Doenças Lisosomais de Sobrecarga DLS - Confusões no diagnóstico - Fotos Antes e Depois
Fotos Antes e Depois

Doenças Lisosomais de Sobrecarga DLS – Confusões no diagnóstico

Atualizado em 1 dezembro, 2016

As manifestações das doenças lisosomais de sobrecarga (DLS) são frequentemente confundidas com outras patologias. A Associação Portuguesa das Doenças do Lisosoma (APL) tem como objectivo combater essa falta de informação e melhorar a qualidade vida dos doentes.

A complexidade e falta de conhecimento sobre as doenças lisosomais de sobrecarga (DLS) leva-nos a recorrer às palavras da investigadora e directora da Unidade de Biologia do Lisosoma e Peroxissoma no Instituto de Biologia Molecular e Celular da Universidade do Porto, Maria Clara Sá Miranda, para descrever esta patologia. “As Doenças Lisosomais de Sobrecarga (DLS) são um grupo de patologias metabólicas genéticas resultantes da interrupção de uma das vias catabólicas (que têm como função degradar e reciclar macromoléculas) que ocorrem nos lisosomas.

Os lisosomas são organelos celulares que, através da acção das diferentes enzimas presentes no lúmen, decompõem macromoléculas, como proteínas, hidratos de carbono, lípidos e ácidos nucleicos, em compostos de menores dimensões, os quais podem ser eliminados da célula ou reutilizados na síntese de novos compostos. A interrupção de uma dessas vias catabólicas provoca a acumulação das substâncias não degradadas dentro da célula, originando a sua disfunção e consequentes alterações nos diferentes tecidos e órgãos. As DLS afectam diferentes órgãos ou sistemas, incluindo o esqueleto, articulações, olhos, audição, coração, pulmões, rins, pele e, frequentemente, o sistema nervoso central (SNC).

As patologias mais graves são as que apresentam envolvimento do SNC”. É esta complexidade que conduz muitas vezes a um diagnóstico errado, como adianta Francisco Beirão, presidente da Associação Portuguesa das Doenças do Lisosoma (APL). “O conhecimento dos profissionais de saúde no que concerne às DLS ainda é um pouco incipiente. Por exemplo, é frequente os doentes de Fabry serem tratados como se sofressem de lúpus, artrite reumatóide ou esclerose múltipla.
As manifestações das DLS ainda costumam ser muito confundidas com as de outras patologias”, refere.

Combater a falta de informação

Uma das missões da APL é melhorar a qualidade de vida dos doentes e seus familiares. Dar mais informação à sociedade e aos profissionais de saúde também integra a lista de tarefas da associação. Este é um ponto fundamental para que seja possível realizar, com cada vez maior frequência, um diagnóstico precoce. Para o efeito, a APL organiza com frequência acções de formação para médicos que visam informá-los sobre estas patologias, onde há ainda um grande trabalho a desenvolver para melhorar a qualidade de vida dos doentes.

“É necessário agilizar os processos de aprovação de determinados fármacos, cuja eficácia e impacto na qualidade de vida dos doentes já foram comprovados. Esta demora tem, regra geral, profundas consequências na reabilitação do doente”, afirma Francisco Beirão.

O especialista continua: “Por outro lado, também é importante sensibilizar as entidades governamentais das mais diversas áreas – educação, trabalho e segurança social – para as DLS e para a necessidade de se criarem estruturas de apoio (ensino e laboral) de forma a que quem sofre de DLS possa usufruir de maior qualidade de vida”.

A APL

A associação, constituída em 1996, conta actualmente com 180 associados. O seu presidente, Francisco Beirão, explica à SM que “a APL apoia os associados através da disponibilização de informação actualizada sobre novas terapias e legislação correspondente. A prestação de apoio jurídico na obtenção de todas as regalias legais a que têm direito os doentes para a melhoria da sua qualidade de vida representa outra importante área de actuação”. O mesmo responsável sublinhou ainda que “a APL tem também um papel bastante interventivo na formação de profissionais de saúde nesta área de conhecimento e no incentivo à investigação para desenvolvimento de novas terapêuticas específicas”.

A falta de apoios financeiros é a maior dificuldade que a associação enfrenta, mas na patologia em si há igualmente barreiras a ultrapassar. “As maiores dificuldades que doentes e familiares enfrentam estão relacionadas com o atraso na detecção da patologia, com o tempo médio de espera entre o diagnóstico e início do tratamento e ainda com alguns obstáculos que subsistem na entrada de novas terapêuticas”, refere o presidente da APL.

Diagnóstico e terapêutica

Como na grande maioria das situações, quanto mais cedo for diagnosticado o problema, melhor será o tratamento. As DLS não são excepção. A detecção precoce pode acontecer através “de um screening a toda a família”, como explica Francisco Beirão, que continua: “Esta é a melhor forma de identificar doentes e iniciar o tratamento o mais cedo possível, retardando, dessa forma, a progressão da patologia e prevenindo eventuais complicações ou lesões irreversíveis”.

A especialista Maria Clara Sá Miranda afirma que “actualmente existe a possibilidade de efectuar o diagnóstico bioquímico e genético em diferentes fases: antes do nascimento (diagnóstico pré-natal); nos primeiros dias de vida (diagnóstico neo-natal) ou precoce”. Uma vez detectada a patologia, o tempo é de terapia, ainda que, como explica a investigadora e directora da Unidade de Biologia do Lisosoma e Peroxissoma no Instituto de Biologia Molecular e Celular da Universidade do Porto, “não exista, actualmente, nenhum tratamento eficaz para a grande maioria das DLS”.

No entanto, há progressos contínuos nesta área. São avanços feitos “não só para os sintomas múltiplos das patologias, como também para as causas subjacentes”. As opções de tratamento hoje em dia centram-se então no transplante de medula óssea e na terapêutica enzimática. Maria Clara Sá Miranda destaca que “entre as 27 DLS, apenas seis têm tratamento específico (doença de gaucher, doença de fabry, doença de hurler, doença de pompe, doença maroteaux lamy e doença de hunter) ”.

Em Portugal, há profissionais que se dedicam à investigação sobre estas patologias.

A unidade de biologia

Desenvolvimento de actividades no diagnóstico e investigação das DLS é o trabalho que a Unidade de Biologia do Lisosoma e Peroxissoma no Instituto de Bio logia Molecular e Celular da Universidade do Porto leva a cabo. Maria Clara Sá Miranda dirige esta unidade onde, como pormenoriza, “implementamos tecnologia para o diagnóstico bioquímico e genético das DLS mais frequentes, a partir de amostras de sangue seco colhidas em papel de filtro”.

Estes métodos foram aplicados num estudo piloto de rastreio de seis DLS, com terapia, em recém-nascidos. É igualmente usado para despiste sistemático da Doença de Fabry em doentes em hemodiálise, doentes com alterações cardíacas e acidentes vasculares cerebrais. Este projecto empreendido pela unidade vai permitir “contribuir para o conhecimento da epidemiologia genética destas patologias”, refere a responsável. O trabalho na unidade continua no estudo das alterações do sistema imune da Doença de Gaucher e Fabry e as alterações do sistema nervoso central e periférico na Doença de Fabry.

Recentemente, a unidade deu início a mais um projecto que visa “investigar a função da LIMP2 na biogénese do lisosoma”, refere Maria Clara Sá Miranda, concluindo: “Aumentar o conhecimento dos mecanismos subjacentes a estas patologias é fundamental para o desenvolvimento de novas terapias”.

DLS EM NÚMEROS

• Crescimento de 10 a 20 por cento do número de indivíduos diagnosticados com DLS;
• Em Portugal existem 27 DLS identificadas, de um grupo de 50;
• Existem no País 400 doentes;
• A esperança média de vida ronda os 10 a 20 anos;
• As DLS afectam um em cada quatro recém-nascidos de ambos os sexos;
• Das 50 DLS, 47 são herdadas por cromossomas não-sexuais, pares de um a 22;

As Doenças Lisosomais de Sobrecarga Mais frequentes em Portugal

Doença de Fabry

Patologia hereditária causada por um gene deficiente do organismo.  Saiba mais aqui (Doença de Fabry)

Doença de Gaucher

Resulta de uma mutação no gene GBA, localizado no cromossoma 1, cuja função é processar o substrato glucocerebrosido. Saiba mais sobre esta doença no artigo (Doença de Gaucher)

Doença de Tay-Sachs

Esta Advém de uma actividade deficiente da enzima lisosomal hexosaminidade A. Saiba mais no artigo ( Doença de Tay Sachs

OPINIÃO

Maria Clara Sá Miranda, enquanto investigadora, pensa que o financiamento e o interesse das autoridades competentes é o adequado face à gravidade da patologia?
Em Portugal, nesta área tal como em muitas outras, a meu ver os maiores problemas são ao nível da implementação das reformas. Assim, na área das doenças metabólicas tem-se assistido à “destruição” de unidades de diagnóstico e de investigação reconhecidas a nível nacional e internacional, sem nenhum critério técnico ou cientifico credíveis. Em Novembro de 2008 foi aprovado o Plano Nacional para as Doenças Raras, semelhante ao plano aprovado em França, e em Abril de 2009 foi criada a Comissão de Coordenação do Programa Nacional para as Doenças Raras, assim esperam-se novas medidas neste domínio.

Atualizado em 01 dezembro 2016

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