Potosí, a Cidade Imperial dos Andes

Potosí, a Cidade Imperial dos Andes, na Bolívia.

Se nunca ouviu falar de Potosí, fique a saber que esta é, a par de Lhasa, uma das cidades mais altas do mundo, a partir da qual corria, nos séculos XVI e XVII, um rio de prata que alimentava o império espanhol. Humberto Lopes foi conhecer o que resta daquela que chegou a ser uma das cidades mais importantes do mundo, não se poupando, sequer, à asfixiante descida às minas do Cerro Rico. Existe na língua castelhana uma expressão que traduz perfeitamente o imaginário e o significado histórico da cidade: “Vale un potosí”. O sentido é o da referência a algo incomensuravelmente valioso. E com todo o fundamento, uma vez que Potosí, por mor dos inumeráveis filões de prata do Cerro Rico, chegou a ser, nos séculos XVI e XVII, uma das mais importantes cidades de todo o mundo, rivalizando com Paris, Madrid, Sevilha ou Londres.

Por volta de finais do século XVII, ali se arrancava às entranhas da terra mais de metade de toda a prata extraída pelos espanhóis em território americano, e ainda hoje os bolivianos gostam de dizer que com todo metal precioso levado para Espanha seria possível construir uma ponte entre a América do Sul e a Europa. Ao tempo de Carlos V, Potosí foi solenemente cognominada de “Villa Imperial”. Dessa época de fulgor e de luxo, o brasão do burgo não podia ser mais nostálgico, conservando a enfatuada divisa que sintetiza bem a dimensão do reinado perdido: “Soy el rico Potosí, del mundo soy el tesoro; soy el rey de los montes, envidia soy de los reyes”.

Para chamar ao presente do viajante este cenário de esplendor, pode ou deve a visita começar pela Casa de la Moneda, lugar que concentra essenciais referências da história potosina. É um edifício austero, que alberga um imenso museu onde se reúnem arquivos coloniais, pintura religiosa, uma grande colecção de minerais (mais de 3800 exemplos oriundos de todo o país), peças arqueológicas e – sobretudo – um conjunto de maquinaria em madeira usada para cunhar moedas. Muito impressivas são as quatro grandes máquinas de laminar prata vindas de Espanha e embarcadas em Cádis. Viajaram depois de Buenos Aires até Potosi, sobre os costados de quase uma centenas de mulas. A força motriz desta maquinaria era desenvolvida no piso inferior, numa soturna cave onde vinte escravos faziam rodar um eixo vertical. Este é, de resto, o lado negro da gesta de Potosí, em cujas minas terão morrido à volta de oito milhões de escravos índios e negros.

Dado essencial em toda esta história é o facto de em Potosí, durante os séculos XVII e XVIII, se ter cunhado moeda para várias nações europeias. Entre o acervo museológico da Casa de la Moneda encontra-se, precisamente, uma impressionante colecção de moedas de várias épocas e países, todas lavradas em prata extraída do vizinho Cerro Rico.

Recomendável é, obviamente, uma deriva pelo centro histórico da cidade, particularmente pelas ruas Ayacucho, Quijarro, Lanza, Bolívar, Hoyos, Linares, Tarija e Chuquisaca, plenas de sinais arquitectónicos dos tempos coloniais, nomeadamente casas balconadas pintadas de cores vivas e radiantes, algumas das quais já restauradas no âmbito de um programa de reabilitação dos mais de dois mil edifícios coloniais da cidade – um projecto que está a ser levado a cabo com o apoio financeiro da Cooperação Espanhola.

A Calle Quijarro, designada antigamente por Calle Olería, merece uma atenção particular pelo apreciável estado de conservação e também por causa da Esquina de las Cuatro Portadas, no cruzamento com a Calle Omiste, onde quatro casas coloniais continuam o seu diálogo de séculos. É um itinerário propício igualmente ao encontro com a grande arte religiosa dos tempos imperiais. As fachadas das igrejas de S. Lorenzo, junto ao mercado central, e da Igreja de S. Francisco, na Calle Tarija, são tocantes exemplos do barroco mestiço boliviano. A primeira reproduz uma imagem de sincretismo, com a figura do arcanjo São Miguel ladeada por dois eminentes deuses incas, Inti, o Sol, e Quiya, a Lua.

Não percamos de vista, porém, a faceta luminosa e festiva de Potosí. Na que é, com Llasa, no Tibete, a mais alta cidade do mundo, sucede todos os anos em Agosto uma das mais animadas festividades de toda a Bolívia, uma vez mais uma celebração de características sincréticas, já que os povos do Altiplano assimilaram valores do cristianismo sem perderem as anteriores referências mítico-religiosas. Chutillos, assim se chama a celebração, é uma festa dedicada a S. Bartolomeu, mas também a Umphurruna, ancestral entidade mais ou menos divina que os jesuítas tentaram substituir pelo santo cristão.

A componente de matriz religiosa tem lugar no primeiro dos três dias da festa, quando centenas de peregrinos arribam à capela de São Bartolomeu montados em burricos ou em mulas. A quota profana da festividade dura dois dias e é uma extraordinária celebração de excessos: mais de uma centena de grupos de músicos e dançarinos das comunidades autóctones da região, desfilando ininterruptamente de manhã até noite dentro. Não haverá, talvez, melhor oportunidade para o viajante testemunhar com os seus próprios olhos e ouvidos a espantosa diversidade étnica e cultural da Bolívia. A folia que enche as ruas de um tumulto de cores e sons parece não ter outro objectivo que o de contradizer (ou confirmar…) o filosofar cristianizado de Bartolomé Arzáns de Orsúa y Vela, insigne historiador da cidade: “Toda felicidad de esta vida es un engaño y ficción, y no verdadera dicha sino aparencia de dicha, y así no fue novedad que toda esa grandeza del Cerro, minadores y vanidad de la Imperial Villa de Potosí, se acabase, pues al fin fueran los bienes humanos… no bienes verdaderos sino sombra de bienes calificados de sombras…”

Barómetro

+ Longe de encerrar uma beleza de museu – ou uma harmonia arquitectónica preservada como a sua hispânica vizinha Sucre -, Potosí conserva uma personalidade e uma atmosfera difíceis de traduzir por palavras. Dir-se-ia que a aura da cidade passa ao lado de qualquer materialidade, por mais sedutora que ela seja. Em poucas povoações, na verdade, o passado afirma a sua perenidade com tão pouca ou nenhuma artificialidade.

Quem busque comodidades ou luxos “europeus” na cidade de Potosí terá que tomar consciência da sobriedade das instalações hoteleiras. Não que tenhamos de nos submeter inelutavelmente a condições espartanas, mas a oferta de alojamento confortável é muito limitada. Uma nota: o clima rigoroso exige um cuidado particular quanto à “calefacción” eficaz do quarto. Mas poderá o viajante que se preze agastar-se com tais minúcias?

Perguntas frequentes

Moeda: a moeda corrente é o boliviano, também designado correntemente por “peso”. Em muitos locais é aceite o pagamento em dólares. As ATM, que se encontram facilmente nas principais cidades bolivianas, incluindo Potosí, disponibilizam a opção de levantamento quer em bolivianos quer em dólares. O custo de vida é muito baixo. Uma refeição num bom restaurante dificilmente ultrapassa os 10€ e nos restaurantes ou nos mercados populares o seu custo ronda os 5€.

Vacinas: não são obrigatórias quaisquer vacinas, embora seja aconselhável a vacina contra a hepatite B. Se a viagem incluir uma deslocação ao Oriente Boliviano ou à Amazónia, convém fazer a profilaxia da malária.

Outras precauções: Dada a altitude de Potosí, e a consequente rarefacção de oxigénio, é absolutamente indispensável permanecer em repouso durante as primeiras horas e, se possível, caminhar muito pouco e sem esforço durante os dois primeiros dias. O risco de edemas pulmonares ou cerebrais é real.

Como ir

A partir de Madrid, a Iberia voa para La Paz, com escala em Santa Cruz. As Linhas Aéreas do Chile também voam de Madrid para Santiago e da capital chilena existem ligações diárias para La Paz. Melhor opção, em termos de preço, é viajar pela Air France, que faz Lisboa-Paris-S. Paulo-La Paz.

De La Paz para Potosí há voos assegurados por duas operadoras, a TAM (companhia pertencente à Força Aérea Boliviana) e a Aerosur. O preço da viagem varia entre 90 e 120 dólares. A alternativa terrestre significa cerca de 11 a 12 horas de viagem e custa pouco mais de dez dólares.

Quando ir

O Inverno é a melhor época para viajar até aos Andes. Raramente chove, embora as temperaturas sejam mais baixas. Potosí fica a 4080 metros de altitude e durante a noite a temperatura cai frequentemente para valores abaixo dos 0 graus. Não é raro registarem-se 5 ou 10 graus negativos. Durante o dia, os termómetros registam temperaturas mais agradáveis, 10 a 15 graus, embora possa soprar por vezes um vento gelado.

O que levar

São aconselháveis roupas quentes. São também indispensáveis um bom protector solar e óculos de sol.

Alojamento

Há toda a vantagem em garantir aquecimento nos quartos. Os estabelecimentos hoteleiros mais confortáveis são o Hostal Colonial (Calle Hoyos, 8, telefone 24809, fax 27146), o Hostal Libertador (Calle Millares, 58, telefone 27877, fax 24629) e o Hotel Claudia (Avenida Maestro 322, telefone 22242, fax 25677).

O que comer

Há uma variedade de sopas deliciosas, entre as quais a de quinua, um cereal do Altiplano já cultivado no tempo dos incas e muito reputado pelas suas qualidades nutritivas. Carne de lama com um tipo de batatas secas e com milho é outro prato muito apreciado na região. Os restaurantes El Mesón, na Calle Linares, e o Sumaj Orcko, na Calle Quijarro, são dois dos melhores de Potosí. Em ambos se pode provar a gastronomia local.

O que comprar

Instrumentos musicais, tais como charangos e flautas andinas, quenas e zampoñas, podem ser encontrados na loja “Killay”, junto ao Mercado Artesanal. Música de Luzmila Carpio, uma notável cantora e compositora da região, é outra opção que se aconselha vivamente. Os aficcionados do artesanato podem dar uma volta pela Calle Sucre ou procurar directamente a “Andina”, no nº 94, ou a Artesanías El Cisne, na Calle Padilla, 17. Camisolas de lã de alpaca ou de lama são artigos que vale também e pena comprar.

Bolívia Potosí, Bolívia

Ler também:

Cerro Rico (Potosí, Bolívia, Andes)

Fotos de Potosí:

Vista da cidade de Potosí

Rua de Potosí e o Cerro Rico

 Porta da Igreja de San Lorenzo, Potosí

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Última atualização da página em 13/01/18 por:

Dra. Alice Wegmann (Clínica Geral)

Licenciada em Medicina Geral e uma apaixonada por Medicina Alternativa, Aromaterapia e Fitoterapia.

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