Ser médico em África e território de catástrofe

Revisado por Equipe Editorial a 13 janeiro 2018 - Publicado a 28 de maio de 2010

Ser médico em África e território de catástrofe

Ser médico em África ou em território de catástrofe é um sonho que atravessa gerações de médicos, personificando generosidade, força de vontade e exercício profissional solidário, que faz da profissão médica, não uma profissão de fé ou usufruto económico, mas um bem. Um bem sem ganho secundário, excepto na convicção de ser útil, salvar em condições ou sem condições, mas sempre com o ser humano como primado, sentir-se realizado, ser gente feliz. É ter como gratificação aplicar conhecimento, ser reconhecido com olhos marejados, ter como prémio um sorriso de criança, uma mão verdadeiramente amiga de gratidão, um abraço tímido de afecto e emoção.

Mas ser médico em África, América Latina ou Ásia, em ajuda ao desenvolvimento ou situação de calamidade, cheias e dilúvios, guerra e massacres, tsunami e terramotos, impõe também qualidade no exercício, concentração no acto médico, serenidade na acção, aceitação de condições de vida sem os padrões de bem-estar continental, respeito pelas culturas e autonomia dos povos. Por isso, não é aconselhável que um médico se disponha e seja aceite em missão de serviço quando se encontre fragilizado, seja por disfunção ou rotura familiar, atravesse período depressivo ou exaustão profissional ou procure minimizar ou solucionar questão económica.

Em tais situações, os problemas pessoais influenciam o desempenho clínico e não resolvem o quadro afectivo ou laboral preexistente que levou a fuga à realidade, não lhe dando capacidade e recursos para análise, resolução adequada e reequilíbrio. Excluídos estes cenários psico-sociais, o médico solidário, que se rege por dedicação, princípios e causas, deve ser apoiado e estimulado a realizar missão de serviço humanitário, competindo às instituições oficiais promover concessão de dispensas de serviço aos interessados em ser (mais) humanos.

Compete às instituições, porque as acções e as missões das ONGD surgem na sequência e defesa da política internacional do Estado, em que a imagem e os compromissos dos países são valorizados, aplicam e complementam a função do Estado social difundido em panegírico pelo Poder, aproveitam o voluntariado como trabalho qualificado.

Há de facto instituições públicas que compreendem estes princípios e suas consequências, não deixando a legislação apenas no espírito do legislador, mas aplicando-a, e que concedem as necessárias autorizações, reorganizando transitoriamente o serviço e envolvendo outros médicos e profissionais de saúde na rede também solidária, necessária para manutenção das garantias de acesso dos utentes aos cuidados de saúde em Portugal.

Louvem-se tais responsáveis institucionais que dignificam Portugal, gerem realmente os recursos humanos disponíveis, compreendem a essência das profissões da saúde e os direitos humanos e são agentes, contribuindo para a saúde, combate à doença e ao sofrimento, o bem global, a sociedade. Mas também há instituições de serviço público em que os titulares são meros autocratas, economicistas sem economia solidária, mascarados de laivos ditatoriais com ou sem verborreia, por vezes serventuários do poder pelo poder, bajuladores
de hierarquia, factores de pressão sobre o elo mais fraco, nada percebendo de ajuda pública ao desenvolvimento.

E, nestes casos, não são concedidas autorizações para que o médico cumpra um sonho, seja técnico e cidadão, se realize e estruture, seja humano e feliz. Impedir um médico de exercer o seu mister onde é mais útil, onde se é médico de proximidade e solidário, onde se sofre e morre por causas evitáveis, onde se salva e se cura, salvaguardado o interesse público de origem, é uma demonstração de fraqueza, uma atitude mente capta, sem uso da razão e néscia, em que o egoísmo e os interesses se sobrepõem aos direitos humanos.

Ser médico em África ou território de catástrofe é uma mais-valia, pessoal e para a causa pública, em que se adquire e troca experiência inter-pares e com outros profissionais de saúde, se percebe a idoneidade do serviço que é tutor, com médicos expatriados e locais, organização e consultoria à gestão. É ser médico, seja graduado ou em graduação, ensinando, aprendendo, aplicando, actuando em situações clínicas de vida e morte, algumas das quais apenas estudaram em livros, raras ou frequentes, ficando melhor preparados para novas abordagens clínicas em doença e ser humano.

Quem exerceu durante a guerra na Guiné-Bissau, após os massacres em Timor, durante as cheias em Moçambique, em socorro das vítimas do tsunami no Sri Lanka ou após o terramoto no Haiti é médico ou profissional de saúde e continuará a sê-lo em Portugal, contribuirá para a saúde dos cidadãos e para a qualificação e creditação das instituições em Portugal. Ainda as experiências, como internatos de Ginecologia/Obstetrícia e Pediatria (parcialmente), com médicos portugueses e cabo-verdianos em Cabo Verde, os programas de voluntariado de alunos da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra em Verão solidário na Guiné-Bissau, a realização de estágios de Saúde Pública de alunos da Faculdade de Ciências Médicas de Lisboa, também na Guiné-Bissau, são exemplos de competência desenvolvida e adquirida, com avaliação e graduação.

Incompreensivelmente, quiçá por ignorância que não má-fé decerto, a alguns médicos internos de Medicina Geral e Familiar (a especialidade mais adequada em cuidados de saúde primários fundamentais) tem sido dificultada a sua participação em missão, quando aliás se verifica, até na legislação recente dos internatos, que os estágios opcionais são escolha prioritária dos internos.

Aqueles que estiveram em missão de serviço humanitário uma vez, quase sempre querem voltar, uma e outra vez. Porque será? Por que razão alguns titulares e algumas estruturas não compreendem o sentido de missão?
As razões são claras: os médicos e outros profissionais de saúde, ao reverem a sua participação em missão precedente, são gente feliz com lágrimas; alguns titulares hierárquicos serão gente infeliz sem lágrimas.

Hernâni Caniço
Médico de Família, Chefe de Serviço
Assistente da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra
Presidente da Associação Saúde em Português