Josefa de Óbidos - Fotos Antes e Depois
Fotos Antes e Depois

Josefa de Óbidos

Atualizado em 13 Janeiro, 2018

Josefa de Óbidos, filha de pai português e de mãe espanhola, nasceu em terras andaluzas, na época em que o mesmo Filipe reinava na Espanha e em Portugal, dez anos antes da restauração de 1640, do regresso à independência.

Fez uma viagem de Sevilha a Óbidos, ainda menina, e a partir daí nunca se deslocou mais longe do que Coimbra ou Buçaco. Dizem que morreu emancipada mas donzela, doente mas lúcida, aos 54 anos de idade. Ao longo da vida não parece ter feito outra coisa senão pintar telas e tábuas, gravar cobres e, talvez, modelar barro, apaixonadamente, cheia de fé. As suas primeiras obras (conhecidas) são as gravuras de Santa Catarina e de S. José, trabalhadas a buril, aos 16 anos, quando tudo indicava que usaria o hábito de freira.

Baltazar Gomes Figueira, natural de Óbidos, foi para Sevilha por volta de 1626, pensava seguir a carreira militar, afinal, acabaria por fazer um estágio para pintores, obter um diploma e casar com uma nobre andaluza de nome Catarina de Ayala Camacho Cabrera Romero, que deveria ser muito jovem. E nasceu Josefa na Paróquia de São Vicente, em Fevereiro de 1630, desconhece-se o dia, mas sabe-se que ali foi baptizada a 20 do mesmo mês. O padrinho chama-se Francisco Herrera, el Viejo, um pintor célebre pelo seu barroquismo «vaporoso e solto». O regresso a Portugal de Baltazar e D. Catarina, ocorrido no ano de 1634, deveu-se menos à sua acção conspirativa a favor dos Braganças (de quem foi, todavia, um fervoroso adepto), e sim a questões judiciais que o haviam transformado «pessoa non grata» na capital Andaluza.

Josefa d’Ayala e Cabrera terá vindo com os pais e a irmã Luísa (mais nova dois anos), primeiro para Peniche e de seguida para Óbidos, ou terá ficado em Sevilha, longe do fervilhar da revolta, até ao ano de aclamação de João de Bragança, com o padrinho e o avô materno Juan Ortiz Ayala, tomando os primeiros contactos com a arte… Tenha sido em 1634 ou seis anos depois, a menina veio morar com a família na terra natal do pai, um pintor que ganhava bem para esta época de fome e guerra, respondendo, na maioria, a encomendas da Igreja, e deixando atrás de si uma obra de efeitos sombrios com violentos contrastes de luz, influenciada pelo Tenebrismo e por Francisco de Zurbarán, em cuja pintura, através de seu pai, Josefa se terá inspirado. Também ela dará vida a naturezas mortas (as melhoras pertencem à série «Meses»), distinguindo-se neste género, tal como Baltazar Gomes Figueira, o único pintor português exposto no Museu do Louvre, em Paris.

Josefa de Óbidos - (1630 - 1684) “Santa engrinaldada de flôres” - óleo sobre cobre - A.240,2 mm x L.180,8 mm

Josefa gostava de assinar as suas obras escrevendo a seguir ao nome o local onde se encontrava. Os painéis que pintou, desde 1668 até ao ano da sua morte, para a aldeia medieval cercada por longas muralhas, sua terra de adopção, assinou-os Josepha d’Ayala em Óbidos, e esta é a razão pela qual a pintora do século XVII, a quem os portugueses consideram portuguesa e os espanhóis luso-espanhola, começou a ser conhecida por Josefa de Óbidos. O talento nasceu com ela; combinou os ensinamentos do pai com a espontaneidade de quem pratica a arte sem sentir influências. As suas pinturas enquadram-se no movimento barroco, também ela valoriza a imagem e se dedica à arte religiosa, criando pinturas e gravuras que nos levam a imaginar uma personalidade feminina, gentil, de grande sensibilidade.

A gravura de Santa Catarina está assinada «em Coimbra», portanto, aos 16 anos, Josefa encontra-se no Convento Agostinho de Sant’Ana, onde se calcula que tenha vivido, na qualidade de «donzela emancipada», aprendendo pintura e pensando nos votos, e dali saído em 1653 sem registo sobre a razão do retorno a casa dos pais. Aqui permanecerá quase sempre, beneficiando daquela «corte de aldeia», onde se sucediam os debates de ideias e as tertúlias literárias e artísticas. Não seguiu a vocação religiosa porque, se calhar, não era a sua vocação, ou os pais decidiram o contrário, ou a paixão por alguém até hoje desconhecido a levou a abandonar a ideia do hábito e, mais tarde, por eventualmente esse amor ter morrido, levá-la a nunca se casar e a pintar mais de cem obras, algumas evocando casamentos, sempre místicos.

Catarina de Alexandria foi uma das santas de devoção da pintora educada segundo a religião católica, devota e casta até à morte. A sua primeira gravura é dedicada àquela mulher que, diz a lenda, desafiou o Imperador Maximiano, criticando os deuses e, por isso, foi descarnada viva numa roda de lâminas. Talvez o facto de a mãe se chamar Catarina tenha contribuído para a insistência no tema e há mesmo quem sustente que a face da santa é inspirada no rosto materno. Terá Josefa dado a sua própria cara a outras figuras? Devoção pessoal ou encomenda levou Josefa a pintar, em tela, para Santa Maria de Óbidos, mais passos da Virgem e Mártir do Sinai, assinando e datando o casamento místico da Santa de 1661, ou pondo-a em discussão com os filósofos, ou glorificando-a nos seus martírios.

De outras influências que a mãe possa ter tido na personalidade e na obra de Josefa d’Ayala pouco se sabe, aliás, quase nada se sabe sobre a mulher de Baltazar, a não ser que teve sete filhos, três dos quais morreram antes da idade adulta. E que a pintora com ela viveu até ao dia 22 de Julho de 1684, mais duas sobrinhas, órfãs (tomou conta delas quando ainda eram crianças); sustentando a casa desde a morte do pai em 1674, vendendo quadros e gravuras – o seu trabalho é apreciado desde que fez a gravura «Sabedoria» para ilustrar os novos estatutos da Universidade de Coimbra. Tinha 23 anos, foi um trabalho realizado no ano em que abandonou a vida religiosa, a convite, provavelmente, de Baltazar Figueira a quem foi encomendada (e muito bem paga) a portada do documento.

Josepha d’Ayala Cabreira, como assinaria o testamento, deixou a sua herança à mãe e às sobrinhas, uma soma de 988.980 réis em bens de raiz e móveis. A pintora, que escolhera uma vida pouco comum para uma mulher, não tinha mãos a medir, e foi investindo os ganhos na compra de terrenos em Óbidos e na aquisição do foro da Espinheira, na serra do Bouro, perto das Caldas da Rainha, uma atitude que denota algum desafogo. A filha de Baltazar respondia a quase todas as solicitações, chegando a fazer retratos, entre os quais é exemplo maior o «Retrato do Beneficiado Faustino das Neves». Devia ser pessoa de hábitos solitários e de sincera alma mística, com uma existência pautada por certa banalidade bucólica de usos e costumes – lembremos que designava as suas vacas do Casal da Capeleira por carinhosos epítetos: a Galante, a Cereja, a Formosa…

Atualizado em 13 Janeiro 2018

One Comment

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  1. gostava de saber qual a origem da ginginha de obidos, se tem ha ver com a Josefa de obidos pela terras que adequriu em obidos.

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