8 Usos da Cetamina + Efeitos Colaterais e Dosagem

A cetamina é um medicamento usado para induzir a perda de consciência ou anestesia. Pode produzir relaxamento e aliviar a dor em seres humanos e animais.

De acordo com o Infarmed a cetamina é um medicamento amplamente utilizado para induzir e manter os efeitos da anestesia.

Usos Da Cetamina, Efeitos Colaterais E Como Tomar

Embora seja conhecido, na medicina, pelas suas propriedades sedativas e, nas ruas, pelas alucinações vívidas que provoca, também possui a capacidade de proteger o cérebro, reduzir a depressão e aliviar os sintomas do transtorno de stress pós-traumático (TSPT).

Continue a ler este artigo para aprender um pouco mais sobre os usos, mecanismos e efeitos colaterais deste medicamento.

O que é e para que serve a Cetamina?

A cetamina, também conhecida como Ketalar ou Ketaject, é um fármaco que inicia e mantém o efeito da anestesia (1).

O fármaco original foi descoberto no início da década de 1960 e aprovado para uso, nos Estados Unidos, em 1970.

Atualmente, é considerado pela Organização Mundial de Saúde (OMS) como um dos fármacos mais seguros e essenciais para os sistemas de saúde (2).

É classificada como uma substância controlada de Lista III (ou C1, no Brasil). Isto significa que é necessária uma receita para se poder comprar este medicamento em qualquer farmácia.

No entanto, muitas pessoas utilizam-na como uma droga recreativa para experimentar as alucinações e a sensação “elevada” ou prazerosa que ela provoca. Por esta razão, a cetamina possui um potencial claro de indução de dependência (3, 4).

Nas ruas, é conhecida por muitos nomes, incluindo K, special K, kit-kat, keets, superácido, super K e jato (5).

Trata-se de uma droga dissociativa, o que significa que altera os sentidos, provocando alucinações e sensações de separação em relação ao meio ambiente e ao próprio corpo (6).

Induz um estado semelhante ao transe, reduz a dor, promove o sono e provoca perda de memória, mantendo as funções cardíaca e pulmonar normais. Além de tudo isto, é também capaz de reduzir os sintomas depressivos (7, 8).

A substância é estruturalmente semelhante a outras drogas anestésicas, tais como a fenciclidina (também conhecida como “pó de anjo”, droga a partir da qual se obtém a cetamina) e a ciclo-hexilamina (9, 10).

Os seus efeitos podem durar cerca de 10 minutos. Contudo, 3 horas após a sua administração, metade da droga ainda persiste em circulação (11, 12).

A cetamina atua através do bloqueio seletivo do recetor do N-metil-d-aspartato (NMDA), o que reduz a retenção de memórias e a depressão (13, 14).

Mecanismo de Ação

Tal como acabamos de referir, a substância bloqueia os recetores NMDA, o que reduz a atividade do sinal cerebral. Isto explica o efeito anestésico geral, as alucinações, a dissociação (em doses mais baixas) e a perda de memória (em doses mais elevadas) que se associam à toma do medicamento (15, 16).

Embora os mecanismos de ação precisos da cetamina sejam atualmente pouco claros, acredita-se que ela também contribui para:

Aumentar os níveis do recetor do AMPA, o que provoca um aumento dos níveis de BDNF, produzindo efeitos antidepressivos (17).

Aumentar os níveis de glutamato, o que:

  • Provoca efeitos antidepressivos, através do aumento dos níveis de BDNF (18)
  • Causa psicose ou perda de contato com a realidade (19)

Bloquear os canais HCN1 para induzir a hipnose (20).

Aumentar a dopamina e, possivelmente, reduzir os níveis nicotínicos de acetilcolina, o que pode provocar sensações de delírio (21).

Reduzir a capacidade de resposta dos recetores opióides (em doentes com dor crónica), o que reduz a tolerância aos medicamentos opióides e a dor (22).

Suprimir a dor, aumentando os níveis de serotonina e de noradrenalina (23).

Aumentar os níveis de amina, o que:

  • Diminui a sensibilidade à dor (24)
  • Está associado à estimulação cerebral (25)

Inibir as enzimas que produzem óxido nítrico, contribuindo para a redução da dor (26).

Inibir a atividade dos canais de cálcio, o que possui vários efeitos relaxantes musculares (27).

Ligar-se aos locais de ligação da acetilcolina, nos receptores NMDA, reduzindo assim os níveis de acetilcolina. Tal efeito conduz a uma diminuição da frequência respiratória e à interrupção do sono (28).

Bloquear os canais de sódio, o que resulta em anestesia local (29).

A cetamina existe na forma de enantiómeros R e S, o que significa que se apresenta como um par de moléculas que correspondem às imagens espelhadas uma da outra.

O isómero S é 3 vezes mais potente do que o isómero R e resulta numa recuperação mais rápida da função pós-anestésica cerebral e motora (movimentos).

De qualquer modo, a forma racémica (constituída por uma mistura dos dois) é atualmente utilizada pois a sua interação com o organismo é comparável à do isómero S (30, 31).

Usos da Cetamina

Ajuda no tratamento da depressão

Num estudo com 2 dias de duração (DB-RCT), realizado em 7 pacientes com depressão major, a substância foi capaz de reduzir os sintomas depressivos, 72 horas após a sua administração (32).

A cetamina poderá também ser eficaz na redução dos sintomas em pacientes com depressão resistente ao tratamento (DRT). Numa revisão sistemática, verificou-se que uma única dose de cetamina (intravenosa) é capaz de produzir um efeito antidepressivo forte e rápido com duração de 1 semana, em doentes com DRT.

Além disso, os sintomas depressivos melhoram apenas 40 minutos após a administração do fármaco, segundo os resultados de um estudo de 14 dias (DB-PCT) realizado em 18 pacientes com depressão bipolar resistente ao tratamento (33).

Num estudo de 24 horas (RCT) com 73 pacientes, aqueles que usaram o medicamento apresentaram uma melhoria mais acentuada nos scores obtidos pela Escala de Avaliação da Depressão de Montgomery-Åsberg (MADRS), utilizada pelos psiquiatras para medir a gravidade da depressão, em comparação com os doentes medicados com midazolam (34).

Embora exista muita informação sobre os efeitos antidepressivos imediatos da cetamina, pouco se sabe sobre os efeitos da sua administração a longo prazo.

Num outro estudo, realizado em 24 pacientes com depressão resistente ao tratamento (DRT), ao longo de 83 dias, foi possível constatar uma melhoria sustentada dos sintomas depressivos durante mais de 2 semanas, após a administração de 6 doses repetidas do fármaco (35).

No entanto, uma revisão sistemática concluiu que os efeitos antidepressivos da cetamina são de curta duração (36).

A droga quando combinada com terapia electroconvulsiva (frequentemente utilizada no tratamento da depressão) revelou-se mais eficaz na melhoria dos sintomas depressivos do que um outro anestésico, o propofol, segundo os resultados de um estudo de 1 ano realizado em doentes internados (37).

Num outro estudo, de 4 semanas (DB-PCT), 42 pacientes com depressão receberam uma dose inicial do medicamento, seguida de uma dose de riluzol (um fármaco que aumenta os níveis de glutamato).

Cerca de um quarto desses pacientes não sofreu qualquer recaída da depressão, até ao fim do estudo. Contudo, o riluzol não foi capaz de potenciar os efeitos antidepressivos da substância (38).

Reduz a dor

A cetamina é um reconhecido anestésico geral.

Ela é capaz de reduzir a dor crónica! Um estudo realizado em 12 voluntários do sexo masculino provou que doses reduzidas da droga são capazes de ativar porções do cérebro envolvidas na inibição da dor (por exemplo, o córtex frontal e o tronco encefálico) (39).

Normalmente, os pacientes com dor crónica têm um defeito na ativação dessas porções cerebrais, o que os impede de reduzir a dor.

Num estudo de 11 semanas (DB-RCT) realizado em 60 pacientes do sexo feminino com síndrome de dor regional complexa (SDRC), um quadro clínico caracterizado por dor crónica, infundiu-se cetamina intravenosa durante 100 horas. Esta injeção permitiu aliviar a dor, durante mais de 3 meses após o tratamento (40).

Além disso, um estudo realizado em 12 pacientes com dor oncológica severa provou que os doentes necessitam de uma dose de morfina 50% inferior à normalmente utilizada para aliviar a dor, após a toma prolongada da substância (41).

Também se provou que aumenta a eficácia do tratamento com morfina intratecal (injetada na medula espinhal), segundo um estudo realizado em 20 pacientes com dor oncológica (DB-RCT) (42).

O medicamento reduziu completamente a dor do membro fantasma (dor que surge após a amputação de um membro), num homem de 31 anos com história de dor com 5 meses de evolução (43).

De igual modo, a combinação de cetamina com outros fármacos tem-se revelado eficaz na redução da dor.

Exemplo disso é a combinação de cetamina com um anestésico local (a bupivacaína).

Esta combinação mostrou eficácia na supressão da dor pós-cirúrgica, segundo as conclusões de um estudo (DB-RCT) realizado em 53 pacientes amputados, que utilizou um placebo para estabelecer a comparação (44).

A utilização como anestésico local, em associação com diazepam, meperidina e óxido nítrico (por via oral), revelou que a substância reduz a dor, o desconforto e a ansiedade, segundo um estudo realizado em 40 adultos saudáveis ​​submetidos a cirurgia oral (45).

A substância também funciona eficazmente como anestésico para gatos (46).

Promove o sono

A substância também pode ser utilizada como sedativo. A administração intravenosa em 30 crianças produziu sedação em menos de 2 minutos, em todas elas (47).

Num outro estudo, realizado em 431 crianças, optou-se por administração intramuscular. Nesse estudo, 98% dos pacientes ficaram sedados (48).

Reduz as convulsões

A cetamina reduziu a duração dos episódios convulsivos em 10 doentes, durante a realização de terapia electroconvulsiva (49).

Em ratos, a substância também se mostrou capaz de cessar as convulsões em todos os animais testados, 1 hora após a estimulação dos episódios convulsivos (50).

Noutro estudo realizado em ratos, a cetamina interrompeu a atividade convulsiva em 3 dos ratos testados, 30 minutos após a sua administração (51).

Protege o cérebro

A droga é capaz de proteger o cérebro dos danos causados pelas convulsões.

Além disso, reduziu a pressão intracraniana nociva em pacientes com lesões cerebrais traumáticas, durante a sedação com propofol, segundo as conclusões de um estudo realizado em 8 doentes do sexo masculino (52).

De igual modo, protegeu significativamente 22 das 24 regiões cerebrais de ratos sujeitos a convulsões induzidas (53).

A administração sistemática do fármaco também se revelou eficaz na prevenção da degeneração dos neurónios cerebrais de ratos, provocada por convulsões persistentes (54).

Em estudos laboratoriais, a cetamina aumentou a viabilidade das células cerebrais e preservou a forma das células sujeitas a condições adversas (por exemplo, baixos níveis de oxigénio) (55).

Reduz os sintomas do distúrbio de estresse pós-traumático (DSPT)

A substância reduziu rápida e eficazmente os sintomas do DSPT, em comparação com o midazolam, 24 horas após a sua administração.

Esta é a conclusão de um estudo (DB-RCT) realizado em 41 pacientes diagnosticados com DSPT crónico (56).

Num estudo com 603 doentes queimados, o desenvolvimento do DSPT foi mais frequente naqueles que não foram medicados com cetamina (46%) do que naqueles que tomaram o fármaco (27%) (57).

Pode melhorar os sintomas da asma

A cetamina melhorou os sintomas respiratórios de 11 pacientes com asma grave, após o fracasso da terapêutica recomendada e da respiração assistida, apenas 2 horas após a sua administração (58).

De forma semelhante, 2 pacientes com asma grave conseguiram recuperar a respiração normal, após a administração intravenosa (com um ritmo de infusão de 0,15 mg/kg/h) (59).

Ajuda no Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC)

Num estudo com a duração de 1 semana (DB-RCT), realizado em 15 adultos com TOC não medicado, os pacientes que tomaram o medicamento descreveram uma melhoria mais significativa dos sintomas obsessivos, em comparação com os doentes que foram medicados com placebo (60).

Num outro estudo realizado em 10 pacientes com TOC resistente ao tratamento, 35% dos pacientes sentiram uma melhoria da sintomatologia, apenas 3 dias após o início do tratamento com o fármaco (61).

Efeitos Colaterais

A Cetamina Pode Produzir Sentimentos De Dissociação Quando Usada Como Uma Droga De Abuso.

Habitualmente, a cetamina é conhecida por possuir uma grande variedade de efeitos colaterais, incluindo (62):

  • Alucinações
  • Desorientação ou confusão mental pós-anestésica
  • Sonolência
  • Náuseas e/ou vómitos
  • Aumento da frequência cardíaca
  • Hipertensão arterial
  • Aumento da salivação
  • Espasmos musculares
  • Exantema transitório

A substãncia também provoca apoptose de células cerebrais ou morte celular programada, segundo os resultados de alguns estudos laboratoriais (63).

As alucinações ou delírios podem ser reduzidos pela toma de fármacos benzodiazepínicos combinados com uma dose mais baixa do medicamento (10 mg) (64).

Em doses elevadas (mais de 150 mg), os doentes medicados com a substância também podem experienciar uma extrema dissociação em relação ao meio ambiente em que se encontram, fenómeno vulgarmente conhecido por “K-hole” (65).

O uso prolongado de cetamina pode também provocar danos cerebrais. Em macacos rhésus jovens, um único episódio de anestesia induzida por cetamina, durante 24 horas, foi suficiente para despoletar a morte de células cerebrais (66).

Dosagem

O composto encontra-se disponível na forma de um pó branco, podendo ser administrada por via nasal, oral, intravenosa, intramuscular ou sublingual.

A administração por profissionais de saúde é feita por via intravenosa e intramuscular. Quaisquer outras vias de administração são altamente desaconselhadas.

Dose normal

Geralmente, as doses variam de pessoa para pessoa e são baseadas na via de administração da cetamina. Por exemplo, nos adultos, uma dose baixa de cetamina é de 0,5 mg/kg para administrações intravenosas e epidurais. Se a administração for intramuscular, a dose baixa será de 2 mg/kg (67).

Para crianças, a dose varia habitualmente de 3 a 10 mg/kg, por via oral, ou de 2 a 4 mg/kg, se for usada a via intramuscular.

A substância também é eficaz quando combinada com a anestesia local, usando uma dose de 0,5 a 1 mg/kg (68).

Sobredosagem

Quando administrada de forma inadequada ou em doses muito elevadas, pode ocorrer uma sobredosagem (ou overdose). A dose exata de cetamina que resulta em overdose varia de pessoa para pessoa.

A sobredosagem do medicamento pode ocorrer de forma acidental, especialmente em crianças (69).

Quando acontece uma sobredosagem, o indivíduo pode sofrer sedação grave, náuseas, vómitos, insuficiência respiratória, coma e até mesmo a morte (70, 71, 72, 73).

A possibilidade de ocorrência de danos cerebrais permanentes, após uma overdose, é também muito elevada (74).

Embora a substância possua diversos benefícios, trata-se de um fármaco volátil e imprevisível, pelo que não deverá ser tomada sem a supervisão médica adequada.

Limitações e Advertências

Os estudos clínicos sobre os efeitos da administração de cetamina em doses elevadas são escassos (75).

Além disso, ainda existem poucos estudos confiáveis que apoiem a utilização deste fármaco em adultos com o objetivo de tratar lesões cerebrais traumáticas ou lesões oculares (76).

Existem também poucos ensaios clínicos que determinem a durabilidade, a segurança a longo prazo, a tolerância e a eficácia da cetamina (77).

Outro problema com a utilização do remédio é que os ensaios clínicos realizados contradizem-se diversas vezes.

Por exemplo, existe evidência científica que prova que a cetamina é capaz de reduzir os sintomas dos distúrbios de stresse. Mas também existem estudos que provam que poderá agravá-los (78).

Num estudo de 3 dias, realizado em 50 vítimas de trauma físico, constatou-se que a substância provoca dissociação negativa e flashbacks em doentes com transtorno de stresse agudo (79).

Em animais expostos a estímulos stressantes, a droga foi ineficaz no alívio do comportamento semelhante ao DSPT, nos 30 dias que se seguiram à exposição (80).

Também existem resultados discordantes acerca da utilização da substância para reduzir o tempo de recuperação dos pacientes submetidos a terapia electroconvulsiva (TEC) para tratar a depressão (81).

Interações Medicamentosas

A cetamina é frequentemente administrada em associação com outros fármacos que potenciam os seus efeitos e limitam os seus efeitos colaterais.

Os efeitos colaterais, como o delírio e as alucinações, são reduzidos pela toma concomitante de benzodiazepinas (82).

Os vómitos causados pela substância diminuíram quando as crianças medicadas com este fármaco o tomaram em conjunto com o midazolam, outro anestésico.

No entanto, a combinação de cetamina com midazolam também provocou uma diminuição dos níveis de oxigénio no sangue e não produziu qualquer efeito sobre a ansiedade pós-anestésica (83, 84).

A associação da substância com metohexitone (um derivado barbitúrico), diazepam (conhecido pelo nome comercial Valium®) e alcurónio (um relaxante muscular) produz uma anestesia eficaz seguida de uma recuperação tranquila e livre de alucinações negativas (85).

Quando tomada em conjunto com o halotano, outro anestésico, a substância permanece no tecido cerebral mais tempo do que quando tomada sozinha, segundo experiências realizadas em ratos (86).

A cetamina também é capaz de potenciar o efeito de outros fármacos, com especial destaque para os opióides.

Em doses muito baixas (75 a 150 mg/kg) reduz a necessidade de administrar alfentanil, um analgésico opióide, após a cirurgia (87).

Outro opióide, o tramadol, foi administrado em ratos em associação com a cetamina, tendo-se verificado um aumento do efeito analgésico (88).

A cetamina também é capaz de melhorar os efeitos da morfina no que compete ao alívio da dor pós-cirúrgica (89).

Para além disso, o efeito sedativo do medicamento mostrou-se mais eficaz, quando administrada com propofol (90).

A cetamina também pode ser administrada em associação com fármacos anticonvulsivantes. Quando combinada com o diazepam e com os anticonvulsivantes carbamazepina (também conhecida como Tegretol®) e fenitoína (Dilantin®), a cetamina foi capaz de reduzir os danos cerebrais provocados pelas convulsões, em ratos (91).

As concentrações de cetamina também podem ser afetadas por alguns antibióticos. A sua administração em conjunto com a rifampicina, um desses antibióticos, reduziu as concentrações sanguíneas de cetamina em indivíduos saudáveis ​​(92).

A substância aumenta a pressão do líquido cérebro-raquidiano (LCR), no cérebro e na medula espinhal, o que pode danificar estes órgãos. A administração de diazepam em associação com a cetamina reduz esse efeito (93).

A cetamina não deve ser tomada em conjunto com álcool. Esta associação lesou gravemente o fígado e os rins de ratos sujeitos a experiência (94, 95).

A associação de cetamina com outras drogas de abuso, como o MDMA (ecstasy), o LSD, o GHB e o flunitrazepam (Rohypnol®), é bastante frequente.

No entanto, estas combinações podem ter efeitos nefastos. É o exemplo de um consumidor deste tipo de drogas que descreveu sentir-se “desconfortável” e “agitado”, quando toma cetamina em conjunto com LSD.

No entanto, a toma isolada de cetamina geralmente não lhe provoca qualquer problema (96, 97).

Em ratos, a associação de cetamina e MDMA (ecstasy) aumentou o número de substâncias tóxicas presentes no cérebro, produzidas a partir da dopamina.

Essas substâncias inibem a respiração celular, isto é, o conjunto de processos metabólicos que produzem a energia necessária para o organismo funcionar (98, 99).

A cocaína aumentou o sono induzido pela toma de cetamina e a perda do controlo motor, em ratos (100).

Quando administrada por profissionais de saúde, a associação de Rohypnol® com cetamina produz vários efeitos benéficos.

Num estudo realizado em mulheres submetidas a um aborto, uma combinação cetamina + Rohypnol® mostrou-se capaz de reduzir a inquietação e a confusão pós-cirúrgicas. Os sonhos também foram menos frequentes (101).

Embora se pense que a cetamina seja causadora de graves problemas relacionados com a adrenalina, quando combinada com inibidores da monoamina oxidase (MAO), um estudo de caso provou que a cetamina associada a tranilcipromina não produziu qualquer efeito negativo numa mulher de 42 anos.

A tranilcipromina é um desses inibidores da monoamina oxidase (MAO) (102).

No entanto, trata-se de um único caso. Por essa razão, mais investigações deverão ser conduzidas para suportar as conclusões anteriores.

A cetamina também pode ser tomada em combinação com medicamentos para dormir, os chamados hipnóticos. Algumas pessoas têm relatado, de forma anedótica, que essa associação aumenta a sonolência.

No entanto, um estudo (DB-RCT) realizado em 73 doentes com depressão major resistente ao tratamento não constatou qualquer efeito adverso da toma de zolpidem, um desses hipnóticos, antes da cetamina (103).

Curiosamente, as concentrações de cetamina no sangue aumentam quando se toma o fármaco com suco de toranja. Por isso, deverá ponderar-se reduzir a dose, quando tomada com esta fruta (104).

Experiências dos Consumidores

Um consumidor afirmou que inalar (ou “snifar”) cetamina não provoca qualquer efeito colateral nocivo. No início, produz-se uma sensação de “descorporificação” que evolui para uma retração do medo de morrer.

Outros consumidores sofreram dificuldades na marcha, perda de memória e sensação de peso, após tomarem o fármaco.

Alguns consumidores descreveram alucinações extremas, depois de consumirem grandes doses de cetamina. Estas alucinações são conhecidas por “k-hole”.

Um psiquiatra que utilizou a substância para tratar cerca de 100 doentes com depressão e ansiedade descobriu que mais de 2/3 dos pacientes melhoraram a sua sintomatologia.

Apenas um paciente se mostrou verdadeiramente preocupado com os efeitos colaterais dissociativos que a cetamina provoca.

Outro doente que usou cetamina para tratar a depressão afirmou que os seus efeitos antidepressivos são suficientemente fortes e eficazes.

Contudo, no dia seguinte, sentiu-se extremamente mal pois deixou de utilizar opiáceos recentemente e a administração de cetamina agravou os sintomas de privação que sentia.

No entanto, ao quarto dia de utilização da cetamina, os sintomas de privação começaram a tornar-se menos intensos.

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