Unidose é um disparate

“A unidose é um disparate”. Quem o afirma é o novo director-geral da Jaba Recordati, Nelson Pires, que com um possível desinvestimento em investigação acredita que o futuro passa por novas utilizações de medicamentos existentes, por exemplo através da associação de medicamentos ou novas dosagens, ou mesmo novas indicações. Perante o actual cenário económico-financeiro, o dirigente considera que será necessária uma gestão eficaz e eficiente, pois neste contexto sobreviverão apenas os que tenham uma estratégia bem definida e um rumo muito claro.

Formado em Direito, Nelson Pires passou por diversas multinacionais farmacêuticas para assumir, em Fevereiro último, a função máxima na direcção-geral da Jaba Recordati. Relativamente à anterior direcção, afirma que haverá mudanças, em particular na postura perante os trabalhadores da empresa. “Claramente [pretendemos] mudar, sobretudo numa visão mais interna”, diz sobre a sua linha de orientação.

À SM fala da unidose e dos genéricos. A conversa, que flui descontraidamente, passa ainda pela investigação e as dificuldades presentes devido à redução das margens de lucro. Nelson Pires dá a sua visão do sector farmacêutico em Portugal.

Em Fevereiro último, afirmou, aquando da tomada de posse do cargo de directorgeral da Jaba Recordati, que assume este novo desafio assente nos seus dois lemas de vida. Uma frase de Ayrton Senna, “o segundo é o primeiro dos últimos”. O outro lema diz respeito a Arquimedes: “Dêem-me um ponto de apoio (neste caso são as pessoas de que tenho tido a sorte de me rodear) e uma alavanca (sem dúvida a qualidade dos produtos Jaba Recordati) e moverei o Mundo”, afirmou então.

Tendo em conta estes lemas e agora a nova posição que assume, quais são as suas principais prioridades?
Do ponto de vista interno, um ponto de apoio que tenho é a equipa de direcção que me acompanha, que, em equipa e com um sentido de profissionalismo elevado, transmite aos seus reports directos os níveis de exigência e profissionalismo da nossa Companhia.

Este espírito de equipa passa por aumentar as competências e aproveitar as que já existem. Temos pessoas de elevado valor a trabalhar dentro da equipa. Queremos projectá-las. Este é o ponto de apoio, ou seja, a nível interno é o desenvolvimento de competências. Temos, por exemplo, um programa interno em que a carreira é estabelecida para as pessoas de alto potencial.

Pretendemos aproveitar os recursos humanos que temos, desenvolvê-los, melhorálos. No cenário de mudanças que vivemos, as pessoas são o factor crítico de sucesso. Temos dois pontos fundamentais: um é produtos de elevado valor, e isso nós temos; e o segundo é as pessoas de elevado valor, e isso nós também temos. A nível interno o ponto maior que a empresa tem é a motivação e o desenvolvimento de competências. A nível externo queremos entrar nos 15 primeiros do ranking nacional farmacêutico.

Neste momento estamos em 19º lugar. Este é um objectivo crucial, que tem várias consequências. Uma delas é o crescimento que temos de ter para chegar ao 15º lugar. Temos de crescer mais do que o mercado e mais do que os quatro concorrentes que temos à frente. Vamos fazer isto de várias formas. Uma através da manutenção do portfolio de produtos que temos, ao nível do volume de negócio que produzimos; outra, através do lançamento de produtos novos, tendencialmente sempre produtos corporativos da Recordati. Neste momento temos três áreas de negócio: a farma (na sua maioria produtos de prescrição sob patente), genéricos e consumer health.

Tendo em conta o contexto actual do sector da Saúde, e em particular do Medicamento, quais são os principais desafios que se colocam ao cumprimento destas metas?
Na Jaba Recordati penso que estamos relativamente estabilizados porque temos o nosso plano a três anos definido. Temos produtos novos.

O grande desafio de Portugal, e acho que no resto da Europa, é planificar. Vivemos em circunstâncias económicas e financeiras difíceis. Nós somos obrigados a projectar a pelo menos cinco anos, como qualquer Companhia, e o problema é que às vezes algumas medidas pontuais que sofremos, porque somos uma área regulamentada e que depende em grande parte do Estado, afectam a previsão, o investimento e se quiser a margem que esperamos.

A grande dificuldade é estabilizar as companhias, manter os empregos, manter o investimento que fazemos, nomeadamente local, ao nível de investigação e de produção, porque não há um plano estratégico na Saúde para o medicamento. A dificuldade maior que sinto no dia-a-dia é vender o conceito de que quero investir mais em Portugal e com isso ter retorno, por causa das medidas pontuais a que somos sujeitos regularmente.

A sua direcção-geral será numa linha de continuidade com a anterior ou pretende introduzir mudanças?
Eu diria que radicalmente mudar. O estilo de gestão é diferente, não quer dizer que o anterior director-geral fosse bom ou mau, mas este é novo. A pessoa anterior foi o momento ideal para a fase de transição que a Companhia atravessou, que visava passar de uma Companhia nacional para uma multinacional. Claramente [pretendemos] mudar, sobretudo numa visão mais interna, projectar competências que se transmitam de forma positiva a nível externo.

O seu percurso profissional esteve quase sempre ligado a empresas farmacêuticas. Considera que o conhecimento adquirido na sua vasta experiência profissional pode agora ajudá-lo na nova função?
O conhecimento prepara, a personalidade ajuda. Há um ponto-chave que qualquer profissional na indústria tem de ter – e isso não se aprende, nem nas universidades nem nas empresas –, que é estar preparado para que tudo mude no dia a seguir. A experiência dá-me maturidade para tomar algumas decisões mais ponderadas. Procurei sempre, ao longo da minha carreira, formarme, mas acho que a personalidade faz a diferença.

Alguém muito bem formado, com excelentes cursos, mas depois muito pouco pró-activo, muito pouco dinâmico, nos dias de hoje sobrevivia um mês nesta função.

A Jaba Recordati tem produtos nas áreas cardiovascular, gastrointestinal e metabolismo, da Dermatologia, Ginecologia/Obstetrícia, do sistema nervoso central, do sistema urinário e ainda para as perturbações músculo-esqueléticas. Quais as principais áreas de interesse da Jaba Recordati, neste momento?
As áreas core do grupo Recordati são a Urologia e a área cardiovascular. É aqui que centramos grande parte da nossa investigação e das nossas parcerias a nível internacional.

A nível local, fruto muito do perfil da Companhia a quem se licenciavam produtos, temos um portfolio muito alargado. Temos também uma área de genéricos com 43 moléculas. Nesta área, tendencialmente vamos tentar lançar dois produtos por ano, sem segmentar por área terapêutica. Na área farma, ou seja, o nosso negócio de marcas sob patente, a Urologia e a área cardiovascular são o nosso enfoque. Somos uma Companhia essencialmente de visita à Medicina Familiar.

A nível de Consumer Health a área de Saúde Oral é a mais completa e, no futuro, queremos alargar para tudo o que esteja relacionado com as patologias do tubo digestivo.

A área clínica onde apresentam mais soluções terapêuticas é a da Cardiologia. Tendo em conta o envelhecimento e estilo de vida da nossa sociedade, esta é uma área em crescimento? Como considera que evoluirá a descoberta de novas soluções terapêuticas nesta área?
Ao contrário do que se diz, 2009 foi o primeiro ano em que houve contracção do valor que se investiu em investigação e desenvolvimento. Relativamente a 2008, caiu 0, 9 por cento. No estilo de vida que temos, com o facto de vivermos mais, temos uma oportunidade de mercado fabulosa, ainda mais na área em que estamos, que é a dos doentes com mais de 50 anos.

A inovação vai ser muito acentuada, nomeadamente vai ser em novas formas de olharmos o medicamento, com novas associações medicamentosas (duplas, triplas, etc.).

Pensa que a investigação de novos fármacos pode ficar comprometida, numa altura em que o apelo do Estado incide sobre a redução dos preços dos medicamentos?
Certamente sim. Como disse, pela primeira vez em 2009, comparativamente a 2008, a investigação a nível mundial caiu 0, 9 por cento porque as companhias, nos seus balanços finais, querem ter balanços positivos, o que é legítimo e positivo, leva a mais investimento e mais emprego.

Penso que nos últimos anos se investiram 798 mil milhões de dólares em investigação e isso não significou mais e melhor investigação. Pior é quando vemos que muitas das medidas tomadas afectam a indústria farmacêutica, sobretudo a que investiga. É um “contra-vapor”. Nós poderíamos ser um cluster de desenvolvimento para ensaios clínicos, porque temos médicos muito competentes e hospitais que funcionam desse ponto de vista. Mas depois temos uma autoridade reguladora que demora muito tempo a aprovar os ensaios.

Temos a competência dentro do País e não a aproveitamos para isso. A Recordati aumenta em dez por cento o valor que investe em investigação e, em Portugal, reduz, porque, no final, temos de acrescentar valor aos nossos accionistas e reduzindo preços reduz-se claramente a margem, o que torna a investigação muito difícil.

Qual a sua análise do momento actual do sector farmacêutico em Portugal?
As grandes multinacionais olham para Portugal como periférico. O novo decretolei sobre comparticipações altera bastante a forma como as companhias vão ter de se posicionar no futuro, devido à redução das margens da Indústria Farmacêutica. Isto afecta-nos financeiramente. Vamos passar por um momento de crise que vai levar a uma gestão mais eficaz.

Já quanto à introdução da unidose nas farmácias comerciais tem havido algumas hesitações políticas e dificuldades na sua implementação. Considera que a unidose nas farmácias de venda ao público deve mesmo avançar?
Acho um verdadeiro disparate. Primeiro porque os países onde existia a unidose, como o Reino Unido, querem abandonar o sistema. É um disparate porque apela à contrafacção e porque financeiramente também não é viável. O doente até poderá vir a pagar menos e evita-se desperdício, mas na farmácia vai ter de ser criada uma embalagem própria, para além da embalagem que a farmacêutica já tem, vai ter de haver um farmacêutico para manipular o medicamento, vai ter de haver um técnico para atender o doente e ver o número de comprimidos e, por fim, a indústria vai ter de se adaptar a tudo isto e terá as farmácias e armazenistas a querer renegociar, porque estão a comprar ao comprimido e não à embalagem.

E é um disparate final porque ainda há bem poucos anos fizemos o redimensionamento das embalagens para as adaptar à real necessidade de tratamento dos doentes.

A RECORDATI

Quando falamos em Jaba Recordati falamos também de um grupo farmacêutico internacional (a Recordati). Qual a posição de Portugal dentro deste grupo?
Nas companhias internacionais onde estive, Portugal valia menos de um por cento a nível mundial. Aparecia no grupo dos outros. No grupo Recordati, Portugal é o quarto país, atrás de Itália, França e Alemanha e à frente da Espanha. Valemos seis por cento do grupo Recordati a nível internacional, o que quer dizer que é um negócio de muito valor para a Companhia.

OS GENÉRICOS E O DESPESISMO

A aposta do Governo tem-se centrado no aumento da quota de mercado dos medicamentos genéricos. Como vê esta opção política?
Parece-me uma medida inteligente, embora com algumas medidas pontuais muito pouco eficazes. Compreendo que haja medidas políticas que tenham de se tomar em determinados momentos, mas comparticipar todos os genéricos para os doentes com menor rendimento a cem por cento é uma medida que apela ao despesismo. Ao não colocar um limite faz com que as companhias sintam que estão a perder vendas. Não obstante, parece uma postura correcta do Governo apostar num mercado que traz redução de custos. Assim como também acho que devem existir regras bem claras sobre quando os medicamentos perdem a patente e se tornam genéricos. Vi com muito bons olhos a criação do tribunal de patentes em Portugal, de forma a salvaguardar as companhias que têm produtos de marca e as companhias de genéricos. Agora só falta saber quando entrará em prática.

A Jaba Recordati tem também no mercado vários genéricos. Pretendem continuar a apostar neste segmento? Em termos de futuro, qual a área que assumirá maior relevância na empresa?
Sim, se se mantiver a perspectiva de desenvolvimento deste mercado de genéricos. Se houver medidas como as de 2008, com a baixa de preços a 30 por cento, então não. A maior aposta da empresa é estar nos produtos de marca. Há três mercados onde a Companhia tem uma área de genéricos: Portugal, França e Itália. O objectivo é que os próprios produtos da Recordati sejam lançados como genéricos quando perdem a patente e desta forma gerirmos o ciclo de vida dos mesmos com uma perspectiva de longo prazo, sempre com o intuito de criar valor aos accionistas. Se for financeiramente um bom negócio para a Companhia, manteremos. E parece-me que vai ser face à nova legislação que saiu. Se não for, naturalmente não é o core business da empresa. Neste momento é uma aposta da Recordati em Portugal.

PERFIL

Nelson Ferreira Pires é licenciado em Direito pela Universidade Moderna de Lisboa (UML), fez um E-MBA em Gestão de Negócios do Sector Farmacêutico pela Universidade Autónoma de Lisboa (UAL), uma pós-graduação em Marketingpelo Instituto Português de Administração de Marketing (IPAM), em Matosinhos, e uma especialização em Gestão pela Universidade Católica.
Está ligado à Indústria Farmacêutica há 17 anos, tendo começado na Tecnifar, onde foi delegado de informação médica e chefe de vendas. De 1998 a 2003 foi chefe de vendas na Sanofi Synthelabo, em 2003 transitou para a Almirall, onde também desempenhou o cargo de director de vendas. A mesma função exerceu ainda, de 2004 a 2007, na Menarini S. A.. Chega ao Grupo Jaba Recordati em 2007, onde até Fevereiro deste ano era director comercial. Nessa data assumiu o cargo máximo da empresa, o de director-geral da Jaba Recordati. É presidente da Markinfar (Associação Portuguesa de Marketing Farmacêutico) e membro do conselho consultivo da Ordem dos Vendedores.

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