Testemunho – Vítima, não da SIDA, mas da marginalização

Revisado por Equipe Editorial a 5 de janeiro de 2011 e Atualizado em 13 janeiro 2018

TESTEMUNHO – Vítima, não da SIDA, mas da marginalização.

Amílcar Soares foi uma das pessoas que, no nosso País de brandos costumes, sofreu a marginalização por ser seropositivo. Descobriu que estava infectado em 1986 e deu uma entrevista a uma rádio, três anos depois, sagrando-se numa atitude de coragem que acabou por valer-lhe o despedimento: «Era criativo numa agência de publicidade no Porto.

Quando dei a entrevista, fui imeditamente despedido, sob a alegação de que poderia cortar-me numa folha e infectar os meus colegas». Apesar de o assunto ter seguido para as barras dos tribunais, os prejuízos na sua vida nunca foram realmente compensados: «Voltar ao emprego tornou-se completamente inviável. Os meus próprios colegas foram avisados para não tomarem o meu partido», conta.

Agora, a vida de Amílcar anda à volta da Associação Positivo, em defesa da causa que passou a dominar a sua vida. Um dos cavalos de batalha é a falta de voz dos afectados em relação à tomada de decisões que envolvam o VIH. Esta reclamação deve-se à importância da tomada da decisão de iniciar as terapias, bem como da escolha das mais adequadas à vida do doente.

Amílcar chega mesmo a dizer que «é lamentável não termos seguido o exemplo dos espanhóis, que permitem às pessoas afectadas uma postura muito mais activa ou participativa». Amílcar também denuncia o cenário cor-de-rosa pintado frequentemente pelos nossos serviços de saúde: «Na realidade, Portugal não está assim tanto na vanguarda em termos de serviços disponibilizados.

Por exemplo, se eu transmitisse o meu vírus a alguém, este já seria imune a cinco medicamentos, ou seja, às terapias que eu já fiz. Em alguns lugares, já é possível caracterizar as resistências desenvolvidas pelo vírus que foi transmitido, propriamente dito. Cá ainda não».

Amílcar recorda ainda que, quando foi criada a Comissão Nacional de Luta Contra a SIDA (CNLCS), havia o propósito de incluir nos seus quadros alguns seropositivos. «Intenções que, estranhamente, foram esquecidas ou ignoradas algum tempo depois. Criou-se o hábito de os seropositivos só serem ouvidos quando interessa a alguém».

O recém-nomeado coordenador da CNLCS, Fernando Ventura, não quis prestar quaisquer esclarecimentos sobre as estratégias a adoptar no seu mandato, bem como às reclamações que nos foram transmitidas, alegando estar ocupado com a preparação de um congresso. Deste modo, não foi possível recolher as opiniões do sucessor de Odete Ferreira, depois da polémica substituição que envolveu a ex-coordenadora e cientista responsável pela descoberta e isolamento do VIH 2, no Instituto Pasteur, em Paris. Contudo, na vida de Amílcar, o aparecimento das triterapias ou terapias combinadas, tornou-se um marco importante.

Depois de já ter sofrido um linfoma, que o obrigou a submeter-se à quimioterapia, bem como algumas outras infecções oportunistas, conseguiu estabilizar a sua saúde estando pronto para a batalha a empreender, através da associação Positivo.

Data desta repostagem: 14-03-2000

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