Freixo de Numão, Vila Nova de Foz Côa
Fotos Antes e Depois

Freixo de Numão

Atualizado em 13 Janeiro, 2018

Diz-se em Freixo de Numão que “as coisas nos seus lugares, às escuras se encontram”. Fernando Marques, porém, adverte que, caso se queira penetrar a fundo no espírito do lugar, convém ir avisado de que é fácil perder tempo com coisas sem importância. É preciso ir tacteando os solares e as casas afidalgadas, descortinar os pelourinhos e os fontenários, perseguir o grave silêncio das capelas e igrejas. E, sobretudo, é preciso sonhar. Com cuidado.

A estrada que nos entrega a Freixo de Numão não tem buracos, não tem margens definidas, não tem sinalização que se veja no asfalto, não tem falta de espaço (bem pelo contrário, é largueirona, quase derramada); não tem, em boa verdade, a mínima importância. E é isso que nos faz torcer o nariz: essa natureza absolutamente inestética e plebeia. Para quem chega do Porto ou de Lisboa, cansado dos entediantes IP que rasgam a montanha a 90 quilómetros por hora, é um desconsolo. Um casario assim antigo, e um topónimo tão exótico, sugeriam um acesso mais digno da sua história: um caminho romano, talvez, ou um arruamento medievo; mas se tivesse que ser moderno, ao menos que fosse discreto e elegante, para não destoar muito do espírito e da memória do lugar.

Podem ser os olhos a mentir, é claro: se os desviarmos daquele chão de asfalto, se por acaso lhes dermos rédea solta, eles vão encontrar horizontes suavemente ondulados em redor. Descobrirão um pasto, um bosque, uma árvore sempiterna. E se os fecharmos, se por acaso lhes ocultarmos a vista, chegam-nos também mugidos, chilreios, balidos. Bem se diz em Freixo: “As coisas nos seus lugares, às escuras se encontram”. Deste modo, dando-se os olhos e os ouvidos mais à terra duriense que nos rodeia e menos aos desacertos do homem, enfrenta-se com alguma esperança o pouco que falta para alcançar a aldeia.

Mas não é um chegar como a Monsanto, por exemplo, onde é só largar o carro e cumprir o doce sacrifício de levar as pernas obedientes aos olhos. Em Freixo de Numão, fora do núcleo primitivo, o planalto deu largueza às vistas e espaço às ruas; e o bom gosto nem sempre acompanhou as boas intenções. É preciso ir tacteando os solares e as casas afidalgadas, descortinar os pelourinhos e os fontenários, perseguir o grave silêncio das capelas e igrejas, por vezes milenares, vencer colinas suaves ou montes agrestes até uma “villa” romana ou um achado neolítico ou calcolítico.

E então, sim, a aldeia ganha forma. Percebe-se como o povoado cresceu à volta de um pelourinho, que tomou o lugar do velho freixo que ali existia quando, no século XVI, os de Numão desceram do castelo, então já em declínio, atraídos por temperaturas mais propícias às actividades agrícolas e sociais. O pelourinho ostenta um escudo de D. Maria I sobre o capitel e personaliza uma praça dominada pela velhíssima igreja matriz, um templo de origem românica gravemente danificado pelo terramoto de 1755 e depois remodelado, e pelo edifício barroco da antiga Domus Municipalis, que mereceu as armas de D. João V. Percebe-se o carácter religioso das suas gentes no Cabo do Lugar (onde a capela seiscentista de Nossa Senhora da Conceição continua a louvar a padroeira de Portugal) e no alto da Rua das Lajes (onde se ergue, rústica e solene, a Capela de Santa Bárbara). Percebe-se que foi terra frequentada por nobres e fidalgos, ao perderem-se os olhos na opulência de um solar barroco, brasonado, agora reconvertido em museu arqueológico e etnográfio. E percebe-se, enfim, saindo do núcleo urbano e guiando o carro por caminhos de pedra estreitos e surpreendentes (sobretudo se aparecer outro automóvel em sentido contrário…), que o homem se afeiçoou àqueles lugares há pelo menos sete mil anos.

A Associação Cultural, Desportiva e Recreativa (ACDR) de Freixo de Numão, que administra o museu e toda a actividade cultural e de lazer existente na aldeia, criou um circuito turístico-arqueológico que facilita a vida ao visitante. Pode começar-se por ir ao Prazo admirar vestígios do período Neolítico e as ruínas romanas e medievais e depois seguir em frente até Rumansil, onde se encontra escavada uma “villa” rústica romana do século III da era cristã, que só pode ser visitada a pé (o regresso é que custa, sempre a subir). Ou então, no mesmo eixo, mas em sentido inverso, ir primeiro ao povoado do Castelo Velho (Calcolítico e Idade do Bronze) e depois, antes do Prazo e de Rumansil, visitar uma calçada romana no Lugar das Regadas ou os sítios arqueológicos de Colodreira/Escorna Bois e de Zimbro (onde existe uma “villa” rústica semelhante à de Rumansil).

Dois dias são escassos para ver tudo, até porque, estando-se no concelho de Vila Nova de Foz Côa e com o rio Douro por ali a voltear, é difícil resistir à tentação de dar um salto às gravuras paleolíticas. E se não se for já com alguma orientação, pode perder-se muito tempo com coisas sem importância. Mas quem preferir ir às cegas, que vá ao menos com uma história na cabeça, uma das muitas histórias e lendas que os activistas da ACDR salvaram da memória dos habitantes mais antigos de Freixo, reunindo-as num belo livro: “Do Imaginário ao Real no Freixo de Antanho”. Conta-se que no chão da Santa, em Freixo de Numão, estão escondidas, lado a lado, duas talhas – uma cheia de ouro, outra cheia de alcatrão. Alguém que queira saber ao certo onde elas se encontram terá que sonhar com as duas três dias seguidos e abster-se de trabalhar durante esse período. Mas, chegado a este ponto, sobra sempre uma perplexidade: qual das duas talhas contém o ouro? E ninguém arrisca: é que, segundo a lenda, se se mexer na talha do ouro, fica-se rico; mas, se for na de alcatrão, incendeia-se tudo…

O Museu da Casa Grande

O solar da Casa Grande, do barroco setecentista, é um dos mais belos edifícios de Freixo de Numão. Pertenceu noutros tempos aos condes da Azenha, mas está agora entregue aos preciosos cuidados da Associação Cultural, Desportiva e Recreativa (ACDR) da aldeia, que o transformou num museu arqueológico e etnográfico. Toda a riqueza histórica e pré-histórica encontrada nos sítios arqueológicos da freguesia (Prazo, Castelo Velho, Rumansil, Regadas, Zimbro e Colodreira/Escorna Bois) e uma boa parte da memória etno-social dos freixienses está representada nos seus dois andares.

O museu – que em breve perderá a vertente etnográfica, a trasladar para um edifício próprio talvez ainda este ano, de modo a poder dedicar-se exclusivamente à arqueologia – foi inaugurado por Marques Mendes em Julho de 1996, depois de ter sido sujeito a obras de restauro e recuperação. É desde então dirigido pelo arqueólogo António Sá Coixão, que também preside à ACDR e é responsável pelo projecto de transformação do sítio arqueológico do Prazo num complexo turístico a abrir até à próxima Primavera.

Paulo Monteiro, técnico de património cultural e membro da Direcção da ACDR, reconhece que Freixo de Numão “lucrou indirectamente” com o achado paleolítico de Vila Nova de Foz Côa, pois a aldeia passou a ser visitada pela enxurrada de excursões que se fazem às gravuras. A associação aproveitou então para organizar também deslocações de estudantes aos seus tesouros pré-históricos, conseguindo alojar numa camarata, em beliches, 60 jovens de cada vez. A abertura do Prazo ao turismo de massas vai, no entanto, obrigar a aumentar a oferta de camas, pois, além dos beliches e de uma ou outra casa particular, só se dorme na Residencial Caeiro.

Segundo António Sá Coixão, o museu está agora a ser preparado para receber, até Julho, uma nova fornada de relíquias arqueológicas (peças de cerâmica e metais), que estão a ser reabilitadas por técnicos do Gabinete de Restauro de Vila do Conde. Quando estas peças estiverem expostas, o Museu da Casa Grande passará a ser referência obrigatória no circuito museológico português. Pelo menos é nisso que acredita Sá Coixão: “Pelas críticas, em termos de variedade, é, sem dúvida, um dos mais bem apetrechados”.

Atualizado em 13 Janeiro 2018

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