Microalbuminúria

Quando se aborda o tema da prevenção das doenças cardiovasculares é quase obrigatório referir uma longa lista de factores de risco onde, curiosamente, poucas vezes consta a microalbuminúria. No entanto, desde o Estudo PREVEND (Prevention of Renal and Vascular Endstage Disease – 2002) ficou bem demonstrado que a microalbuminúria é um forte preditor da mortalidade cardiovascular, independente de outros factores de risco. Também dados recentes do estudo de Framingham confirmam que este aumento de risco se estende a normotensos sem diabetes e com função renal normal. Correntemente, considera-se como albuminúria a presença de entre 30 a 300 mg de albumina na urina das 24 horas. É relativamente frequente (7, 2 a 7, 8 por cento) na população em geral, sendo mais prevalente nos diabéticos (16 a 29 por cento).

“A pesquisa da microalbuminúria é uma análise clínica fácil e barata” que pode dar “ao médico maior segurança na prescrição e prognóstico dos seus doentes”.

Os mecanismos patofisiológicos que originam o seu aparecimento não estão completamente esclarecidos, mas pensa-se que os fenómenos inflamatórios e o stress oxidativo, que promovem disfunção endotelial, têm um papel determinante. A disfunção endotelial é a primeira responsável pelas lesões dos órgãos alvo e a microalbuminúria é o mais precoce marcador dessas lesões e o mais fácil de pesquisar.

Curiosamente, ainda hoje, alguns médicos ignoram ou desvalorizam estes conceitos. Num inquérito recente promovido pela Sociedade Europeia de Hipertensão, cujas conclusões foram apresentadas no European Meeting de Milão em 2009, embora mais de 95 por cento dos médicos inquiridos tivessem afirmado que sabiam que “a microalbuminúria está associada a risco cardiovascular” apenas 25 por cento dos clínicos gerais e 35 por cento dos cardiologistas e diabetologistas declararam que pediam o teste da microalbuminúria a todos os seus doentes, embora com percentagens francamente maiores (60 a 80 por cento) quando se tratava de doentes hipertensos e/ou diabéticos tipo 2. Mesmo assim, quase um décimo dos inquiridos opinaram que “é desnecessário pesquisar a microalbuminúria porque a proteinúria dá informação suficiente”.

“A disfunção endotelial é a primeira responsável pelas lesões dos órgãos alvo e a microalbuminúria é o mais precoce marcador dessas lesões e o mais fácil de pesquisar”.

A evidência contra esta opinião é-nos dada pelos resultados de estudos como o RENNAL, o IDNT, o LIFE, o MARVAL e o ROADMAP, em que doentes medicados com fármacos que reduzem a actividade do eixo renina-angiotensina-aldosterona (nomeadamente inibidores da enzima de conversão da angiotensina e antagonistas dos receptores da angiotensina), ao baixarem as taxas microalbuminúria, diminuem também os níveis de risco cardiovascular. Embora com concepções e finalidades diferentes, todos eles apontam para que a microalbuminúria é um marcador precoce de lesão renal e risco cardiovascular, independentemente de outros factores de risco, como a hipertensão arterial ou a hiperglicémia. Também há concordância em que a redução da microalbuminúria ou da proteinúria prenuncia um melhor prognóstico das doenças cardiovasculares, principalmente quando essa redução é persistente.

Além do mais, a pesquisa da microalbuminúria é uma análise clínica fácil e barata. Pode não dar milhões, mas seguramente dará ao doente melhores perspectivas na evolução da sua doença e ao médico maior segurança na prescrição e prognóstico dos seus doentes. Concorda?

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Última atualização da página em 13/01/18 por:

Dra. Alice Wegmann (Clínica Geral)

Licenciada em Medicina Geral e uma apaixonada por Medicina Alternativa, Aromaterapia e Fitoterapia.

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