Katmandu – Capital do Nepal

Katmandu – O Misticismo Oriental

Durante a década de 60 foi um dos locais de peregrinação obrigatória para o movimento hippie, que encontrou na sua excentricidade um verdadeiro paraíso terreno. Os tempos mudaram. A capital do Nepal, Katmandu, tornou-se mais turística e cosmopolita. Mas, apesar dos ditames dos tempos modernos, continua a deixar sem fôlego os privilegiados que um dia a conhecem. É que todo o misticismo dos seus templos, a diversidade dos seus grupos étnicos e exotismo da sua cultura permanecem intemporais.

Katmandu, a princesa dos Himalaias

Katmandu é uma cidade mítica e mística, que, preservada do mundo pelas neves eternas dos Himalaias, consegue manter-se tão genuína como quando foi fundada pelo rei Gun Kamdev em 723 depois de Cristo.

A apaixonante capital do reino do Nepal

Kathmandu, a capital do reino hindu do Nepal, é uma cidade apaixonante. Situada num vale encantado que é um verdadeiro museu ao ar livre, a cidade goza de um dos mais belos enquadramentos do planeta. As montanhas marcam presença a toda a volta. Num primeiro plano são pequenos montes, alguns dos quais desempenham um papel muito além de um mero obstáculo geográfico, guardando templos afectos a esta ou àquela religião. Atrás destas defesas do vale está o tecto do mundo, os quase inexpugnáveis Himalaias, que protegem Kathmandu como se esta fosse a misteriosa Shangri-La.

A busca por Shangri-La originou dezenas de expedições nos últimos séculos, todas sem sucesso. Ao contrário, a busca inglória por Katmandu acabou quando, em 1730, uma missão de padres Capuchinhos foi autorizada por um rei da dinastia Malla a entrar no vale. Os seus relatos impulsionaram a visita dos habituais aventureiros, militares, comerciantes e oportunistas. Todos ficaram maravilhados pela beleza da cidade, pela opulência dos seus templos e palácios, pela hospitalidade dos seus habitantes. A Kathmandu moderna conseguiu manter as características que enfeitiçaram os seus primeiros visitantes ocidentais há mais de dois séculos.

“Where have all the flowers gone?”

A entrada de Katmandu para os olhos do mundo deu-se na década de 60, quando a cidade foi invadida por cabeludos com flores no cabelo. A geração hippie, que não se revia nos ideais materialistas das sociedades ocidentais, encontrou na princesa dos Himalaias a sua meca, uma cidade tão esotérica quanto a vida que levavam. Para estes homens e mulheres sem pátria, a capital do Nepal era um retiro espiritual, uma espécie de porta de entrada para o Nirvana, esse estado transcendente no qual as pessoas abandonam toda a existência humana para entrarem numa nova realidade, mais psíquica que física. Kathmandu era uma cidade tolerante, sem preconceitos, na qual os comportamentos marginais dos hippies eram desculpados, desde o amor-livre ao consumo de substâncias ilegais, mais ou menos duras.

Entusiasmados por esta versão moderna e mais sociológica do laissez faire, laissez passer, os hippies foram chegando a Kathmandu aos milhares. Vinham com barbas e cabelos longos ou totalmente rapados, exageradamente vestidos ou quase nus, envergando vestes de um açafrão budista ou de um branco hindu, sub ou sobrenutridos. Todos diferentes por fora, mas todos iguais na forma de estar na vida. À medida que a tolerância foi acabando, também eles foram partindo para outras paragens, deixando para trás a sua freak street. Muitos foram “convidados a sair”, sem sequer lhes agradecerem a enorme, ainda que não intencional, publicidade que deram à cidade. Como diria Joan Baez: “Where have all the flowers gone?”

A monumental Kathmandu

Foi em parte graças à notoriedade dada pelos hippies que nas últimas duas décadas um novo género de estrangeiros começou a chegar à cidade. Os trippies, como são conhecidos estes viajantes de mochila às costas e baixo orçamento, vêm a Kathmandu atrás das memórias dos seus predecessores, mas também da vertente cultural da cidade.

Com quatro monumentos classificados com o título de “Património da Humanidade”, Kathmandu é uma das mais deslumbrantes cidades do mundo. O mais importante é a Praça Durbar, na qual está situado, entre mais de 50 templos e monumentos, o antigo palácio da família real nepalesa. Todo o complexo está sob a protecção divina de Hanuman, o deus macaco dos hindus. É também nesta praça mágica que fica a casa da Kumari, a deusa-viva.

A Kumari é tida como a encarnação de Parvati, a esposa de Shiva, o que a faz ser adorada por todos os hindus. A Kumari é sempre escolhida entre as jovens Sakya, um clã de ferreiros e ourives, de 4 ou 5 anos. O processo de escolha é longo e penoso. Os requisitos da Kumari são muito exigentes. A deusa tem de ter um corpo imaculado e que respeite 32 sinais distintos. Depois desta selecção, as pretendentes são expostas a inumanas provas destinadas a provar a sua coragem.

De uma forma incompreensível para a nossa cultura, as raparigas são atacadas por homens mascarados de demónios e têm de suportar a escuridão rodeadas de cabeças de búfalo em sangue. Passada esta fase, a pretendente a deusa tem de identificar as roupas da sua predecessora, só depois sendo identificada como a Kumari, lugar que ocupa até atingir a puberdade ou até verter uma gota que seja de sangue numa qualquer ferida.
Este título é uma bênção, mas também uma maldição para a rapariga escolhida. Após o seu reinado, a rapariga parte com um generoso dote, mas a tradição diz que as ex-kumaris dão má sorte a uma casa e provocam a morte precoce dos maridos, o que faz com que elas muitas vezes acabem solteiras.

A Praça Durbar, para a qual o palácio da Kumari espreita, é o centro da antiga Kathmandu. A cidade velha é um labirinto de ruas e becos, onde a cada esquina se abre um mercado de rua ou uma praça onde a comunidade seca os cereais colhidos nos campos do vale. A cada passo tropeçamos em templos budistas e hindus, erguidos lado a lado, num exemplo de pacífica convivência religiosa que é rara nestas paragens.

As duas religiões só competem na magnificência dos seus templos. Neste ponto são os budistas que possuem na cidade dois templos classificados como “Património da Humanidade”, contra apenas um hindu. Os dois templos consagrados a Buddha, que foram agraciados pela UNESCO, são as stupas de Bodhnath e de Swayambhunath. As stupas são templos que representam a filosofia pregada pelo príncipe Gautama Buddha. A sua forma de abóbada branca simboliza os quatro elementos – água, terra, ar e fogo -, acima dos quais estão representados por anéis dourados os 13 níveis da sabedoria necessários para atingir o Nirvana. Também este sublime estado espiritual está representado pela estrutura que cobre os anéis. Nos quatro lados do templo, olhando para todo o vale, estão os “olhos que tudo vêem” de Buddha.

Swayambhunath fica situada numa colina sobranceira a Kathmandu, dominando a cidade como o Partenon domina Atenas. Bodhnath não é a mais elevada, mas orgulha-se de ser a maior de todo o Nepal. Mas também os hindus têm na cidade um templo de que se orgulham. É Pashupatinath, o mais impressionante santuário de Shiva em todo o vale. Shiva é um deus de múltiplas facetas. Ele representa ao mesmo tempo o bem e o mal, a criação e a destruição.

Pashupatinath é fiel ao seu Senhor. Simultaneamente puro e mórbido, o santuário é um local de vida e de morte. De vida pelo rio sagrado que o atravessa, o Bagmati, tributário do Ganges, e onde diariamente milhares de hindus tomam o banho purificador; de morte pelas piras onde ardem os cadáveres dos fiéis que acreditam assim ter facilitada a sua entrada no Paraíso.

No templo não é permitida a entrada de não-hindus, que têm de se contentar com a vista do outro lado do estreito curso de água. Aqui, na área profana do templo, existem dezenas de vendilhões e vários sadhus, os subnutridos mendigos hindus, que exibem os seus corpos escanzelados para as objectivas dos turistas, exigindo depois o seu “cachet” artístico. Estes sadhus fazem parte do folclore de Kathmandu, como em tempos idos os hippies fizeram. Partilham esse atributo com os milhares de turistas, com os emigrantes tibetanos, com as vacas que passeiam livremente pelas ruas, com as parelhas de monges budistas. São os vários rostos de uma cidade fascinante, onde se cruzam, de uma forma tão contrastada como a dualidade de Shiva, as visões do futuro e os mistérios do passado. Kathmandu é, talvez devido a esse confronto entre antigo e moderno, uma cidade única no mundo, que é crime não conhecer.

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Última atualização da página em 13/01/18 por:

Dra. Alice Wegmann (Clínica Geral)

Licenciada em Medicina Geral e uma apaixonada por Medicina Alternativa, Aromaterapia e Fitoterapia.

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