Tatuagens

Tatuagens, rios de tinta foram já gastos a falar dela e outro tanto de tinta foi usada para fazê-la. Acontece que agora, para além de se revestir do acto simbólico que ao longo dos tempos adquiriu, quer em tribos africanas — como forma de identificação / ritualização — quer nos tempos da Guerra do Ultramar — quem é que não conhece alguém que tenha uma inscrição no braço do género “Angola 1972”?! — ela está de volta e, desta vez, com um poderoso aliado: o piercing!

Mas a questão que se levanta é que, apesar de escrevermos e de por vezes nos riscarmos com as canetas, não ficamos tatuados! Então, em que é que consiste a tatuagem?!

É pois esta a missão a que desta vez me proponho: explicar de forma (sucinta?) a estrutura da pele e, depois, tentar clarificar a metodologia desta forma de expressão antiquíssima.

A pele

A pele é um dos maiores órgãos do corpo humano, chegando a conter 16% do peso corporal total; e apresenta diversas funções:

protege o organismo da perda de água por evaporação, do atrito e dos raios UV;
põe-nos em contacto com o meio externo através do tacto (dada a sua rica inervação);
colabora na termorregulação do corpo (os seus vasos, glândulas e tecido adiposo permitem a regulação das perdas de calor);
contribui para a excreção de substâncias tóxicas (através das glândulas sudoríparas);
permite a formação de vitamina D3;
tem um papel importante nas respostas imunitárias uma vez que é a barreira física de primeira linha em contacto com o exterior e está por isso em permanente contacto com agentes patogénicos. Esta função traduz-se pela actividade das células de Langherans (que são um tipo de células dendríticas do sistema imune) e dos macrófagos.
A pele é constituída, em termos genéricos, por 2 estratos: epiderme (superficial) e derme (profunda).

A primeira tem origem embriológica no folheto exodérmico do embrião ao passo que a segunda tem origem no folheto mesodérmico. Pelo facto de terem origens diferentes apresentam estruturas diversas.

O limite entre a epiderme e a derme não é regular mas, pelo contrário, apresenta reentrâncias que são designadas de papilas dérmicas. Estas aumentam a superfície de contacto e a aderência entre os 2 estratos, o que permite uma irrigação e inervação mais eficiente da epiderme (que é avascular) pela derme (vascularizada).

A Epiderme

A epiderme é constituída por um epitélio (ou seja, um conjunto de células justapostas que revestem a superfície externa do corpo) estratificado (isto é, constituído por mais que uma camada de células) pavimentoso (dado que as células mais superficiais são achatadas como um pavimento) e queratinizado (pois é revestido por uma proteína impermeável designada queratina). As células típicas da epiderme são os queratinócitos, os quais vão sofrer alterações morfológicas e funcionais à medida que vão progredindo da profundidade para a superfície.

As camadas referidas, à semelhança de um muro, são constituídas por linhas de “tijolos diferentes”, ou seja, diferentes camadas de células.

Assim, de mais profundo para mais superficial temos:

Camada Basal (SG): é a mais profunda das camadas e onde há intensa divisão celular, assegurando a renovação da pele.
Camada Espinhosa (SS): os queratinócitos apresentam expansões que contribuem para a forte aderência entre as células (os chamados desmossosmos).
Camada Granulosa (SGK): os queratinócitos apresentam no seu citoplasma grande quantidade de grânulos de querato-hialina (que é a proteína precursora da queratina).
Camada Córnea (SC): é a mais superficial de todas as camadas e é constituida por células mortas e anucleadas com o citoplasma preenchido por queratina.

A Derme

A derme é o tecido conjuntivo, especializado, sobre o qual repousa a epiderme e que apresenta 2 funções, que se traduzem pelas duas camadas que a constituem:

Camada Papilar: é a camada mais superficial da derme e apresenta fibras de colagénio que provêm da membrana basal e que vão servir para “ancorar” a epiderme à derme.
Camada Reticular: é a camada mais profunda da derme. Apresenta na sua constituição terminações nervosas (que permitem o tacto), vasos sanguíneos e linfáticos (responsáveis pela irrigação e drebagem da epiderme), fibras elásticas (que conferem elasticidade à pele) e outras estruturas derivadas da epiderme (pêlos, glândulas sebáceas, glândulas sudoríparas e unhas).

Bom, e depois de termos um manual em duas lições de como nos tornarmos empreiteiros de muros feitos de células mantém-se a questão do fundamento da tatuagem (que, continuando a analogia, será o graffiti do nosso muro…)

As tatuagens

A resposta é simples! As tatuagens são imagens obtidas pela introdução de partículas pigmentadas na derme com auxílio de agulhas. Os pigmentos usados são: carbono para obter a cor preta, o cinábrio/sulfureto de mercúrio/sais de cádmio para a cor vermelha, sais de crómio para as cores verde e amarela, sais de cobalto para a cor azul, sais de ferro para os tons de castanho, rosa e amarelo e sais de titânio para ao cor branca.

O pigmento introduzido é então fagocitado por macrófagos locais. As imagens tendem a manter-se pelo facto de haver várias gerações de macrófagos que podem apoderar-se, localmente, da pigmentação que fica disponível com a morte de outros.

É portanto pelo facto de se introduzir na derme que os pigmentos ficam para sempre na pele, ao passo que, quando nos riscamos com uma caneta, uma vez que o pigmento se vai restringir à epiderme, a tinta sai com algumas lavagens.

Para além do efeito pretendido (uma manifestação de afecto, um traço de personalidade, uma forma de identificação social, uma fantasia, etc.) há também outro tipo de consequências a ter em conta, nomeadamente, a higiene que o tatuador emprega no seu trabalho por forma a diminuir o risco de contrair doenças (nomeadamente HIV e hepatite) e ainda de uma possível resposta alérgica aos pigmentos usados, especialmente no caso do cinábrio.

Outra das implicações possíveis é a pessoa arrepender-se de ter feito a tatuagem (porque a pessoa em questão já não é importante ou porque mudou a sua perspectiva de vida). E aí não restam muitas soluções para além de pagar a um bom cirurgião plástico…

Independentemente das implicações e inconvenientes, a tatuagem veio de vez para eternizar as declarações de amor que queremos deixar bem patentes para todo o sempre (o clássico e intemporal “Amor de Mãe”), para disfarçar pequenos defeitos da pele que ficam assim recobertos pela tinta ou para fazermos saber que nos identificamos com determinado grupo de pessoas. Ou simplesmente porque sim. Porque, em última acepção, o corpo é o nosso derradeiro reduto de liberdade.

 

 

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