doação de um milhão de dracmas feita ao comité organizador por um rico comerciante grego de Alexandria, George Averoff, pesou mais na realização dos Jogos do que todos os esforços de Coubertain. Que não foram poucos: os ingleses davam-se mal com os alemães (sim, nisso também não houve grandes mudanças…), os gregos eram pobres e não queriam gastar dinheiro no sonho de um francês. E etc.

O empreendedor mas reaccionário barão de Coubertain – entre outras coisas, era contra as mulheres no desporto e considerava os negros indignos de participar nos Jogos -, trabalhou intensamente nos bastidores nos dois anos que mediaram entre a primeira reunião, em Paris, do Comité Olímpico Internacional (COI) e aquele dia de Abril em que 80.000 pessoas se apinharam no Estádio Olímpico de Atenas (construído com o dinheiro doado por Averoff – hélas!) para aplaudirem o regresso da grande festa do desporto. (As cerimónias de inauguração obedeciam já ao princípio de serem presididas pelo chefe de Estado da nação anfitriã, mas não havia juramento dos atletas – só apareceu em Antuérpia 1920 – nem se acendia a chama olímpica, tradição ancestral apenas recuperada a partir de Amsterdão 1928.)

O mundo era diferente. A Europa era o centro de tudo, várias das suas nações repartiam territórios ultramarinos em impérios onde o sol não se punha, enquanto a América vivia ainda fechada sobre si própria, sorridente na sua economia florescente. Poucos terão reparado, mas um mês depois do discurso do rei Jorge I, do outro lado do Atlântico um rapaz de Detroit fazia as primeiras experiências com o chamado “quadricilo”. Chamava-se Henry Ford.

A escolha de Atenas para sede dos primeiros Jogos da era moderna obedeceu, claro, a critérios históricos, mas veio mesmo a calhar para os europeus. Numa era pré-avião, todos os outros ficavam muito longe e, entre as 14 nações representadas, apenas os Estados Unidos da América e a Austrália (que só se tornou independente em 1901) vinham de fora da Europa (os registos falam ainda de uma “Equipa mista”, sem mais explicações).

Durante dez dias, competiram em Atenas 241 atletas, na sua maioria gregos, divididos por 43 provas em nove modalidades: atletismo, ciclismo, esgrima, ginástica, halterofilismo, luta, natação, ténis e tiro. (Como termo de comparação, os números homólogos para os Jogos de Sydney 2000 foram: 199 países participantes, 10.651 atletas, 300 provas, 28 modalidades. E, já agora, 46.967 voluntários na organização e 16.033 representantes de órgãos de comunicação social.)

A competição em Atenas começou no dia 6 de Abril e logo nessa prova começou o domínio dos EUA no panorama olímpico internacional, em geral, e no atletismo, em particular. James Connolly, um estudante de Harvard, pulou 13,71 metros e conquistou a medalha de ouro no triplo salto, a primeira atribuída em mais de 1500 anos. (Na verdade, a medalha era de prata e, juntamente com uma coroa de louros, constituía a máxima distinção olímpica. Ao segundo classificado cabia uma medalha de bronze e ao terceiro… nada. O tradicional figurino das medalhas de ouro, prata e bronze só foi instituído em Londres 1908, na quarta edição dos Jogos.)

Quando soube da ressurreição dos Jogos Olímpicos, Connolly, de 27 anos, deixou a Universidade de Harvard, onde lhe faltava um ano para se licenciar e, primeiro de barco, depois de comboio, dirigiu-se a Atenas, onde chegou na véspera do início dos Jogos. À vitória no triplo juntou a seguir o segundo lugar no salto em altura e o terceiro no salto em comprimento. Depois da glória olímpica, James dedicou-se à escrita e fez carreira no jornalismo e na literatura – foi correspondente de guerra, escreveu 25 novelas e duas centenas de contos. Anos mais tarde, Harvard ofereceu-lhe um doutoramento “honoris causa”. Recusou-o.

Ao todo os atletas norte-americanos conquistaram em Atenas 11 medalhas de “ouro”, sete de “prata” e duas de “bronze” e ficaram com o primeiro lugar do medalheiro (expressão olímpica para a classificação ofiosa por número de medalhas ganhas) . Na verdade, a Grécia teve mais distinções (10-17-19), mas menos vitórias. Também, dado o desproporcionado número de atletas locais presentes, difícil seria os gregos não terem conquistado medalhas – era mesmo impossível, porque uma das provas do programa, os 100 metros em natação, era destinada exclusivamente a marinheiros gregos…

O grande herói helénico acabou, assim, por ser o pastor (ou agricultor, ou militar, ou carteiro…) Spiridon Louis, que, no dia 9 de Abril, triunfou na mais emblemática e dramática prova do programa olímpico, a maratona. O conceito fora criado pelo historiador francês Michel Bréal, que propôs ao COI imortalizar a façanha do soldado grego Filípides, que, para levar a Atenas a notícia da vitória em Maratona, correu desde o cenário da batalha até à capital, onde morreu após entregar de viva voz a boa nova (o episódio carece de confirmação histórica).

Na verdade, a maratona era uma prova completamente anómala no programa do atletismo, já que não havia qualquer outra corrida que chegasse sequer aos 5000 metros. Não espanta, por isso, que fosse seguida com paixão pelos gregos, que, ainda por cima, tinham em cena 13 dos 17 participantes, alguns dos quais se tinham treinado especificamente para o evento, coisa rara nesses dias.

Apinhada no estádio, a multidão, que incluía o rei Jorge I e quase toda a sua família, seguia o desenvolvimento da prova através das informações trazidas por mensageiros a cavalo. Ao princípio, dois franceses dominaram as operações, mas depois saltou para a frente o grego Spiridon Louis, que chegou isolado ao estádio, onde, na sua última volta, foi acompanhado por dois dos filhos do rei, um dos quais o príncipe herdeiro Constantino. Cortou a meta em 2h58m30s e entrou para a lenda. O delírio foi indescritível.

Foi tal a festa que até abafou o que poderia ter sido um escândalo. Numa das primeiras manifestações de batota olímpica, um grego, cujo nome – com notável senso de justiça – nem sequer passou à história, terminou a maratona em terceiro, para depois se descobrir que tinha andado à boleia uma boa parte do percurso. Foi desclassificado, em proveito do húngaro Gyula Kellner, o único atleta entre os oito primeiros que não corria pelo país organizador. (Uma mulher grega, de nome Melpomema, tentou alinhar à partida, mas foi impedida de participar. As mulheres tiveram de esperar mais quatro anos, até Paris 1900, para participarem nos Jogos e a maratona feminina só entraria no programa olímpico em Los Angeles 1984…)

O início do longo folhetim olímpico teve, praticamente, um pouco de tudo o que viria a enriquecer a história do desporto mundial no século seguinte. Em Atenas 1896, para além da batota, houve discussão com os árbitros, exemplos de desportivismo, vitórias fáceis e complicadas, casos de superação pessoal, acasos felizes. Vejamos então:

– Na prova de levantamento de pesos com as duas mãos, o dinamarquês Viggo Jenses e o inglês Lauceston Elliot somaram um total semelhante de 111,5 kg no cômputo dos dois movimentos incluídos no programa. O júri, instado a decidir, atribuiu o título olímpico ao primeiro, justificando-se com o melhor estilo do halterofilista nórdico…

– A odisseia da prova de ciclismo de 100 km em pista (!) ficou marcada por um episódio edificante: ao verificar que o seu grande adversário, um grego, enfrentava problemas mecânicos, o francês Leon Flameng parou de pedalar enquanto o outro consertava a bicicleta e só depois retomou a prova. Ganhou a corrida e a subida ao lugar mais alto do pódio foi uma recompensa bem merecida.

– O campeão olímpico de 1896 que menos suou terá sido o grego Leon Pyrgos, o primeiro do seu país. Para ganhar a prova de mestres de florete bastou-lhe derrotar o seu único adversário, o francês Jean Perronet, por três toques contra um. Já o seu compatriota ciclista Aristidis Konstantinidis precisou de 3h22m31s para completar os 87km do percurso. De caminho, teve de desmontar para assinar o nome no ponto de viragem da prova e foi forçado a trocar de bicicleta duas vezes, devido a avarias.

– Na natação, as provas foram disputadas no porto do Pireu, com os blocos de partida improvisados em barcos ancorados. O húngaro Alfred Hajos, de 18 anos, que já triunfara nos 100m, viu-se de repente confrontado com o cenário de uma água gelada, que em nada lhe agradava. Assustado pela hipótese de sentir cãibras, nadou velozmente para a costa tão distante… e ganhou também a prova dos 1200m.

– Encontrando-se em Atenas para assistir aos Jogos, o inglês John Boland foi inscrito por um amigo grego nas provas de ténis. Regressou a casa com duas medalhas de “ouro”, em singulares e pares masculinos. Antes, porém, exigiu que a bandeira da sua terra natal, a Irlanda, subisse no mastro ao lado da da Grã-Bretanha. Os organizadores anuíram, mas, na falta do símbolo irlandês, foi o próprio Boland quem forneceu uma bandeira irlandesa, que carregava na bagagem.

Os tempos eram outros. Os atletas olímpicos eram aristocratas com tempo para dispensar e não gente de origem humilde à procura de ascensão social. Homens de bigode e barba bem cuidada, cavalheiros. Não havia prémios pecuniários, contratos de publicidade, segredos tecnológicos, truques químicos ou maquinações biológicas.

Mas também não havia mulheres. Nem negros. Os países pobres ficavam de fora, o mundo só recebia ecos distantes do grande espectáculo desportivo, as instalações desportivas eram incipientes e desconfortáveis.

Em mais de um século, os Jogos Olímpicos cresceram muito. O mundo também.

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