Síndrome da Fadiga Crônica

Quando o sono não é reparador, as dores generalizadas aumentam e surgem dificuldades cognitivas de diversa ordem, diz-se que estamos perante um caso de síndrome de fadiga crônica, também conhecida como encefalomielite miálgica.

A síndrome de fadiga crónica é uma doença que se caracteriza por um cansaço prolongado e debilitante que normalmente é acompanhado de vários sintomas pouco específicos como dores de cabeça, repetidas inflamações da garganta, dores musculares e nas articulações, perturbações do sono, humor irritável, depressão e perturbações cognitivas, como os lapsos de memória e a dificuldade de concentração.

A fadiga intensa, que é o elemento principal deste problema, pode aparecer de forma inesperada ou instalar-se lentamente, agravando com as actividades físicas e psíquicas.

A síndrome da fadiga crónica acomete principalmente mulheres de raça branca, com idades entre os 25 e os 50 anos, se bem que os indivíduos de outras idades, sexo, raça e classes socioeconómicas também possam ser afectados.

O seu diagnóstico exige que os sintomas relatados tenham uma história de, pelo menos, seis meses de duração, mas a maioria dos pacientes sofre desta síndrome durante anos e pensa não existir solução para o problema.

Causas da síndrome de fadiga crônica

A fadiga crónica pode ser originada por uma tríplice de factores como a hereditariedade, o stress e sintomas causadores de stress. Como uma bola de neve, esta síndrome constitui-se numa fonte de stress realimentando e intensificando a sintomatologia.

Muitos pesquisadores não acreditam que possa haver uma única causa para este problema, até porque, por vezes, ele surge após uma infecção ou um trauma físico ou psicológico e outras aparece sem motivo aparente.

Muitos pacientes fatigados são convencidos pelos que os assistem de que sofrem apenas de alterações emocionais, o que não é de todo verdade.

A fadiga crónica é o resultado de uma série de alterações orgânicas, cujo centro é o eixo neuroendócrino formado pelo hipotálamo, a hipófise e as supra-renais, originando um nível baixo de cortisona no sangue.

Por esse motivo não se pode tratar este tipo de doentes como indivíduos emocionalmente instáveis, cujos problemas possam ser resolvidos apenas com decisões de mudança.

Fatores desencadeantes

De um modo geral, podemos dizer que a componente hereditária na fadiga crónica é directamente proporcional à intensidade dos sintomas e inversamente proporcional à idade de início e à intensidade do stress envolvido. Ou seja: quando um indivíduo começa a sentir indícios de fadiga crónica muito cedo, tem sintomas intensos e poucos factores stressantes, é muito provável que exista uma forte participação do factor hereditário.

O stress intenso, sendo um conjunto de elementos stressantes que estimulam “o sistema geral de adaptação” do organismo, leva muitas vezes à falência desse mesmo organismo, desencadeando um conjunto de sintomas que assume características peculiares em cada fase do processo – de resistência ou de compensação -, mas que, numa última fase, degenera em exaustão, por vezes sem retorno.

Diagnóstico da síndrome de fadiga crônica

Clinicamente, a fadiga persistente e inexplicada que não resulta de esforço contínuo e que não é aliviada através do descanso, corresponde a um quadro de fadiga crónica. Em regra, este problema torna-se incapacitante e obriga à redução significativa das actividades laborais, educacionais, sociais e até pessoais.

Para despistar a possibilidade de outros problemas, quase sempre é realizada uma investigação laboratorial que inclui uma história médica e um exame físico, um exame de sanidade mental (para afastar a possibilidade de desordem neurológica ou psiquiátrica), exames de sangue, hemograma completo, VHS, cálcio, fósforo, prova de funções hepáticas, renais e tirodeanas, além de um exame completo de urina. Em alguns casos, é ainda solicitada uma ressonância magnética nuclear para afastar a hipótese de esclerose múltipla.

Todos estes exames fazem sentido se pensarmos que existem algumas doenças que provocam um cansaço exacerbado, como o hipotiroidismo, a apneia do sono, a narcolepsia, os problemas hepáticos, a depressão, a doença bipolar, a anorexia nervosa e a esquizofrenia. A obesidade, as doenças cardio-respiratórias, neuromusculares e metabólicas também podem provocar fadiga.

Fatores de risco

Vinte e cinco pacientes com a síndrome da fadiga crónica foram estudados em Atlanta, nos Estados Unidos, e comparados com um um grupo de controlo em idade, sexo e raça similares. Os pacientes forma ainda subdivididos quanto ao tempo de início da enfermidade: se repentino ou gradual.

Os resultados desta pesquisa mostraram que, estatisticamente, os pacientes cronicamente fatigados apresentavam uma sobrecarga emocional maior, sintomas nasais persistentes, infecções de ouvido e ingestão de vitaminas do complexo B durante o ano anterior ao início da doença, contrariamente ao que se verificava com o grupo de controlo.

Os pacientes que referiam um início gradual da doença mostraram-se mais susceptíveis de apresentar um quadro de stress emocional significativo e episódios de sinusite, contrariamente aos que referiam o aparecimento súbito da enfermidade. A conclusão é a de que existe uma subdivisão da síndrome entre aqueles em que ele surge de modo abrupto e aqueles em que existe um processo gradativo.

Transtornos psiquiátricos

A maioria dos pacientes que se queixa de sintomas de ansiedade e depressão, é confundido como um doente portador de um quadro psiquiátrico. Contudo, cerca de 40 por cento dos doentes de fadiga crónica não apresentam qualquer sinal de comportamento psíquico, além do abatimento próprio dos sintomas que a caracterizam.

Até há algum tempo, a maioria dos doentes com este tipo de cansaço crónico era tratada como se estivesse a fingir uma maleita qualquer, como preguiçosos incuráveis. Devido ao desconhecimento concreto da doença, muitas vezes eram vistos apenas como pessoas com problemas depressivos, que melhorariam com uma psicoterapia e antidepressivos.

O reconhecimento da síndrome da fadiga crónica deu-se apenas em 1988 e em 1994 o Grupo Internacional de Estudo da Fadiga Crónica publicou no Annals of Internal Medicine uma descrição detalhada que ainda hoje é utilizada.

A New York Medical College revelou igualmente num estudo, que a fadiga crónica derivava de desordens do sistema nervoso autónomo, que por si só provocava toda a sintomatologia própria deste problema e dava pistas para novas formas de diagnóstico.

O reconhecimento da síndrome de fadiga crónica como um quadro clínico conhecido e definido e não como uma invenção dos seus portadores, facilitou as possibilidades de tratamento.

Tratamento para síndrome de fadiga crônica

A maioria dos pesquisadores não considera a síndrome da fadiga crónica uma doença, mas antes um conjunto comum de sintomas desencadeados por factores infecciosos e não infecciosos. Sendo uma condição clínica que combina vários sintomas e que por vezes se torna incapacitante, o excesso de cansaço merece tratamento sintomático e suporte emocional.

São atingidos bons resultados, quando as pessoas se disponibilizam a levar uma vida mais calma, evitando a exposição a situações de grande stress físico ou psicológico, balanceando as actividades com o repouso, estabelecendo metas realistas e planos flexíveis.

Não existe uma medicação específica para tratar este problema, porque a síndrome envolve grande diversidade de sinais e sintomas. Contudo, é frequente a administração de produtos que revitalizam a função das supra-renais, cujo esgotamento parece ser o centro e causa principal de outros sintomas. Por outro lado, a utilização de medicação sintomática criteriosamente escolhida em função de cada caso e após um diagnóstico preciso, pode aliviar os sintomas e permitir ao paciente uma progressiva reinserção num padrão de vida normal.

Vários medicamentos têm sido propostos com o intuito de aliviar as manifestações da doença. Analgésicos, anti inflamatórios não hormonais, antidepressivos tricíclicos, terapias cognitivas e comportamentais, bem como alguns exercícios têm sido advogados como auxiliares na terapia da síndrome da fadiga crónica.

Marcos Stern, farmacêutico e bioquimíquico, especializado em fitoterapia, sugere novas formas de tratamento para a fadiga crónica, utilizando substrato de casca de pinheiro e sementes de uva. Tanto uma substância como outra contêm grande quantidade de Pycnogenol, que actua como antioxidante dentro do nosso organismo, combatendo e eliminando radicais livres e combatendo estados de cansaço.

Fadiga pode estimular o cérebro

Sean Crummond, investigador da Uni-versidade da Califórnia, em San Diego, descobriu que a falta de sono e o cansaço afinal não diminui a actividade do cérebro. O estudo, revelado pela CyberSciences, uma publicação francesa, consistiu em submeter voluntários a testes de ressonância magnética que permitiram identificar quais as regiões do cérebro que consumiam mais glucose e oxigénio, ou seja, as regiões que têm maior actividade.

Nas pessoas que tiveram repouso, o trabalho cerebral é efectuado sobretudo no córtex pré-frontal esquerdo, a zona pré-motora e o lóbulo temporal. Nas pessoas fatigadas, a actividade do lóbulo temporal diminui e a do córtex pré-frontal aumenta. Mas o mais surpreendente é que novas regiões do cérebro, nas quais não tinha sido percebida actividade até agora, foram identificadas como activas: os lóbulos parietais.

Em princípio, estas regiões servem para resolução de tarefas cognitivas mais complexas, como a menorização de um número de telefone enquanto se conversa com alguém, por exemplo. Aparentemente, quanto maior o cansaço mais estas zonas do cérebro são solicitadas e estimuladas. Mas, atenção, não abuse…

3 perguntas a Paula Medeiros, Pedopsiquiatra

Quais as pessoas mais propensas a sofrer de fadiga crônica?

As pessoas que, do ponto de vista orgânico, não sofram de qualquer patologia, mas que tenham tendência para problemas depressivos, de ansiedade ou de sono, à partida são as pessoas com mais propensão para este tipo de problemas

As crianças podem sofrer de fadiga crônica?

Nós, na Pedopsiquiatria, não associamos directamente o conceito de fadiga crónica às crianças (pelo menos com as causas e com a sintomatologia a que normalmente ela é referida), embora possa acontecer o facto de uma criança estar excessiva ou sistematicamente cansada.

Do ponto de vista psicológico ou emocional é significativo que uma criança apresente sinais de fadiga, associados a problemas de baixa auto-estima, desmotivação, depressão ou pouca vitalidade. À partida, quando uma criança apresenta níveis elevados de cansaço, não pensamos que isso possa ocorrer devido a um problema físico, mas sim psicológico.

Quando efectivamente isso acontece por problemas somáticos, enviamos a criança para um pediatra, porque há problemas de ordem física que podem provocar cansaço, como por exemplo, a anemia. De qualquer modo, quando uma criança fisicamente saudável se apresenta fatigada sem motivo aparente, em regra pensamos que se trata de um problema de foro emocional.

De um modo geral, qual a diferença entre fadiga crônica e esgotamento?

O esgotamento não é uma terminologia médica. O médico pode falar em esgotamento para o paciente que não é formado em Medicina perceber que se encontra numa fase de grande cansaço e pressão fisiopsicológica, que o impede de responder às solicitações diárias, quer sejam laborais ou outras.

De qualquer modo, o esgotamento pressupõe uma sintomatologia que surge de um modo abrupto, embora já pudesse apresentar indícios há algum tempo. A fadiga crónica é um conceito médico e pode ter adjacente problemas somáticos e/ou emocionais.

Informações que lhe podem ser Úteis:

Última atualização da página em 13/01/18 por:

Dra. Alice Wegmann (Clínica Geral)

Licenciada em Medicina Geral e uma apaixonada por Medicina Alternativa, Aromaterapia e Fitoterapia.

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Esta matéria tem 4 Comentários
  1. June Reply

    Excelente informação. Tive muitos prejuízos em todas as áreas
    da minha vida por causa desta doença maldita Para mim sempre
    fui torturada e continuo sendo por que não consigo acertar o tra-
    tamento. Acho que faltam médicos competentes aqui onde moro.
    Mas não desisto de encontrar o tratamento porque só eu sei o que
    eu sofro. Porém, eu gostaria de encontrar informações mais eficientes sobre o tratamento. Obrigado
    Parabéns pela publicação!!! Agora posso “esfregar” na cara dos
    outros o meu sofrimento. Desculpe pela indelicadeza das palavras.
    Mas já não suporto mais tanto sofrimento.

  2. Euzenia Cardoso Nogueira Soares Reply

    Hoje lendo essa matéria acho que descobri os meus males. Digo males, pois é um conjunto de agravantes para meu organismo, que não sabia como explicar para o médico. As vezes ficava com vergonha com tantos sintomas para reclamar e ser confundida com uma pessoa preguiçosa, coisa que nunca fui. Não tenho vontade de fazer mais nada, me tornei uma pessoa triste e de humor variante, irritada. Sofro muito com isso e acaba refletindo nas pessoas a meu redor. Muitas vezes escutei o termo: larga de moleza, o que me deixa muito triste, pois só quem tem este mal sabe o que realmente sente. Resumindo é horrível. A cada dia que passa parece que a gente fica mais debilitado. Essa matéria é de grande valor para nos orientar e esclarecer, pois tudo é muito complexo, tanto para nós pacientes como para os médicos. Que Deus nos ajude, é muito difícil viver assim!

  3. celestina de sousa Reply

    Tenho 62 anos, estou comprando o primeiro veículo eléctrico para substituir as minhas pernas, já o devia ter feito mas foi difícil a decisão.
    Não tenho nenhum diagnóstico clínico, várias vezes senti o olhar desconfiado do clínico perante as minhas queixas de fadiga e a vontade de não voltar a queixar-me… levo 12 anos buscando ajuda médica nos verões… é quase sempre perante o calor que fico sem forças, (raramente nas mudanças bruscas de temperatura) chego ao desfalecimento se não consigo estar num ambiente fresco, se não consigo dormir= descansar…
    Tac, electromiograma, ressonância, análises… nenhuma pista, nunca uma conclusão…
    Os profissionais da saúde buscam a origem dos sintomas físicos, nestes casos, na parte emotiva do ser humano ( e é louvável que considerem o ser humano como um todo – corpo e mente), depois de vários estudos sem resultados concretos, já fui derivada para psicologia onde terminei por ser felicitada pela maneira como enfrento as minhas limitações…
    Enquanto vivi num país da América do Sul que me oferecia vários climas pelas diferenças de latitudes, fugia anualmente de casa no verão, passava a época do calor na patagónia e o fisico recuparava de imediato.
    Há algum tempo que voltei á minha cidade de origem em Portugal e tenho que enfrentar o verão sem hipóteses de fugir para temperatuiras mais baixas por questões económicas..
    Faço parte desses “bichos raros” que caiem nos consultórios para os quais ainda não há resposta.

  4. Paulo Moraes Reply

    gostei da matéria, é de grande valor, parabéns, estou com fadiga até pra escrever.

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Última atualização da página: 13/01/2018 às 3:12 horas por: Dra. Alice Wegmann (Clínica Geral)